segunda-feira, 14 de janeiro de 2013




A culpa

A culpa não é minha
O campo ardia
E a chama tinha
Algo
Comparado à poesia

Deixei-me consumir
Até na aguardente me deitei
A culpa não é minha
Nem sequer do rei
Que mataram
Assim 
Já não come
A culpa não é minha
Mas em cada arvore que queimais
Algo na minha alma
Adormece
Como um jardim de cravos
Onde agora
Só florescem calhaus

Carlos Tronco
Granville
7/01/13

sábado, 12 de janeiro de 2013



-Quem manda?
-Deus!
-Bebe?
-Não.
---é porque não trabalha.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013


Tantas janelas
abertas
e eu cego

não posso olhar

-Porque não saltas?

-Não quero aprendera voar!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

domingo, 6 de janeiro de 2013



Fogos de palha
vermelho canalha
negro o teu amor

as achas de lenha
que dão tanta pena
entretêm a dor

fogos de palha
intensos mas breves
a mim não me calha

o meu coração
vai perdendo a mão
e tu não percebes

Carlos Tronco

sábado, 5 de janeiro de 2013


Músicas actuais

Mas
Será que a música é temporal
Ou que o tempo depende
De época
Se com o tempo a musica
Acelera
Até que
Considere a música
Como passatempo
Paremos!
Na pauta
As notas perdem o equilíbrio
Lá em cima
As mais agudas
Caem primeiro
E torna-se grave
Este campo
De ruínas musical
Onde o silêncio
Lembra que
Para tocar
Não se pode ter dó

Carlos Tronco
Evrecy
03/12/12

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013


Porquê?

Porquê
Uma maçã
É pecado
Quando pêra
Apenas fruto?
Porque tão
Estranho recado?
É de perder o juízo
Pergunto,
Porque não sei
O porquê do paraíso
Má costela, a de Adão
Má acção a gulodice
A história não vale tostão
Vale menos
Tudo o que eu disse
Eva comeu a maçã
Adão ele,
Ficou com fome
E assim até fé some
Somos todos pecadores
Vivam pois os meus amores,
Mas porquê,
A tal maçã?

Carlos Tronco

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013


Onde estas peito que dói?

Dói-me o ar que me arde o peito,
ar, onde voam andorinhas,
que vão, e voltam de longe,
que trazem saudades minhas,
dói-me o peito, dói-me a vida
dói-me o ar que respirar
e tu a rires rapariga,
puderas te apaixonar,
não sei se dói, se eu sonho,
também não, se é ar ou céu,
dói-me já tanto voar,
já nem sei se o peito é meu

carlos tronco
03/01/13
Aqui
-Vamos!
Tínhamos chegado junto ao mar havia muitas luas. 
Ao contrario do que tinha prometido o oráculo, o mar não se tinha afastado e ali tínhamos esperado.
Nos albornozes, já quase não havia letras, que queimar.
Tinhas-me perguntado:
-Porquê? Deus não existe?
-Deus não sei, mas as estrelas são reais. Vê como brilham nas tuas lágrimas. Se o mar não se aparta, há que vencer o mar! Dizem, que do outro lado do mundo, um povo construía pontes. Restam ainda, algumas letras...
-Façamos frases, digamos versos...e rápido alcançaremos o além, o outro lado do longe.
-Mas pontes com letras de amor...?
-Sim, quando o verso é belo, tudo é possível.
-Mas querido, a lua, as tempestades...
-Sim, talvez seja necessário reconstrui-las...
-Lembra-te de Babel!
-Sim, mas não se entendiam!
-Então?
-Façamos, depois veremos...
-Eu ainda tenho um P.
-Eu um B!
-Meu Deus...!
-Eu tenho um O.
-Vamos!
-Sim Amor.

Carlos Tronco
Quando se acrescenta à letra cor
Evrecy
26/11/12

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013


Swing

Ligeiro
Como uma nota de música
Que apenas se escapa
e logo explode
Tal uma bolinha de sabão
Como se necessário fosse
Morrer primeiro
Para se tornar eterno
Num derradeiro swing.
Música maestro!

Carlos Tronco
Evrecy
29/11/12

terça-feira, 1 de janeiro de 2013


Diz-me

Cigana diz-me
Que sina,
Me consome,
Que paixão
Me há-de levar pela mão,
Diz-me cigana
Não mintas,
Sou tábua
Hei-de ir ao mar,
As ondas altas que sintas,
Diz-me onde
Me hão-de levar.

