domingo, 25 de abril de 2010

Trago um cravo no peito, vermelho amor-perfeito...




Se um dia por acaso aqui passaste
ao sentires na aurora o perfume da saudade
lembra-te do cravo vermelho que pisaste
e sabe porque perdeste a liberdade

Carlos Tronco

terça-feira, 20 de abril de 2010

Uma catedral à beira mar




Junto ao mar
esse mar de pedras
onde começa a esperança
deixei como uma oração
um principio de catedral
onde cada nada é uma prece
ali, em constante desequilíbrio
o frágil da vida
à mercê do vento
do tempo
quem sabe, de um Deus.
Mas só assim pude voltar a luta
ao passo de dança
que nos conduz
pé ante pé
pedra sobre pedra
a outras madrugadas
Quem sabe...
Katia Guerreiro
também canta naquele fado maravilhoso:
-“Acordar contigo ao lado e te beijar...”

Carlos Tronco
Ïle grande, Bretanha
Abril de 10

sábado, 17 de abril de 2010

Bretanha




mar semeado de rochedos negros
inferno de granito,
um quase atlântico
sente-se a morte,
teme-se o mito
e o tempo passa
gritando
o seu triste pranto
a maré vai
e sempre volta
a fugir
abraçando areias
alimentando conchas
e os rochedos cansados
de orar e pedir
desfazem-se em pedaços,
rolam feitos bolas,
mas alma de pedra
ninguém sabe medir

Carlos Tronco
Île de Batz
17/04/10

quarta-feira, 10 de março de 2010

Esperança




Esperei. Esperei que a novidade fosse boa. Esperei que contivesse alguma esperança. O caos adorna tudo o que nos envolve e nos foi querido. O combate foi intenso. Durou todo o tempo, em que persistiu a inteligência. Mas o inimigo era invencível. Perdemos o primeiro combate. Agora devemos angariar novas forças ou seremos vencidos de vez. Não vos prometo a vida fácil de qualquer “americain way of live”.
Deveis saber porque combateis. Solidariedade. A tomada de consciência é o primeiro passo para alcançar a vitória. Não podereis ajudar o próximo, se vos mesmos fôreis incultos. Primeiro cultivai-vos. Não se trata de conseguir o tão desejado título de “doutor”, mas sim de ser capaz de concretizar com as vossas mãos, o que imagina o vosso espírito. No entanto ser-vos reconhecida a capacidade não é suficiente. É necessário, conseguir, concretizar, realizar: isto é apenas o primeiro passo.
Se tomais consciência, aprendeis, realizais e não conseguis transmitir o vosso saber, então para nada serviu o vosso combate. O homem não é eterno. Se depois de vos nada restar da vossa experiência, haveis sido inúteis. Parasitas. Os vossos erros devem evitar os mesmos erros a quem vos segue. Não evitará, sem duvida, novos erros. Diminuirá, no entanto, a probabilidade de errar e como tal, participará, à edificação de uma sociedade mais humana.
O aperfeiçoamento do homem, é a condição necessária, mesmo se não suficiente, para avançar no caminho do alto. No entanto, para alcançar o cume, será necessário que a esperança subsista.

Já Camões escrevia:
“Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia o pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia...”

Depois de sete requerimentos infrutíferos, depois de sete anos de espera, hoje fui autorizado a regressar à Faculdade de engenharia mecânica Pretendo que para ensinar é necessário ter a humildade de quando em quando de voltar a ser aprendiz.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Além-Tejos




Entre sobreiros que fornecem a cortiça
E o fundo mar que lhe permite navegar
Nasce no profundo Alentejo
O sorriso que acompanha o meu pensar
Entre pinheiros e resina
Sonhos, também quimeras, desejar
A distância é algo como as cortinas
Através delas interrogo o teu olhar

Carlos Tronco
Melides
Agosto 07

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Abre-te coração

Para beijar o coração
como quem beija uma mão
terá que se abrir o peito
com facadas, com punhais
com palavras e muito mais
com carinho e com jeito...

