sexta-feira, 15 de maio de 2009

Outono da vida

Se a noite foi longa
Mais longa foi a espera
Esperava confiante
Alguma primavera

Que a geada se fosse
Que enfim viesse o calor
E com o perfume das flores
Encontrasse o amor

Esperei
E o tempo
Pouco a pouco
Passou

Primavera não veio
Muito menos o verão
No outono passeio
Esperando em vão

Carlos Tronco
Mondeville
11/10/05

sábado, 9 de maio de 2009

Cegadas



Vedes
Aquele espantalho
Ali abandonado
No meio da ceara?
Entre as espigas maduras
De barbudo centeio
Entre as rubras papoilas
Irmãs do pão
Vedes aqueles braços descarnados
Que imploram os escuros céus?
E ouvis o pranto
O vento desesperado
Uivar como famintos lobos?
E os rebanhos?
Tresmalhados
Espantados pela cena
Que se precipitam
Do alto da falésia
Como um só ser?

Não
Não vedes
E ainda menos sentis
Que o espantalho são apenas
Dois paus cruzados
Vestidos de um casaco velho
Ornado de um chapéu furado
Talvez roubado
Derrubado desde a primeira tempestade
Não vedes que teima na posição erecta
E de pé
Apenas se expõe
A inclemência
Dos elementos
Para
Mais depressa
Desaparecer
Ser esquecido?

sexta-feira, 8 de maio de 2009

TERRA DE SANTOS




Os tambores nunca se calaram
Continua a bater amigo, e grita!
O teu sofrimento lá longe, discreto
Mesmo se os canhões já se acalmaram

De carne e osso, tu companheiro
Da escola, no mato, dos mesmos bancos
Perdeste as pernas, a esperança, é dinheiro
As minas vinham de países democráticos

Hoje festejas a independência
De quem? Tu o craque da bola
Viva presidente! Que indecência!

Querias levantar quando toca o hino; Peninha!
Não vale a pena tentar
Cospes nas mãos para fazer avançar a cadeirinha

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Duvido, mas procuro

Não é por não poder, que amar não quero
Não é por eu te amar, que perder me vou,
Além de tudo, a vontade é de ferro,
De tudo um dia dar, como um Deus, o dou

Deu olhos e a luz nos mostra o caminho,
A vontade faz o resto e aqui estou
Mas sempre avançar, mesmo se for sozinho,
Legume ou cordeiro, é que eu não sou.

Vinde pois; segui-me, se assim o desejais
A senda é escarpada, e até fere os pés,
Mas sede sem mais, do que simples animais

Livres, inventivos, sede enfim amantes
Partilhai o corpo, a alma e os bornais
Sereis então felizes, mais felizes do que antes

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O caminho

Eis o caminho escolhido
E sigo apenas o rastro
Dos teus passos quando afasto
Do meu banco os passos meus

Deixo de ser uma pedra
Sem alma que nada quebra
Guiado por um olhar
No céu os astros são teus

Falavam os velhos antigos
De uma via que nos céus
Láctea; Hera a mulher de Zeus
Deixara então escapar

Da boca de um Hércules esfomeado
O seio que pendurado
Marcara o infinito
Com o traço do leite dito

Pois vejo agora sim
A via, será que persiste?
Mas na minha mente existe
E me guia ao seio teu

Carlos Tronco
Mondeville
08/09/05

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O fim está próximo



São cores
Que lembram as flores
Jardins perfumados

Enquanto os amores
Dizem serem dores
Longas caminhadas

São olhos
Que vêem aos molhos
Como é profundo

O fundo do mar
Que me há-de levar
Ao berço do mundo

São sons
Do fundo da alma
Que olho com calma
Lembrando penhores

E as águas
Deixam navegar
E até baloiçar
Em ondas as mágoas

Espero
Que vá germinar
Quando me deitar
Nos braços sereias

Assim
Talvez seja o fim
Mas é para mim
A fonte de ideias

Carlos Tronco
Mondeville

domingo, 3 de maio de 2009

Quando cai uma folha







Quando cai uma folha

Uma folha verde amadurece
E o verde vai-se tornando amarelo
Do outono é, talvez, o tom mais belo
A queda de uma folha que enternece

Uma folha que cai perdendo a vida
Nos braços do vento se deixa adormecer
Para as andorinhas, é o sinal, da partida
Mas não tarda outro dia a nascer