Carlos Tronco
Evrecy
26/11/12

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

e porque esperar que o ano acabe para ser feliz? se vos apetece uma pinga , não espereis as doze badaladas, a não ser que quereis comer uma abóbora. se desejais um beijo, sorri, um abraço, dai-o, e a tradição? que se foda! a verdadeira revolução, esta em partilhar, a chama que há tantos anos levais apagada no fundo do peito com medo de vos queimardes e assim ninguém nunca soube porque ardeis. içai as velas, vento haverá sempre e nem os ruminantes no governo o podem confiscar. gritai se o peito é demasiado pequeno para conter a esperança. cantai se a garganta dói demais para ter paciência. não espereis a nova madrugada. é ao crepúsculo que o sol adormece e a luz da esperança morre. e se eu morrer primeiro, bebei a minha saúde.

domingo, 30 de dezembro de 2012


Carpinteiro

Um lápis pontiagudo
Afiado
Carvão tipo bicudo.
Vadio.
Coçando a folha vazia,
Deixando o traço sebento,
No papel, logo cinzento.
Um lápis de carpinteiro
Um poeta sorrateiro
Desenha com letras, historias
Formas e também tretas
Testemunho
Pedragulho: carvão.
Um lápis,
Que pelo sim pelo não
Deixa perdido em papel
Traços de vida
De fel
E assim vai aprendendo
Quanto na vida é tremendo
Não saber
O que escrever.

Carlos Tronco
Ste Honorine du Fay
01/12/12

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012


Uma tábua

Ter uma tábua
Já é poder sonhar
Basta deita-la à água
Já se poder navegar
De um lenço faz-se a vela
E em vez de acenar
Deixa-se o vento beija-la
Da tábua faz-se um navio
A vela põe-se a ondular
Vinde ver a barca a vela
Vinde comigo
Acordar.

Carlos Tronco
Caen
26/11/12

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012


Navio

Onde vais mar de navio
Com velas tão delicadas
Sabes as ondas salgadas
Sabes quanto só e frio
Andar por terras sagradas
Como anda o teu vapor?
Sabes mar quanto é profundo?
Nada aprender neste mundo
Ser barco
E não saber remar.

Carlos Tronco
Carlos
20/12/12

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012


Além

Procuro além
Junto ao estreito horizonte
Onde se refugiam os
Meus olhos
Onde a esperança
Quer ser ponte
Entre
O que foi
E o futuro
Entre o vivido
E o sonhado
Ponte
Arco-íris
E de cor
Se cor tem
O crepúsculo
Se cor tem
É já noite
E se o cinzento também é cor
Se a chuva também lava
Se a lágrima também absolve
Se a pobreza se perdoa
Se a incerteza...
Não sei.
A noite ela cai!
O frio tão branco
A corda, nem tanto
Aperta, aperta, aperta
No desespero, na confusão
As pernas tremem
As mãos imploram
A noite cai.
Procuro e não vejo
Procuro e não sinto
E a noite cai.

Carlos Tronco
Caen
20/11/12

domingo, 23 de dezembro de 2012


Pena não voar

-Asas que não sejam penas!
Asas,
Para quê?
Se o infinito acaba
Onde termina a vida.

Carlos Tronco
Caen
20-11-12

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012


Tinto

Um litro
Entre a esperança e o desespero
Sangue de um Cristo
Ou sangue de nós
Um banco
Onde esperava
Que o pesadelo,
Passasse
Mas, quem gritava?
Dói tanto a voz!

Carlos Tronco
Evrecy
22/11/12

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012


Prisão

Quando voar se torna grades
Preso, um pássaro, fora do seu ninho
Olhar triste, que verdades
Ver um céu, um sem destino
Preso por algemas não soldadas
Ao tempo, preso à terra, preso ao vento
Contar ao rouxinol palavras dadas
Temer não cantar, mas trair o pensamento.