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Dizer




dói-me ver-te assim longe
sem poder tocar-te
-nem me digas nada.
sem poder secar as tuas lágrimas
-sabes...
sem poder beijar os teus olhos
impotente
frente a distancia
ao tempo
dói-me e nos dedos que tremem
ao escrever o teu nome
sinto os segundos fugir
como água que não lava
de tanto correr
quisera fazer tranças
dos teus cabelos
dizer o indizível
e até não falar
ser mudo
mas sussurrar ao teu ouvido
amo-te

carlos tronco
primeiros minutos de Janeiro 2010

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Vaga-lumes

Vaga-lumes,
micróbios estrelas,
luzes amarelas?
São verdes?
Vermelhas?
Pequenas são elas
E a ti, ofereço
As luzes mais belas

carlos tronco
luso poemas
30/12/09)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Fado do amanhecer

Se não é lindo, é um fado
a sina assim o quis
um fado escrito a giz
no negro profundo, de um quadro

Se é lindo porque diz
o que da alma expressa
a alma de aprendiz
é linda, mas não confessa

Ser lindo será pecado?
De palavras capitais,
talvez seja até recado

Das cordas ouvimos ais.
Só cordas de enforcado,
nunca cantam, nunca mais.

Carlos Tronco

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Pretendi





Pretendi esquecer
Quem era
Esqueci o vento
E ao sol atento
Quase não sorri

Esqueci a terra
Esqueci a guerra
Esqueci a língua
O tempo que mingua
Esqueci-me aqui
Perdi o alento

Se bem me recordo
Esqueci que era
Vivo
E me perdi

Perdi-me em sonhos
Perdi o destino
Se calhar o tino
Perdi-me de ti

Um dia voltei
Sem ter sido rei
E estamos aqui

Carlos Tronco
Baron sur Odon
01/01/2010

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Imagino

Sei
que as minhas mãos
nada mais provocam
em ti
que arrepios.
Sobretudo,
quando
beijando a tua nuca,
deixo escorregar
as minhas mãos
da ponta dos teus seios
até ao redondo
das tuas ancas.
Imagino aquele deus
amassando barro.
Imagino,
pois escrever
não sei.

Carlos Tronco
Mondeville
09/02/10

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Um adeus

Um adeus apenas
até à ponta branca de um lenço
agitado
até o vento acalmar
um adeus
uma dessas tristes cenas
em que o barco se vai
e fica por companhia
o mar


Carlos Tronco
Luso poemas
13/12/09

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Os simples e não menos concretos




Coisas simples;
um apelo à essência,
ao imprescindível,
a procura de um equilíbrio

Há quem fume depois do amor
A mim,
agrada-me a ideia,
de um acordar ao som de primavera
e partilhar torradas e café com leite.
A chuva é uma promessa de abundância
O carinho?
Adoro

A poesia não é o pão quente das almas ligeiras?
O alento que sente soprando ao vento,
os sonhos, os suspiros
As letras escritas
e simples
de quem a saudade peneira?

Carlos Tronco
Mondeville
23/11/09

ONDE ESTAS?

Medir a saudade, como quem mede a lágrima
enchendo a almotolia para que brilhe a chama
e atento ao tempo que não passa, ao amor sem sorrir
sufocar, desalento, esperando alguém
Que não ficou por vir e como vir não tem


Medir a milímetro e de braços abertos
para abraçar a vida, para parar o tempo
medir para abraçar e os cabelos descobertos
deixar o senhor vento espalhar o meu tormento
que enfim amando, possa ser feliz


Tristeza é coisa que passa
só quem vive, pode sentir
triste hoje para amanhã sorrir

Carlos Tronco
Mondeville
21/11/09

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Entre sonhos e penas alguém há-de voar...