Caiem folhas e depois vai caindo
Branca neve quando chega o Natal
A criança, o Deus Menino, é o bem-vindo

Nascimento que traz com ele a esperança
De dias melhores, de uma doce primavera
Vede no horizonte, como a morta folha dança

Carlos Tronco
Mondeville
05/10/05

sábado, 2 de maio de 2009

Do mar conheço a sede




A cor do mar é salgada
como a lágrima do olhar
quando lembro a minha amada
e me deito a afogar
:
E me deito a afogar
Nas águas da tua fonte
que procuro acariciar
antes de beijar o "monte"
:
De Vénus hei-de escalar
pelo norte e pelo sul
para me deixar escorregar
até águas do azul
:
Azul dizem ser o mar
como são os olhos meus
para não veres, eu vou fechar
ao beijar os lábios teus

Carlos Tronco
Mondeville
29/09/05

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Ondas



Espuma
Renda na crista das águas
Como semente que vem fertilisar
O esteril mar
Talvez seja isso o amor !
A dissolução
De um ser
No seu elemento

quinta-feira, 30 de abril de 2009

A queda

Caio a cada passo pois tropeço
nos braços de um vento duro e frio
caio tão bem que já conheço
cada palmo do inferno e até já rio

Cada vez que caio até chamusco
nas labaredas do demo a minha alma
e quando volto a pensar com alguma calma
sinto-me então triste e acabado!

Espero um dia tropeçar
de tal modo que ao cair não toque o chão
e seja o dia em que aprenda a voar

Asas não tenho e até suspeito
apenas me resta o poder sonhar
que o coração não me arranquem deste peito

Carlos Tronco
Mondeville
3/09/05

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Fui falar de ti




Caule, vertical
Crescendo, divertido
Sonho vegetal
De braço estendido

Multidão em floresta
Que respira em verdes folhas
Agua feita chuva, divina, tu que molhas
À árvore das de beber, cais e é sempre festa

Caule feito tronco
Que é mais forte cada dia
E de raízes profundas, da terra, vou ao encontro

Fui terra, barro amassado
A terra hei-de voltar
Talvez sejam saudades, saudades do meu passado

Carlos Tronco
Fui falar de ti as árvores
Mondeville
20/09/05

domingo, 26 de abril de 2009

Acontece



Sentado no colo, deitado no peito
Semeando vento, mais que tempestade
Um peito, um abrigo, fonte de amizade
Encosto feliz, a face, ao meio

Em fonte de carinho, água é a ternura
Procuro encontrar, uma razão à vida
De que cada etapa, é uma despedida
Hoje uma ilusão, ontem lua escura

Amanhã novo dia, volta o sol, sobre o mar
Com o sol, volta a esperança e a vida continua
E a maré é a vida, que recua para avançar

Encosto a minha cara, escuto minha querida
No peito, o coração bate sem parar
No cabelo dedos de mão; a doce mão... Da vida

Carlos Tronco
Lisboa
4/08/05

sábado, 25 de abril de 2009

Seja Abril a cada instante




Se um dia por acaso aqui passaste
ao sentires na aurora o perfume da saudade
lembra-te do cravo vermelho que pisaste
e sabe porque perdeste a liberdade

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Sementeira

Caminho e andando, semeando duvidas
Perguntando a mim mesmo o que é amar
Questões sem resposta, verdades viúvas
Mas vou caminhando, querendo avançar

Conheci outrora, linda rapariga
De olhar tão meigo; escrevia bem
Lembrança que guardo, como uma figa
Passaram os anos e foi-se também

Casei e com filhos, caminho já feito
Julguei nesta vida, ter enfim chegado
Mas o coração, batia no peito

Um quase velhinho, de barbas já brancas
Continuo andando, será que floriu
Cada flor selvagem, que o tempo pariu?

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O OLHAR

O Olhar,

vai-se perdendo
no vácuo do distante,
ao longo dos anos
por vezes,
só ás vezes,
se encontra
em outros olhos perdidos,
e sorri

As mãos não acariciam
nem só ventos,
nem só sonhos

por vezes acariciam peitos,
mas também almas.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

SABER





Não sei que esperanças ter
Não sei dizer
Qual rumo é o melhor
Não sei mostrar
Só sei que sigo o fado
A pensar
Talvez seja seguir-te, o meu destino


Não sei há quanto tempo
Sigo a lua
Depois, noite perdida sigo também
O sol, como se fosse a sombra tua
Sem brilho
Pois tu és a luz, meu bem

Só sei, quando em mar alto,
Ando perdido
Que o abraço mortal, das ondas,
Já desejo
Sempre me foi possível fugir do perigo
E encontrar a calma, a vida
No teu beijo.