Carlos Tronco
Evrecy
15/11/12

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012


Madrugadas de insónia

A noite caía
Húmida, fria
Como cai a noite.
Sombria.
Os teus olhos negros
Que junto à lareira brilhavam,
eram o meu aconchego.
Sonhavam,
Ou melhor,
Permitiam-me
Esperar
Que depois da noite,
Que depois do frio,
O meu olhar,
Te poderia acariciar.
Tchin, tchin...!
Alegria!
Lá fora tocava
Num saxo tenor
Um blues perdido.
-Danças?
Troquemos os passos
Da vida;
O madeiro arde.
A vodca Zubrovska
Corre.
Depois o vidro vazio
Brilha
Tequila também já não há.
Nem cigarros
Nem fumo...
Danças?
E se a noite finda?
E se o amor é pouco?
E se a esperança é apenas sonho?
Lábios colados ao espelho
Digo:
(não digo, grito)
E se não me amas?
E se sou apenas louco?
Quanto mais não ganhar,
Valeu o teu sorriso maroto.
Não é fácil provocar um sorriso
Terno, nos teus lábios, mulher.
Foram tantas
Tantas as que vi chorar.
-Amas-me?
Ao espelho,
De madrugada,
Pergunto:
Quem és?
O lado da luz
Que eu nunca fui?
A minha chama, o meu tormento?
Quem és?
E eu, existo?
O sol já chegou.
A noite já foi.
Tu já nada mais és que saudade.
Eu já não sou mais que amizade.
Quem serias,
Se a noite fosse eterna?
Quem serias se eu conseguisse sonhar?

Carlos Tronco
20/11/12
Evrecy

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Abandono


Quando os meus braços caírem
e o teu espaço seja apenas infinito,
que nos sobrará, ainda, por abraçar?

Um sorriso?
Talvez!
Mas de um velho inútil,
já ultrapassado pela derradeira esperança.
Sorrirás sim,
mas da minha pequenez,

por não ter sabido encontrar
os versos que te fariam
sorrir,
desde hoje.

carlos tronco
Baron sur odon
24/11/12

terça-feira, 30 de outubro de 2012


Verdes são os campos

A ponta de um corno como bandeira
à beira mar plantada e no campo trigo
pobre, um lavrador, sem eira nem beira
tendo por morgado o único inimigo

pobre porque? será pobre a esperança?
ser feliz um sonho, aos filhos dar abrigo
pede trabalho, mais do que vingança
nos calos as letras, cantarei  contigo

mudo, cantarei a liberdade para ti
cantarei amor que me desconheces
o cantar são armas que a um deus pedi

a ponta de um corno, o que nos deixaram
mas guardei semente, plantarei ali
se nascerem cravos, florirão o chão

Carlos Tronco

sábado, 27 de outubro de 2012


Um lenço; sem dizer adeus

com a idade perde-se a precisão do gesto
as palavras já não acariciam, magoam
a voz treme, as cordas vocais destoam
perde-se a compostura, a esperança e tudo o resto

era necessário, poder dizer-lho ao ouvido
de quem foi outrora tropical, o sopro quente,
um murmúrio largo e talvez comprido
que a faria rir, ficava eu contente

sonho impossível, humano não é divino
milagres das rosas, não havia pão
chovia, baldes de agua, eu sonhava vinho

nem copo , garrafa, nada tinha à mão
letras eram poucas, pouco sei dizer
sê feliz mulher, eis o meu sermão

Carlos Tronco
Ifs
26/10/12

domingo, 30 de setembro de 2012


Trança de sonhos e pecados

Deita-te sobre mim
que possa
fazer tranças, de olhos fechados
dos teus sonhos e dos meus pecados

deita-te para apaziguar

os meus pedidos são muitos
mas creio que assim juntos
não haja frio nem mar

tu serás a minha vela
haja vento e não cautela
o oceano é pequeno

se tu beijares os meus lábios
não prometo sermos sábios
mas será amor sereno

tal é a distância, entre a razão e o sonho
uma intersecção que um deus proibia
o sonho andava triste, como o outono
enquanto a razão de tão só, só sofria

um dia, foi engano? a consciência despertou
há muito observava, a valsa de estes dois
ao sentir tanta distância, pegou no lenço e chorou
e a partir de ai, não acreditou no depois