Escolher, também é exercer a liberdade
escolhemos, portanto muitas vezes as algemas
e assim morremos presos ao passado, à saudade
somando sonhos perdidos, com perdidas penas

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A criação de um mundo




A criação de um mundo 9


No sétimo dia a obra foi dada por acabada.
Tinha terminado a minha primeira casa de banho
Dois meses de férias tinham passado
Seis horas
Abri a torneira
Tomei uma bem-vinda «duche»
Depois, deitei-me de novo, moralmente exausto
Adormeci
Amanhã, um novo ano lectivo me espera
Que ensinar?
O meu avô pretendia que os calos eram mais valiosos que as unhas
Mais uma espécie em vias de extinção mas, à qual alguma sociedade de protecção dos animais se irá interessar
Quando morrer o ultimo poeta, o mundo inteiro, nem cantar saberá.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A criação de um mundo





A criação de um mundo 8

Acordei sonhando. A noite fora um pesadelo. Senti-me afogar no dilúvio das torneiras esquecidas abertas, tal era a minha sede de purificação. Abandonei-me a ferocidade das ondas e não larguei o leme. Novo Ulisses, resisti a noite inteira a tentação das sereias de tão amarrado estar ao destino da obra.
Dormi e sonhei. No sexto dia, o sonho tornou possível a poesia.
Não uma poesia de palavras onde a métrica compete com a inutilidade. Não. Não uma poesia escrita para evitar que a verdade seja dita.
Sim, uma poesia simples.
Uma poesia de gestos onde o verbo segue a linha traçada pelo escopo, como arado que fere a terra para lhe dar vida.
Poesia de actos.
De sorrisos.
De esperanças.
Onde se sente atingir a plenitude, porque o gesto é conseguido e o conseguido corresponde a doação do melhor de si para o bem comum. Onde cada gesto é uma perpétua aprendizagem e cada aprendizagem, um passo no caminho da perfeição.
Aqui um chuveiro.
Além um radiador.
Um espelho.
Uma luminária.
Procurando a harmonia.
Tentando obter o belo.
Sabendo que gostos e cores não se discutem.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A criação de um mundo




A criação de um mundo 7
A obra avançava; Podiam-se adivinhar desde agora os contornos do caminho do alto.
A meta aproximava-se, e com a proximidade do fim, começaram a aparecer as dúvidas.
Seriam as paredes suficientemente espessas para resistir ao assalto da ignorância?
Seriam as canalizações suficientemente resistentes para resistir a pressão da impureza?
Seria a luz suficientemente clara, para que se tornasse evidente a emancipação?
Era questão de saber e logo de ciência.
Era questão de pureza e logo de consciência.
Era questão de liberdade e logo de justiça.
No quinto dia o palácio, foi equipado com os apetrechos necessários ao seu funcionamento.
Aqui uma torneira que iria ofertar a água, além uma lâmpada para distribuir a luz.
A torneira fechada vedaria a água?
Com a humidade não haveria risco de choque eléctrico?
As dúvidas conduziam-me a perfeição do gesto e a perfeição do gesto à tranquilidade da alma. A experiência era a via do aperfeiçoamento.
No quinto dia as dúvidas apareceram e com as dúvidas nasceu a filosofia.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A criação de um mundo





A criação de um mundo 6
Agora que o saber se encontrava protegido, tornava-se possível utiliza-lo.
Depois da água, veio a luz. Depois da luz, veio a segurança e com a segurança o belo tornou-se possível. Para decorar as nuas paredes, no quarto dia, foram cobertas de azulejo.
Primeiro azul para lembrar o mar onde se construi a identidade de um povo. Depois o azul misturou-se com o creme para testemunhar em arabescos geométricos da união entre os elementos. Enfim o creme sozinho para não esquecermos o leite materno e a nossa origem sociocultural.
A composição pretendia ser bela, e a beleza pretendia proclamar que inteligência e saber devem levar o humano à arte e não à perdição.
Em baixo o azul-escuro; em cima o creme claro. Tal é o caminho entre as trevas e a luz, entre o caos e a equidade.