Carlos Tronco
Mondeville
18/09/05

domingo, 19 de abril de 2009

Noites escuras de tão negras




A distância já é castigo
quisera dormir contigo
sabes bem, não pode ser
passam dias, passam noites
silêncios são como açoites
mas ajudam a viver

Alta noite lembro, querida
esse episódio da vida
em que dei o primeiro beijo
as saudades são ajudas
quando as tristezas mudas
cobrem por todo o desejo

Bem sabes, estou contigo
como em sonho, como um perigo
estou ali a espreitar
feito fumo de uma vela
só te falta acende-la
para me poder amar.

Carlos Tronco
Mondeville
17/09/05

sábado, 18 de abril de 2009

Traição





Traição

Quantas vezes me traíste?
Tantas ou mais que eu?
Há jogos assim.
Em que perdemos os dois.
Perdemos primeiro a liberdade,
Porque nos entregamos.
Perdemos em seguida a dignidade,
Porque nos enganamos.
Perdemos enfim a alma,
Porque nos traímos a nós mesmos.
Traímos os nossos sonhos,
Traímos a nossas promessas,
Traímos os nossos ideais.
Sabes, o mais engraçado,
E poder trair e continuar a amar.
Engraçado porque esse amor é impossível
O hipotético perdão, não passa de uma ilusão.
Uma miragem no deserto de nós.
Trair é o passo último
No suicídio da nossa consciência.
O amor que resta tem o sabor
Amargo do vomito, ou pior
O sabor letal da vingança.
Em realidade, nunca saberei se me traíste,
Ou se preferi pensar que o fizeste.
De qualquer modo, pensar, foi
A minha forma de te trair.
Não houve penitência…
Muito menos purgatório.
Assim aprendi, que o inferno
Nesta vida, se chama solidão.
Longe dos teus versos,
Ainda mais que dos teus olhos,
Apenas te desejo que sejas muito feliz.

Adeus

Carlos Tronco
Mondeville
18/04/09

META


Sabine 8 anos

META
Os anos passam
Sente-se a metamorfose
Velhos desejos voltam
A flor da pele
Sonhos estranhos
Com sabor a doce mel
Ser eu fadista
Não saudosista
Mas sempre fiel

Fiel a um ideal de vida
E com palavras
Ideias, sonhos, partilhar
Palavras simples das que saem da barriga, paridas
Muito nossas como se do próprio filho se tratasse
E tão expressivas como o brilho do olhar

Houve outros, houve muitos
Sonhadores
No oriente, na Grécia antiga
E até Cristo
Mas todos vamos esquecendo com o tempo
Por vezes olhamos suas ideias como um perigo

De morte
Oh medo, que tão grande medo tens
Nosso ultimo destino...
Logo, enquanto a morte não vem
Vivamos os nossos sonhos, com carinho

Carlos Tronco
Mondeville
14/09/05

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Fui




Que te dizer, senão que a distância queima a esperança, como o sol queima a seara?
Vimos o verde trigo ondular em verdes campos e, com o ondular da brisa crescer a vontade.
O trigo faria rodopiar a mó do moinho. A mó faria girar as velas tão brancas e as velas?
As velas acatariam os ventos de outras paragens.
Como sabes, são a loucura dos ventos que transportam o sopro dos meus beijos.
Disseram-nos, que o verde trigo antes de ser cegado, havia de amadurecer.
Então esperamos. E as tempestades foram muitas. E o trigo foi-se dobrando a uma vontade superior.
Esta regia o mau tempo. O trigo não amadureceu. Mas os cabelos foram-se tornando brancos.
Quem disse que os velhos não amavam? Amam. Mesmo em silêncio. Mesmo quando a dor sufoca a voz
E as palavras engolem a garganta. Talvez cada dia perca um pouco mais o juízo.
E já não saiba pedir que a tua mão me proteja de mim.
Continuarei no entanto, como dizia o poeta, a amar-te baixinho, para que o teu Deus não nos castigue.
Ele que inventou a distância, detesta o amor, que cria a proximidade.