carlos tronco
caen
29/09/2012

quarta-feira, 16 de maio de 2012


Vamos...!
Os anos tinham passado. Aves migratórias, tinham voltado e, os filhos tinham aprendido a voar. Agora eram os netos, que tomavam o rumo do desconhecido, para onde o destino os chamava. Tu, continuavas ao meu lado. Os teus cabelos negros, iam branqueando, conforme avançávamos nos caminhos que nos haviam conduzido. As minhas barbas igualmente. Os primeiros passos tinham sido marcados pela esperança de uma vida melhor.
            Sonhávamos que os nossos filhos pudessem aproveitar a nossa experiência, pudessem evitar os nossos erros, para enfim atingir, a geração da felicidade. Mas, tais como os pássaros que aprendem a voar, os filhos, há muito tinham abandonado o trilho dos anciãos e cometiam agora, os próprios erros. No entanto, na sua força de convicção, na rudeza do seu combate, reconhecíamos as cores das nossas velhas esperanças, a sombra dos nossos antigos fracassos.
            Adultos, eram no entanto, agora, donos do seu próprio juízo. Os velhos que nos tínhamos tornado, já não podiam justificar a sua própria inércia, a sua cobardia, as suas incertezas com o preservar o futuro dos nossos descendentes: tinham crescido e voavam com asas próprias. Então, as pedras do caminho tornaram-se mais pontiagudas, as pernas que nos moviam, tornaram-se mais pesadas e as costas que nos protegem, tornaram-se mais doridas. Cada passo dado, parecia agora uma chibatada de um chicote divino, que não perdoava, o não termos abandonado a esperança. Quanto dói a esperança. Quanto dói a experiencia. Quanto dói a liberdade!
            Caminhava-mos juntos e a dois, a vida parecia menos solitária. Tínhamos atingido o mar e deixado as nossas pegadas na areia que as ondas, agrediam por prazer. Tínhamos atravessado o atlântico e o vento de novo nos havia encaminhado para casa. Tínhamos procurado a liberdade, mas muitos mais eram os que procuravam satisfazer a ganância. Eu estaca quando tu vida. Tu fio de Ariadne quando eu perdido. Os anos tinham passado. A natureza das expectativas, ia evoluindo. Ontem pretendíamos conseguir. Hoje, apenas desejamos poder aceitar. Longa era a fila dos discípulos que nos tinha seguido. Cada um tinha transformado as nossas esperanças, em novos projectos de aperfeiçoamento. Assim, nas pegadas de outrem, reconhecíamos a hesitação dos nossos primeiros passos. A terra continuava a girar, e no seu passo de dança, encontrávamos motivo de satisfação. A multidão tornara-se onda e na cresta dessa onda, se movia agora, a sensação de felicidade.         
A velhice, trouxera consigo a aceitação e na aceitação de si, havia-mos encontrado o eco à felicidade desejada. Finalmente, morrer nada mais seria, que atingir a meta, no caminho da vida. Quem seguia, continuaria a procurar, como nós. Assim, atingir a imortalidade, tornava-se possível.
Quando o cabelo branco se fez raro, voltei-me para a multidão e aquele que me seguia, disse apenas:
-Eis o meu bordão! A partir de agora, será o teu ceptro e com ele, encontraras a força para não abandonares os teus sonhos.
-Vamos ! Ainda há caminho para andar...


Carlos Tronco
Baron
14/05/12

terça-feira, 24 de abril de 2012

Se um dia, por acaso, aqui passaste
ao sentires na aurora o aroma da saudade
lembra-te do cravo vermelho, que pisaste
e sabe, porque perdeste, a liberdade

Carlos Tronco

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Um muro 
tanto pode ser um obstaculo 
como um terreno de jogo, 
onde, nos interstícios,
de veneráveis pedras, 
correm lagartos,
entre raios de sol 
e perdidas moscas.
Aqui o possível,
alem o imaginário.
A letra exata
o ponto no i, 
só a alma poderá encontrar.


Carlos Tronco




segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Olhos, para onde olhais?


A minha praia, exposta à noite,
ao norte, ao vento,
já não há conchas que a adornem.
A areia é muita e cega
quem interroga as estrelas.
De quando em quando,
passa uma cometa, a fugir
e é na sua cabeleira desguedelhada
por tantos anos-luz de incertezas,
que procuro enxugar as lágrimas
da minha ignorância.
Em vão.
Em vez de encontrar felicidade,
apenas queimo os olhos.

carlos tronco

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Deus te perdoe!