domingo, 3 de janeiro de 2010

A criação de um mundo





A criação de um mundo 5
Depois da purificação e com a iluminação, impunha-se a
protecção. Seria a tomada de consciência, tal como Adão, que achou necessário cobrir-se, após ter provado a maçã da sedução ou então, a consciência de que seria necessário proteger o bem mais precioso, o saber?
No terceiro dia, começaram a sair dos abismos as paredes que se elevariam até à luz; primeiro de aço nu em homenagem a Hefaïsto, depois, esse aço foi coberto de escudos de gesso e celulose insensíveis à humidade. Diziam naquele tempo, que a água combatia o fogo, que sem fogo não havia aço, e que, enfim, havendo aço melhor fora que fugisse da ferrugem como da peste. Para agasalhar esta obra, as paredes foram guarnecidas com lã de rocha.
A partir de aí o saber pode serenar no aconchego de um palácio cuja função mais se assimilava a uma arca da aliança, sem as tábuas. Não. Nada estava escrito; mas em cada gesto havia a partir de então, o saber da experiencia.

sábado, 2 de janeiro de 2010

A criação de um mundo






A criação de um mundo 4

Depois de chegada a água, tornava-se possível a reflexão. Mas, para que na superfície lisa e calma das águas pudesse cintilar a inteligência, era necessário que existisse a luz; no segundo dia, o criador desejou a luz, e a claridade apareceu. Não a luz pálida e vacilante de um círio, brilhando apenas porque se mantêm as trevas da ignorância e que a mais ligeira brisa pode afogar. Uma luz dosada, económica e alta para que todos pudessem tirar proveito.
Dosada, porque todos sabemos o quanto as estrelas rendem cego. Económica para ser acessível a todas as bolsas. Alta para que a humanidade se levante. Para que tentando realizar o sonho último, o de tocar a luz, enfim escolha o caminho do alto e nunca mais aceite andar de rastros.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A criação de um mundo





A criação de um mundo 3
A poeira havia coberto as almas. Impunha-se a purificação antes de tudo. No primeiro dia o criador desejou a água, e a água correu.
Não a agua salgada por tantas lágrimas de desespero, nem a agua gelada pela solidão; a purificação deveria obter-se com a água temperada pela esperança.
Foi necessário trazê-la de longe.
Em cobre torcido pelas labaredas de um fogo, ele mesmo purificador. Um fogo nascido da união entre um oxigénio que soprava a vida e um acetileno ardente que lhe concedia o aroma.
Subiu.
Desceu.
Virou.
Tornou a subir.
Tão as sendas da purificação eram tenebrosas.
A água aconteceu e a sede do conhecimento pode enfim ser regada.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A criação de um mundo





A criação de um mundo 2
O combate prometia ser rude. Era necessário reunir um arsenal capaz de ajudar a vencer a inexperiência do criador. Nada de ultramoderno, de tudo o que esta tão à moda, nada da famosa tecnologia guerreira que serve não para libertar as mentes mas apenas ara espoliar as gentes. Não. A criação deste novo mundo, teria como exemplo, José o Carpinteiro e as suas mais simples ferramentas.
Então, este pai, não foi com simples serrote e plaina que ensinou ao Cristo o amor pela humanidade, que o levou a subir à cruz para nos salvar?
Alguém algum dia viu São José acariciar um madeiro de ceptro e tiara?

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A criação de um mundo





A criação de um mundo 1
Ao começo, o tudo, nada mais era que vazio, onde o sentido jazia inerte no abismo de um mar de trevas. Depois, esperança em um espaço-tempo luminoso e o esquecimento sem futuro tinha dado origem a uma argamassa de desespero e escuridão. A poeira da quietude havia coberto os primícias da revolta e a sujeira invadira as almas.
Mas, Deus não havia criado o homem para que se submetesse à facilidade, nem o havia dotado de inteligência, para que alguém, rei ou papa, pensasse no seu lugar. Então, seguindo o exemplo divino, tudo recomeçou.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Musas, por onde andais?

Musas, por onde andais?