Carlos Tronco
Mondeville
17/04/09

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Emociones y vida



Emociones y vida

Quisiera
Quisiera morir ahora mismo
Si quizá un día
Quedase insensible
A la vida
A la danza de las nubes
O a la caricia de los vientos

Quisiera
Quisiera morir ahora mismo
Si quizá un día
Ya no llorase
Cuando tocan las guitarras
Cuando cantan las chicas
Historias simples de amor

Quisiera
Quisiera morir ahora mismo
Si ya no emocionase
El sonreír de una cría
El brillo de las estrellas
O él salgado
Del agua de las mares

Todavía
El destino quiso que no
Continuo llorando
Cuando grita de placer una mujer
Y vuelve de las profundizas de la noche
Un nuevo sol

Que un dios
Me dé fuerza
Para negar hasta la muerte
La sombra de las banderas
Tal como la tranquilidad de los genérales
Para que mi alma vuele
Cada día
En cuanto pueda
Escuchar las golondrinas

Carlos Tronco
Mondeville
10/09/05

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Velas rotas queimam a esperança




Além, após o mar,
Adormecem as ondas
Para que despertem os meus sonhos.

Tu, que esperas, no novo dia,
Enfim a alvorada,
Ofereces a tua nuca à minha loucura.

O oceano rebela-se ;
As ondas fustigam os penedos,
Mas na planície, já o trigo ondula
E a música acorda.

Primeiro é preciso acreditar.
Depois, o amor acontece.

Além, após o mar,
Descem as velas do mastro
Para se erguerem os punhos da esperança.

Como me reconheceras?

Não!

Não levarei comigo a bandeira de uma Pátria
Que não soube alimentar os seus filhos.

Nem crucifixo "genocidário".

O meu cravo vermelho
Esta tatuado no interior do peito
E apenas, nos calos da minha mão estendida
Poderás ler a sina
Do nosso eterno amor.

Carlos Tronco
Caen
15/04/09

Fumos



Os dedos da mão
Unidos
Em um só destino
Um só apertar
De dedos
Espremendo sumos
Expressando medos
Entrelaçados
Como fumos
De duas chaminés perdidas
Que se abraçam
Ao tocar o céu
Livres de voar
De mãos dadas
Enquanto
Céu
Existir

Carlos Tronco
Mondeville
08/09/05

terça-feira, 14 de abril de 2009

Quando funde a neve, perde o branco a cor




Quando funde a neve perde o branco a cor

Chegou a primavera, branco decomposto
Em mil cores exposto, cada uma é
Promessa de vida, esperança de amor
Há que recolher-la seja aonde for

Quando funde a neve perde o branco a cor
Para transformar frieza invernal
Em jardim florido, cheiro a alecrim
Cada rosa tem, seu charme para mim

Perfume suave, desperta os sentidos
Quando funde a neve perde o branco a cor
Basta, o tempo passa, a distância dura
E não acredito, natureza pura

Seja pois bendito, cada tom de novo
Só existe rei, onde haja povo
Cego pela luz, de olhos queimados
Ninguém é feliz, de joelhos magoados

Poesia "naïve"
Mondeville
06/04/05

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Castelos de areia





A areia escorre livre entre os dedos secos
Como o pobre mar, retirando-se sem nobreza
Sabemos que com o tempo volta de certeza
E que, o que a orelha escuta em búzios, são só ecos

Das almas perdidas em alto mar
Ou em terra firme e levadas pelos rios
Almas de seres que depois de frios
Lembramos apenas pelo voo das folhas pelo ar

As crianças brincam na praia fazem castelos
Alheias ao drama da vida e felizes
Quando adultos, recordamos esses tempos belos

Recordamos a areia em que brincávamos
Também os sonhos de quando éramos petizes
E sonhando, transportar para o alto mar nos deixamos...

Carlos Tronco
Praia de Houlgate-Normandia-França
30-08-05

quinta-feira, 9 de abril de 2009

A Liberdade

Em uma capela, ao alto, vendo a foz do Sena
E a água correr, molhada, de tanto labutar
Deitar-se cansada, deitar-se a afogar
O feroz Atlântico, impávido mete medo

Entrei na capela, sombria, onde havia
Velhos traços de fé, também de piedade
Alguém acreditara na "verdade"
Confiando, em um "Ser", que ali vivia

Com algumas moedas, comprei luz
Pensando a minha alma sombria, aclarar
Com a chama pequenina que produz

A vela de cera, que acendi
Com a esperança de um futuro salutar
Ardeu, e com ela algo perdi.