A eternidade, começa neste instante.
O que advém depois
reduz-se a tempo que passa:
resta saber se a segunda metade da vida
deve ser obrigatoriamente simétrica, ao principio
ou apenas metade de diferenças passadas.

Somas de igualdades não constituem
conjunto soberano ( ex. um mundo constituído só de parafusos sem porcas)

Por outro lado soma de diferenças produz intersecções vazias.


Acreditas em Deus... seja!

Mas em qual?

Uma força?
Aceito.
Só que duas forças de mesma intensidade provocam efeitos distintos segundo a distancia que separa o seu ponto de aplicação, do ponto onde é avaliado o seu efeito.
Assim se deus existe e é uma força, cada um acaba por inventar um Deus à sua imagem e semelhança e a soma de uns, nunca constituirá um todo, omnipresente, omnisciente.
Imagina agora duas forças de igual intensidade, de mesma direcção, mas de sentidos opostos: isto é duas forças directamente opostas.
Adiciona-as.
Assim poderás demonstrar que o deus força não existe, porque se o teu deus é directamente oposto ao meu, a adição dessas duas forças celestes, é absolutamente nula.
Até me demonstrares que a tua força divina é superior à minha, continuarei a pensar que és quase tão agnóstica que essa metade da minha alma que não reconhece limites, por ser infinita.
Se Deus existe lá te há-de perdoar.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Folhas derramadas

Suo com as folhas
com o outono
com o vento
a vida vai-se amarelando conforme cai
a chuva rega o desespero da solidão
e os ossos resistem
enquanto a saudade parte
um jardim de inverno é vazio
os pássaros fogem
as folhas caem
o sol já não brilha
só a noite reina
e as estrelas se calam
para cantar é preciso ter voz
não é rouxinol quem quer

Carlos Tronco

domingo, 13 de novembro de 2011

Frio Tombal


Frio Tombal

Esta noite não sei com que solidão falar
Todas as mulheres se calam
Todo o amor se esgota
Toda paciência é vã
E tu apenas pretendes que nunca vou entender.

O peso do silencio quando não fere, fede
A noite de domingo excomunga a esperança
O outono da vida é triste
Chove
Folhas amareladas
E nem todas as folhas juntas fazem recordar a primavera
Sinto o nó na garganta
Espero que a morte seja rápida
E o paraíso decente
Amanhã outros purgatórios se animarão
Quem não trabalha não come
E um Deus vai-se rindo
Das formigas

Carlos Tronco

domingo, 18 de setembro de 2011

A PEDRO DISSE


A Pedro disse

Na cova o silêncio enterrado
e o barro cozido de forma humana
lembra aquele outro, em narrinas soprado
por um deus criador ao findar a semana.

Dizem ter criado o mundo em sete dias,
o ultimo tendo sido para descansar,
e eu procuro nas liturgias,
o que para além da verdade, me permita, sonhar.

Como ali nessa vala, dos tempos antigos
Nem verdade, em sonho, eu encontro
mas apenas guerreiros, mortes, inimigos.

Em vez de armadas, concebamos anforas para o vinho
Morra a sede! Hei-de sempre eu gritar
pois nada mais, neste mundo, se deve matar.

Carlos Tronco

domingo, 21 de agosto de 2011

Sobras de uma tarde, quando adormece o sol



Vinha.
Depois recuava.
Enfurecida com tudo
também enfurecida com nada.
Por vezes levava a vida
E sempre com ela brincava.
Ouvi mesmo dizer,
Que dali provinha toda forma de ser.
Estava, claro, a adorar o mar.

Mas então,
Se a vida vinha do mar,
Haveria algo mais estúpido,
Do que adorar o céu?

Alguém gritou:
-Claro,
Antes do mar, quem havia?
Quem criou o mar?

...é evidente, isso não sei,
Quem foi o primeiro,
O ovo ou a galinha, quem criou
Quem criou o mar,
Quem criou deus,
Nem tantas outras coisas.

Quem disse que deus vinha do céu?
Posídon não vinha do fundo dos oceanos?

Então, molhei os pés.
Com o frio da agua e
Porque os anos a pensar,
Já eram muitos,
Acabei por mijar nos calções.

A vida continua mesmo quando
A incontinência acontece,
Até porque,
Ninguém repara
Num velho
Que tenta afogar as dores,
Sonhando
Com o outro lado do mar.