A tua canção acrescento da guitarra
a voz cristalina de quem a corda encanta
presença, que alegra, como farta seara
seja a tua presença a nota que levanta

O punho e conduza à liberdade
das almas encerradas no inferno
de ti vou cultivar mera saudade
enquanto não terminar o triste inverno

Depois, talvez violetas, amores-perfeitos
mil flores de primavera a enfeitar
caminhos bem mais tortos que direitos

Conduzam um dia a encontrar
em ti musa e poeta a inspiração
para as minhas pobres letras adornar

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Juízo




Juízo

Branco gelado, cristais de geada
Ao sol canta um passarinho
Apagou-se a lareira e procura ninho

Mais um. Sem dúvida, direis
Em breve, vira cantar os reis
Frágil como avezinha. Mas de forma humana

Natal e barriga cheia. Festeja-se Jesus
Duvido que aquele que então subiu à cruz
Tenha esquecido ser filho do Carpinteiro

E na voz da agonia que canta lá fora
Há a revolta de um Cristo morto para nos salvar
Sem nenhum de nós, pronto para o imitar.

Carlos Tronco
Azé
24/12/07

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Dizer Adeus





Disseste Adeus e pensei
Adeus quando eu morrer
Disseste adeus e sonhei
Te voltarei, eu, a ver?

Morrer só morro uma vez
Que Deus tenha piedade
E vidas me dê ele três
Para matar a saudade

Sonhei, foi pena, acordado
Por não conseguir dormir
Partir hoje é sem agrado

Dizer adeus é fugir
Que a morte não me apanhe
Quando de morto fingir!

sábado, 12 de dezembro de 2009

ESPERA

Já nem a lua me envolve
apenas a solidão
e há muito que não chove
são lágrimas do coração

coração tem também penas
mas nunca soube voar
e cansado com verbenas
será que pode ainda amar?

amar não é só ter sorte
escolher o bom caminho
se não for até a morte
melhor seja amar sozinho

sozinho porque estas longe
e não tenho o teu olhar
lua sabes não sou monge
necessito acariciar

dirás: isso é masturbação
sabe bem, dê onde der
torradas também são pão
sem manteiga; tu mulher

não posso ver os teus olhos
e amar o teu sorrir
recebe abraços aos molhos
tem pena, não te vás rir

é que rir por vezes mata
a troça também faz morrer
a vida tem uma data
limite para sofrer

já não sei o que dizia
esqueci-me do começo
talvez chegue esse outro dia
em que o amor não tenha preço

e juntos de braço dado
por ai em correrias
tu amada e eu honrado
aprenda o que já sabias

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Mil e uma noites

um dia virei bater a tua porta
um tapete enrolado sob o braço
de oriente senhora podeis crer

este tapete vale mais que grande espaço
voante e ainda por cima é de cor

o tapete liga onde for
como o arco-íris do amor
a tua doce anca e o meu pobre braço

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Cordas e amarras

A corrente, que nos amarra à terra
a corda que nos prende as velas
a terra onde cultivamos a alma
as velas que nos empurram, para o mar
fruto maduro, um dia, para enterrar
o vento que nos leva, ligeiros, a sonhar
tornando nossas vidas, belas.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Lenços de papel

Se choras muito,
eu vou enviar-te um pacote de lenços
de papel .
Ouves?

Uma linda caixa cor-de-rosa,
com girassóis a enfeitar

Beijo cada lenço,
um a um
antes de enviar.

Como fazer depois, para tornar a dobrar?

Envio a caixa vazia!!!
Isto é, para quem vê com os olhos,
mas dentro irão,
com beijos, todos os meus sonhos.

E em vez de lenços de papel
para os olhos limpar
terás um pouco da minha
esperança
para
te consolar.