Carlos Tronco
Notre Dame de la Grâce
Honfleur-France

terça-feira, 7 de abril de 2009

AS DUAS FACES DO VENTO

Perdido na vida, pontapés ao vento quero dar
Perdido em sonhos, perdida a alma e o olhar
Será que o vento, então magoado, depois consinta
Em levar consigo, levar bem longe, levar o pranto
Secar as lágrimas, esticar as velas, trazer encanto
Talvez guiar, guiar a mão, com que se pinta

Com letras, depois palavras, fazem-se quadros
Cenas bucólicas, trigos deitados, em verdes prados
A esperança, faz-nos viver, dia após dia
Vamos andando, barriga cheia, até de medos
Medos do mundo, medo de Deus e dos segredos
A madrugada, seja onde for, é sempre fria

Depois...

O sol devagarinho, vai chegando e com ele a vida
Espreguiçando, esticando os braços, conseguida
A força para nova aventura, afrontar
Sorriso nos lábios, cabelo ao vento, alma ligeira
As mãos nos bolsos, língua na boca e por cegueira
Juntar palavras, cumprir a sina, à assobiar.


Carlos Tronco
Mondeville
06/09/05

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Pastor de penedos 3


8, rua da Fonte Tinhela concelho de Valpaços Prortugal...


Depois, o tempo foi passando.
Continuava-se a acumular toneladas de ouro…
Era assim, a vida de pastor…
1954
O granito por companhia e a solidão por companheira.
A missa do domingo, o único espectáculo da semana.
Por vezes, lá vem um ou outro lobo trocar umas palavras.
Ou roubar um cordeiro
é consoante
No primeiro domingo de Setembro
a festa em Valpaços
O fogo-de-artifício como única promessa de felicidade
vinda dos céus
A jeira não dava para comer
Cegadas, só uma vez por ano
Um dia o "Pátria" lá me levou para o Ultramar
em Trás-os-montes
os saltões eram verdes
mesmo assim recusei
o primeiro prato de camarões
na camioneta que me levou para as matas de café
ia também
a esperança
Só regressei à aldeia
a finais de 75.
o céu continuava insípido
depois de 3 dias imigrei para França
até hoje
dia em que duas palavras resumem uma vida inteira.

Ao Fernando Tronco que anda estes dias pelos 80...

domingo, 5 de abril de 2009

Pastor de penedos 2



São quase seis da manhã
Ainda se vê a estrela do pastor
Tenho sete anos
O pai morreu no princípio do inverno
Pneumonia
Dizem que já havia medicamentos
Mas, como poderia
Ter pago o médico
E a farmácia
Sem tirar o pão da boca
Dos meus cinco irmãos mais novos?
O mais velho, o falecido Júlio, que tinha
Dois anos mais do que eu
Ficou com o rebanho
Andava pelo monte
Entre penedos e lobos
A noite inteira
Agora ia-lhe levar, à Cotovia
Uma côdea de centeio
Uma "mão-cheia" de figos
E uma pinga
Enquanto o Júlio dormia
Era eu que cuidava do gado
Já não ia à escola
Se fosse, chegaria atrasado
Assim, tirei apenas a terceira classe
Depois...
O Senhor Padre Cura bem queria
Que fosse para Alcobaça
Dizia que não teria
Qualquer dificuldade mais tarde
Para entrar no seminário
Mas,
Com o Júlio atrás das ovelhas
E a mãe com cinco crianças ao colo
Quem iria sachar as batatas
Amanhar a vinha
E cegar o pão?
A noitinha,
Depois de tocar as vacas do lameiro,
Passarei pela capela
Do Senhor dos Aflitos.
Pedirei apenas que arranje algum fardo
Para levar até Feces de Abajo
Dizem que a Guardia Civil
Atira sem prevenir
No entanto,
Sempre será melhor
Morrer no contrabando
Que morrer de fome.