Carlos Tronco
Almograve
Agosto 2011

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Cascas de nozes



Cascas de nozes

Era água ou mar?
Sombra de falésia ou sonho?
Chovia.
Chovia a felicidade de um instante.
Sentia a tua presença feminina
No mais profundo
Da minha loucura.
Bálsamo,
Que sara as duvidas.
Bálsamo.
O guarda-chuva teimava em revoltar-se.
Contra o tempo, contra o vento.
Fechado tornava-se engraçado:
O sorriso adornava-lhe os lábios
Enquanto as falésias
Se iam desmoronando.
Até na pedra mais dura,
Há pontos frágeis.
No humano é o coração
Que cede o primeiro.
Há quem venda lágrimas alheias.
Outros oferecem apenas
Os próprios sonhos.
Então disse:
-Sardão não é gafanhoto!

Carlos Tronco
Cabo Sardão
Julho 2011

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Kimbanda Kambuta


Um abraço do além

Onde o mar é mais que longe

Onde o vento mais solitário

O futuro imaginário

Ser poeta, é ser quem foge

À morte ao ordinário



O homem não se mede a palmo

Nem a alma

Nem o coração

Altura é quanto basta

De peito e dedicação.



Carlos Tronco

Mondeville

02/05/11

sábado, 14 de maio de 2011

Sonhar , é meio caminho andado.


Adormecer, contigo ao lado, não consigo
sonhar acordado, mesmo sozinho , também não
e por isso, do futuro, até duvido
não durmo, logo não sonho, peço perdão

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Aventuras






http://www.salondulivrealencon.fr/

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Arrepios


Arrepios
Porque treme, a tua pele macia,
Quando os meus cinco dedos,
Um mesmo destino,
Uma só mão,
Espantam o voo das borboletas,
Que gemem cobrindo,
Das suas garridas cores,
O instante de um toque?
Os teus dedos,
Ávidos da minha esperança,
Conduzem suavemente,
A palma da minha mão, até ti,
Até o teu longínquo e solitário
Recanto, onde,
O bater das asas azuis,
Significa que o amor aconteceu.

Carlos Tronco

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Azul e redonda



O homem perde a humanidade
Quando esquece a cor da esperança
Para sonhar com conformidade.

domingo, 13 de março de 2011

Boa noite


Boa noite

Guardo-te comigo
No meu colo
Acariciando-te enquanto vou virando
As folhas de uma vida
As letras da canção
e escrevendo.
Poesia?
Fado?
Descrevendo sonhos.
Batalhas, legendas,
Vontades, desejos.
Loucuras!
Beijando o rosto.
Sugando os teus lábios.
Solicitando,
o mais intimo da tua alma,
o teu desejo,
a tua paixão.
Inundando-me nos teus leites,
afogando-me no teu gozo,
esperando nunca acordar.

Parte-me o coração, ter que deixar,
uma vês mais,
a vida por acontecer.

Sonhos lindos,
Dorme bem.

Carlos Tronco

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

sábado, 23 de outubro de 2010

Malhadas


Malhadas

Olha-me.
Mas não vejas em mim,
O cansaço de um caminho
Que apenas sonhei.
Sente a esperança
Que depositei
Em cada grão de trigo
Que ofereci à terra.
A terra é estrangeira,
Mas o sol é nosso, de todos
Em conjunto.
Como a chuva que nos molha,
Como o orvalho que nos acorda.
Avança.
A cada passo, a terra gira
E a seara não tarda a ondular.
O vento, mesmo vadio,
Sopra. E vem de longe.
Sonhei sim.
Sonhei soprar
Nos teus cabelos
Desguedelhados
Até sentires
o sabor dos meus lábios
Na tua nuca.
Como é agradável
O olor do pão quente...
Morde-me agora!
Pois amanhã, não sei
Se voltarei a semear.