Carlos Tronco
Mondeville
13/02/07

sábado, 5 de dezembro de 2009

A fonte onde correm mágoas

Já não são asas que batem
Nem deuses que levam a cruz
São apenas ais sem luz
Já nem os corações partem

Tudo mudou e um dia
Começaram a crescer
Eram filhos a viver
Fonte de melancolia

Como uma ponte caída
Ou nascente ressequida
Esqueci o meu sonhar

Há caminhos e são muitos
Não levam a nenhum lugar
Se forem corridos sozinho

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Palavras de chorar

Os meus beijos não são beijos
minha mão, já nem existe
minha boca só persiste
a contar coisas em vão
são palavras, pensamentos,
mas são beijos, não se dão
são apenas os tormentos
no bater de um coração
são palavras, são malditas
não se podem transformar
em carícias em amor
são palavras de chorar

19/01/07

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Canto de sereia




Livre como o vento em noite de vendaval
de fantasma lençol, como em carnaval
uiva mais que canta, imita a sereia
voz que não encanta, voz de perdição

Quando estende o braço, vazia a mão
doi o coração, é como cadeia
libre como o vento, brisa já sem ar
afoga-se de mansinho como a sonhar

Sente-se perdido, tal é a liberdade
percorre este mundo, sem qualquer vontade
fala com os muros, responde o silencio
que morde calado, sinal de fastio

Em pleno verão, sente calafrio
e os narcisos murcham, era de esperar
as flores são seres vivos
hão de se matar!

Carlos Tronco
Mondeville
14/04/06

domingo, 29 de novembro de 2009

Vulcão à beira mar




O mar nada pode, para extinguir vulcão que explode
Desses amores súbitos e vadios nascem as mais belas ilhas
Do mar azul e das lavas ardentes são as filhas
O mar não apaga, quando muito fode.

sábado, 28 de novembro de 2009

Se um dia




Se um dia já sem jeito ao abraçar
O teu peito dos meus lábios não gostar
Será tempo de partir e o castigo
Será de não mais partilhar comigo
A cor verde, o azul do verde-mar

quinta-feira, 26 de novembro de 2009




Os meus passos são pequeninos quando a distância é grande
Se fossemos passarinhos, poderíamos aprender a voar
Não passamos de gente, apenas podemos esperar.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Terra




Terra,
Não Santa Terrinha
Na serra

Terra
Sim, chão para trigo
Pão e sepultura

Terra
Não lugar engraçado
Em mapa rosado

Oh terra impura...

Terra da amargura
Tu, que lavro com carinho
E fecundo..

Pão e vinho
O fruto
Da nossa guerra.

Quantas almas
Foi preciso
Sacrificar
Para o teu nome santificar?

Carlos Tronco
Mondeville
24/10/06

domingo, 22 de novembro de 2009

Pão com manteiga




Sabias que ser feliz, é muito simples
não há como sorrir, tu podes crer
eu sei quando sorris, por vezes mentes
mas sei adivinhar, mesmo sem ver

O dia esta lindo, mesmo se chove
o frio, também o vento, querem brincar
é pois o teu verbo quem comove
dizes, quero viver, não vou deitar

Apetece-me. Sim, a vontade, é quem dá força
sair, contar as gotas, dessa chuvinha
saltar nas poças de água e ser moça

Procurar pastelaria e que aproveite
pão quente com manteiga, torradinhas
e um copo de, café com leite.

Carlos Tronco
Mondeville
18/06/08

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Se tu me deres

Se tu me deres, um pouco do teu alento
Um pouco da tua graça
Dás-me pão, dás-me sustento,
E lá vou eu, pobre vento, a correr, até à praça

A dizer, com alegria
A quem passa, vai e vem
Que alguém me deu também
O que deu à Cruz Maria

Quero que saibam,
As barbas servem para isso
Os filhos que penduravam
São mais que fé, são feitiço

Vão crescendo e aprendendo
E quem tão pouco ensinou
Só a voar ajudou
Bater asas sozinho

Depois de árvore plantar
Dos meus filhos - mas não só - criar
Depois de algumas páginas escrever

Chega o momento fatal
Em que acorda o animal
Que nasceu para vencer

Se tu me deres
O sorriso dos teus lábios
Não preciso de mais fados
Nem do amor de outras mulheres.