Carlos Tronco
UniCaen
23/10/10

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Métodos numéricos

Não soube.
As agulhas estagnavam
Num espaço tempo
delimitado
por um arco de circulo
completo
Dividido em doze porções
talvez cada uma,
uma
parte de um evangelho
e cada minuto que passava
uma reza,
um capitulo
de um dos apostolos
que teria preferido
a certeza do divino
à aproximação de uma integral.
Desesperadamente,
o tempo não corria,
e proporcionalmente à velocidade do tempo
a minha folha de papel
continuava absolutamente vazia de sentido.
Tinha adotado as matematicas
no terceiro ciclo
e passava então
o meu primeiro exame.
Santa Trindade:
Lagrange, Cauchy e Simpson
Ajudai-me
pois eu não sei como fazer.

Carlos Tronco
UniCaen
20/10/10

domingo, 26 de setembro de 2010

Anda! Sobrará tempo para pensar.



Tinhela (Concelho de Valpaços-1987)




Anda. Sobrará tempo para pensar.

Tronco pega até de estaca
Como pedra na muralha
Se o leite também é vaca
Tronco é fio de navalha

O verde a cor do sonho
Vontade também não falta
A honra é o meu punho
Que levanto e em voz alta

Proclamo, mas bem sabeis
O passo faz-se com jeito
Se a coroa é para os reis
As folhas são o meu leito

Ali deito as minhas letras
Esperanças, sonhos, mimos
Redondas, deitadas, pretas
Andar; depois ver caminhos.

Carlos Tronco
UniCaen
24/09/10

sábado, 21 de agosto de 2010

ENCONTROS



Não são abraços nem beijos, a distância não permite
Mas algures em um velho peito, um coração em palpite
A emoção foi violenta, ia-me dando uma coisa
Deixastes dos astros o brilho, das estrelas os sorrisos
É bom saber, nesta vida - bem preciso - ter amigos!
Para navegar em mar alto e depois deixar na lousa.

Palavras e muitas vezes, sem o mínimo sentido.
Pensamentos, sonhos, ventos; até perco o juízo;
Mas procuro, simplesmente, um caminho, uma picada,
Que me leve mais adiante e se possível mais alto
Quero voar um dia, no dia do grande salto
Admirar na planície, a fragilidade da vida.

Ver, de um só olhar, do horizonte a verdura
Dos belos campos de trigo e no meio a formosura
O verde da esperança, pois com trigo não há fomes,
O vermelho das papoilas, violência da paixão
Recordar uma vida cheia e no meio do coração
Sentir todos os amigos, recordar os meus amores.

E aí dizer: oh Deus! A minha vida foi boa.
Dá-me mais alguns aninhos, não faças coisas à toa.
Falta-me ainda confessar, ainda não disse tudo:
O meu primeiro amor, encontrei-o num altar
Era uma virgem de barro e continuo a procurar
O que a virgem não me deu, quando ainda era miúdo!

Carlos Tronco
Évora
24/02/04

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

"Estrela da Galicia"




Estrela da Galiza

Esperava que caísse a noite.
Que sobre o mar caísse,
O brilho das estrelas.
Quando o mar mais negro
Brilhava só de vê-las,
Aí sim, me aproximava da areia.

Que fazia ali? Nadar não sabia.
A água gelada, o banho proibia,
Se o mar está bravo, não há
Como vencer,
Sentado na praia,
Tentava aprender.

Olhava as crianças, construir castelos;
Castelos de areia, de vários modelos,
Atitude simples, de génio primário:
Sem Deus por modelo,
Nem santo sudário.
Erguiam castelos de sonhos, meninos
De areia molhada e de grãos mui finos.

Algures se empregava, o aço e cimento
Se faziam torres,
Prisões para os homens.
Felizes como peixes,
Com o anzol na goela;
Ou burros de cigano,
Presos a uma argola.

Carlos Tronco
Muros
02/08/10

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Santiago Mata-mouros




Depois de um ano de incertezas profissionais, aqui estava de novo, em Galiza, sentado frente à ria de Noia e Muros, a escassos quilómetros de Portosin. Tinham passado 13 anos. A minha filha mais velha tem agora doze, e há treze anos tinha lutado com sucesso para obter a qualificação de “professeur certifié” na área da mecânica aplicada. Desde então, exerci em vários estabelecimentos de ensino técnico e superiores, uns anos com mais facilidade, outros com mais dificuldades, mas em geral tentando transmitir aos alunos, um pouco do meu conhecimento técnico adquirido não somente nos bancos da escola como também em varias empresas privadas de quem fui empregado quando mais jovem. Como o tempo passa! E nada muda.

Sempre a mesma promessa de felicidade da parte de quem nos quer submissos, governar. Sempre as mesmas palavras de ordem para “papanatas”:
-Travaillez plus pour gagner plus!

Uma porra! …assim vão enchendo os bolsos e alimentando o sistema bancário helvético, enquanto a massa anónima dos trabalhadores, vai perdendo fé e esperança. Vai-se admitindo que ao fim e ao cabo, são todos iguais, vai-se admitindo a necessidade de um poder forte, “fazedor” de milagres como no filme “O botas e o Galego” que há muito já quase esquecestes. Vai-se contentando com histórias de milagres, de meigas e fadas e sofrendo a incultura ultra securitária de quem apenas defende os interesses da sua casta, senão os próprios interesses. Assim nasce uma nação próspera para alguns e miséria e maldição para quase todos.

- E porque é que o povo não se revolta, perguntareis?
Porque o principal dirigente, se afixa com beldades com quem a maioria da população masculina desejaria copular. Em uma palavra, todo um povo financiando as putas da República com a impressão de, por isso, beneficiar também do bordel, bordel onde apenas os outros comem.

-E quando o bordel por telepatia já não chegar para contentar o povo?
Haverá sempre um papa, um rabi, um mollah para mostrar o caminho do paraíso, para palrar de felicidade, só que, os milagres, nem em Fátima nem em Lourdes acontecem todos os dias e dar a mama à religião custa cada dia mais caro. Caro tão ou mais que os seus compadres militares. Quanto não custa hoje em dia criar uma guerrita para entusiasmar o Zé-povinho?

Alguém se lembra da heróica luta do povo afegani contra o invasor soviético? Alguém se lembra do principal aliado do “ocidente livre” , financiado e treinado por fundos obscuros, que lhe permitiu adquirir, por exemplo mísseis Stinger capazes de abater um helicóptero como uma caçadeira abate uma perdiz ou um cajado duas lebres? Já esquecestes claro; que um Deus vos perdoe. Já esquecestes, mesmo se todos os dias vos falam no heróico combate contra o mal absoluto, da santa irmandade ocidental...milagres hoje em dia custam caro e santos, que como Francisco faziam votos de pobreza, já os não há. Então em vez de investir no bem comum de toda uma população, isto é, em serviços públicos, ao contrário, pilha-se o bem comum de uma nação. Os larápios, deixam de ser quem liquida empresas e despede trabalhadores, mas vêm a ser quem alimenta toda esta máfia com o seu suor, nas fábricas, nos campos, em todo recinto onde trabalho é lei. Fecham-se hospitais, despedem-se professores, aumenta-se a idade legal de aposentamento. Nivela-se pelo mais baixo e inventa-se uma palavra de ordem que tudo justifica, até as maiores imbecilidades: Crise!!!

Haja “tevê”e futebol e nunca mais se repetira 1789! Quantas mais forem as “Bastilhas” a tomar, menos haverá de “Sans-cullottes” para o fazerem.
Se o povo desde sempre parece andar de saia, se já não se sabe quem ainda veste calças, parece cada dia mais óbvio que o povo já não tem tomates.

Este ano o 25 de Julho calhava um domingo. É Ano Santo. Fui-me a caminho de Santiago. O polvo à feira estava estupendo e o albariño ainda melhor.

Carlos Tronco
Linteiros- Miñortos
27-07-10

A mãe foi...




A mãe foi...

A mãe foi!
Que frase tão triste.
Não há que fazer!
Que dizer?
Despiste a alma
O termo final
A mãe foi-se e tu
Ferido animal
Lambes as feridas
De um chicote divino.
Que pensar?
A mãe foi-se...
O próximo sou eu!
Cristão, Maometano
Ou mesmo Judeu
Não há quem nos valha
Quando tal evento
Mete um termo à vida
Para até o tempo

Quando vai a mãe,
Quem nos da alento?

Carlos Tronco
Noia
01/08/10

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Honfleur: foz do Sena vista da capela de Notre Dame de la Grâce




Silêncio


O silêncio, se bem que

bem dito,

nada mais é que dor

dor que amordaça a alma

e esmaga a gente

a palavra, pode-a libertar

e se for de amor

conduz-nos,

tal a mão de um deus;

seguimos em frente


Carlos Tronco

Mondeville

05/12/08