sábado, 14 de novembro de 2009

A criação de um mundo

A!
Com a ponta do dedo
Tal uma varinha de condão
Desenhava
Ou melhor rabiscava
Nas tuas costas
Letras de um alfabeto
Imaginário
M!
Que tentavas adivinhar.
A tua pele
É sedosa
Macia
Cálida
Agradável ao tocar.
De quando em quando,
Um breve arrepio
O!
Acompanhava a peregrinação
Do meu dedo.
Ia escorregando
Ao longo da tua coluna vertebral.
Por vezes estremecias.
R!

Ainda não tinha terminado inteiramente
A letra G
E ja tu deixavas escapar um sussurro
AAAAAAAAAA
Depois outro mais intenso
Um quase gemido
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!

Acordei
O meu peito abandonado
Ao teu dorso
Agora
A mais formosa e delicada
Pagina
Do nosso romance de amor

Começava a desvendar
A face escondida da lua.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Meio manto




Imagino que ainda dormes descansada
É verão e nua sonhas consolada
Pelo fresco do ribeiro e sua água
Sorris quando sentes o meu peito
Encostado às tuas costas com respeito
Tentando apaziguar a tua mágoa

Ontem não voltaste, talvez zangada
E o tempo demorou, só a alvorada
Me trouxe um pouco da esperança que perdi
Por isso nos teus sonhos vim tão junto
E sem nenhum pudor eu te pergunto
Que sentes ao deitar-me junto a ti

Onde vamos mulher, eis o caminho
Quero descobri-lo palmo a palmo com carinho
Percorrê-lo ao teu lado olhando em frente
Cairei, mais de uma vez estou seguro
Quero ver no teu olhar um azul puro
E que seja a tua mão que me levante

Carlos Tronco
Mondeville
28/01/08

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Um Sol




Uma estrela apenas
A luz
Um cheiro de lavanda
De sul
De vida
De areia, de mar

Um sol.
Um sol
Da primeira alvorada
Uma estrela da madrugada
Uma luz de candeia
De azeite
De terra quente
O sonho que solda
O rir
A felicidade
De um primeiro beijo
Dado sem saber
Naturalmente
Como o primeiro
Dado pelo sol
À lua
Uma espécie de estrela
Redonda
De tanto acariciada
De tanto desejada

Beijada pelo sol
Perfumada desde cedo
Tentando aprender a voar
Erguendo-se
Com dificuldade
Das manhãs de inverno
Quando o frio das geadas
Amarra a alma
À horizontal planície
Como prece longínqua

A estrela do pastor
Então Vénus
Braço após dedo
Vagarosamente
A coragem
Acaba por vencer
As trevas
Para que enfim
O milagre do dia
Aconteça
E que o azul seja a assinatura
Do amor celestial

domingo, 8 de novembro de 2009

Renasceu





Renasceu
Das cinzas
Do nada
Fora árvore
Dera sombra
Floresceu
E o fruto alimentou.
Confidente de namorados,
Casa de pássaros,
Ninho de ventos.
Sonhou ser navio,
Sustento de velas,
Mesa de manjar,
Armário de panelas,
De janela madeira,
Liberdade de olhar.
Ardeu.
Ficou em cinzas.
E eu ao olhar para elas,
Perguntei:
-Porque assim findas?
Tu Tronco
De árvores belas.

Carlos Tronco
Azé
22 - 12 - 07

sábado, 7 de novembro de 2009

SELVAGEM




porque espero eu senhora
como se a madona fora
porque espero a aparição?
os caminhos eles são tantos
e por eles ouvem-se os prantos
os prantos do coração

não te quero ajoelhada
tu ovelha tresmalhada
imagina-me pastor
daqueles que vão por caminhos
deixando-os sempre limpinhos
mudando a pedra em flor

sou louco não tenhas duvida
assim calhou nesta vida
a próxima será melhor
acredita nos meus sonhos
pesadelos são medonhos
não amar é bem pior

ouves o som das trompetas
dos tambores e clarinet”a”s
imagina o eu ter voz
dança comigo querida
este som é o da vida
e a vida somos nós

vira Maria bonita
eu gosto de ti catita
do sorriso do teu rosto
mesmo se a distancia é muita
com o amor e a fé junta
irei até ti e com gosto

Carlos Tronco
Mondeville
03/12/07

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Arca

Procuro no silêncio do teu ausente olhar
A esperança, o caminho, talvez a luz
Procuro, como esse alguém, subindo à Cruz.

Pensava que do alto pudesse compreender
Os homens e partilhando o seu sofrer
Pensava amolecer os corações mais duros.

A virgem ao pé da Cruz até chorou
Mas esse sonho nunca resultou
Os cravos já há muito enferrujaram.

Encontro no silêncio, creio, sim
Face ao espelho, à ruína, ao ruim
Vontade para nunca naufragar.

Tu és a sereia que me encanta
O sopro, o alento que levanta
A nau, que um dia há-de salvar.

Carlos Tronco
Caen
18/12/07

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Chamas que ardem de fogo




Entre duas quase paredes de pedra outrora imaculada
Um rectângulo, como boca aberta
Por cima, na parta mais elevada
A cabeça; é sempre cabeça mesmo sem ter o poder de esperta
Erguia-se como um chapéu
Nada mais que uma chaminé
Procurei no bolso uma caixa de fósforos
Depois de lidos, os velhos jornais
Serviriam uma vez mais de arma de fogo
Lenha não faltava
A chama pegou rapidamente
Naquele tempo a estupidez humana
Ainda não era cultivada pela televisão
O encanto, o feitiço vinha daquele rectângulo aceso
Daquelas chamas que
Entre o vermelho alaranjado
E o azul quase celeste
Tanto parecia um instante ameaça infernal como
Pouco depois
Promessa de paraíso
As chamas, alguém já reparou?
Sempre se elevam param o céu...
Passei a noite velando a agonia
Daquele espesso pedaço de ramo
Há muito sem folhas,
Filho sem dúvida de um tronco
Ele mesmo sacrificado naquele altar
Enquanto a noite progredia
E o infernal fogo consumia com as suas vorazes chamas tão inocente criatura
A questão mesmo do essencial tornava-se lancinante:
“O que é a vida afinal?”
Algures, alguém decidira que era noite de natal
No entanto, no aconchego de uma lareira acolhedora
A solidão continuava tão pesada quanto a morte
Quando a ultima brasa se extinguiu
Escrevi já quase sem fé:
Prospero ano novo 2008.

Carlos Tronco
Azé
Centro de França
24/12/2007

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Distancia, é só meio caminho




Sim
Concordo
Compreendo-te
E tu sabes
Sabes como te amo
Como sabes
Que o amor
Não perdoa
Compreendo-te e desejo a tua felicidade
Mas, nasci homem
E assim ficarei
Imperfeito
Até que a morte
Nos separe.

Carlos Tronco
Ustaritz
09/11/07

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Sina




São meus
Os teus ciúmes
Como são teus
Os meus sonhos
Os medos são nossos
Somos
Quando unidos
Quando pomos
A mão na nossa mão
Somos donos
Do destino
E assim nasce aquele mimo
Com que bate
O coração

Carlos Tronco
Mondeville
07/11/07

domingo, 1 de novembro de 2009

A minha praia




A minha praia, de tanto ser areia,

já nem o tempo sabe

e já nem conta,

nem as ondas do mar

e nem escuta,

os cânticos da saudade, nem sereia.


A minha praia de tanto ser o mar,

não sabe já se vai, se esta a vir,

não sabe se deitar na areia é amar,

se correr nas ondas é sorrir.


A minha praia que já foi espuma

hoje é tardinha, é entardecer,

é uma praia deserta e sozinha,

mas que será praia até morrer.


Carlos Tronco
Mondeville
4/11/07