Tinhela
Concelho de Valpaços
1936.

sábado, 4 de abril de 2009

Pastor de penedos 1


Foto de Georges Dussaud in "Tras-os-montes"


O gado já não saia ao monte há três dias.
Ovelhas e cães rafeiros juntavam-se em um só ganido.
Era o reino da fome.
A febre tinha aumentado e
o chá de ervas da tia Adília, apenas tinha molhado a garganta e feito permanecer a esperança.
Tossindo e espirrando, naquela manhã de domingo apenas eu tinha ficado à lareira. Missas haveria outras...
O escano de castanho como trono da miséria.
Ardia um madeiro de carvalho.
Na semi-penumbra da casa de lavradores, economisava-se o azeite da candeia.
Com o calor da lareira, a dura madeira do escano, luzidia de tanto uso, tornava-se confortável.
Do alto pendiam, alheiras, salpicões, linguiças buchos e presuntos tal como pendia outrora da macieira o fruto do pecado.
Tinha sim engolido à pressa um cibo de broa, três figos da Terra Quente, e um trago de bagaço.
O olor do fumeiro turturava-me as entranhas.
Tinha dito a mãe que ali não se tocava, o salpicão de Valpaços era já conhecido em todo o país.
Havia de comprar as batatas para a sementeira, duas sacas de trigo, enxofre para as vinhas…
-Será que os haviam contado?
…na alegria das matanças, enchia-se a tripa até mais não dar
naquele tempo, pouco se ia a escola
talvez nem soubesse contar…
…é que, quando vinha carta de Macau do tio Alberto, pedia sempre para eu ler
devagarzinho, soletrando cada palavra,
palavras de um longe desconhecido, só conhecidas de quem fugia a terra.
-Talvez nem tivesse contado !
…vencido pela febre, o desejo quase carnal, peguei na vara mais comprida ali à mão e levei à lareira.
A ponta rubra da vara era então brilhante como a estrela cintilante de uma varinha de condão :
pela primeira vez da minha vida, senti na minha mão o poder do fogo, um igual de Hephaistos!
Era tempo de assar à pressa.
...é que o senhor padre não se atardava com sermões de aldeia...

Carlos Tronco
Caen inverno 07

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A ver...

A ver vamos...

Não olhes nos meus olhos
que te cegas
não olhes pois veras
o meu olhar
não vejas nos meus olhos
quanto negas
quando aceitas
dos meus braços
o baixar

terça-feira, 31 de março de 2009

Os nossos passos

Se não morasses longe
Se o teu mar tivesse a mesma espuma
Que o meu
Teríamos caminhado de mãos dadas?

Se os meus sonhos
Nascessem nas tuas ondas
Se a tua brisa empurrasse as minhas velas
Teríamos descoberto o amor?

Se a tua tempestade fosse
A razão da minha loucura
E a minha violência a garantia da tua liberdade,
Teríamos envelhecido juntos?

Não me esqueças.
Mesmo se o meu destino
Se perdeu no caminho
Que procuramos juntos.

Carlos Tronco
Mondeville
31/03/09

quarta-feira, 25 de março de 2009

Encontrei

Procurava a vida, encontrei o seio
encontrei o caminho, o caminho do meio
procurava a vida, encontrei o amor
e não quero que seja, o caminho da dor

procurava a sombra, encontrei a luz
encontrei o meio, que a ti conduz
procurava sempre, enfim encontrei
e por isso a alma, junto a ti deixei

procurava a vida, encontrei o peito
procurava a cruz, apareceu o amor
nos lábios ofertos, encontrei o jeito
na escuridão da noite perdi o temor.

Carlos Tronco
MONDEVILLE
05/09/05

segunda-feira, 23 de março de 2009

VOU

Vou-me deitar

com os meus sonhos

como a nau

se deita ao mar,

contra as ondas,

tempestades

só sonhos podem lutar

vou deitar-me só ao mar

sozinho,

vou até acariciar

a espuma com carinho

se o tal mar me deixar

vou

deitar-te ;

vou partir

ergam-se mastros

também velas

que me levem caravelas

junto ao teu mar repousar


Carlos Tronco
Mondeville
19/12/05

sábado, 21 de março de 2009

Marinha

Vê o mar
volta sempre
umas vezes mais alto
outras mais baixo
mas sempre salgado
o essencial
é saber escutar
o que diz o búzio
para o saber levar

sexta-feira, 20 de março de 2009

Esperar

São sonhos bordados em papel
São dores sentidas à flor da pele
São lágrimas não choradas mas sentidas
Só palavras poderão aliviar
Se alguém a sua voz me emprestar
Eu dou a letra e quem canta dá-lhe vidas

Sonhei vir a dizer algo que sinto
Sonhei e até nem sei se às vezes minto
É difícil separar da realidade
Muitos dirão, que palavras tão banais...
Antes falasse, isso sim, de bacanais
Procuro o sentido da verdade

A presença é por vezes uma dor
Tão frágil como em lençol, um odor
De amores ainda há pouco consumidos
Os lábios queimados pela pele
Tostada, com sabor a doce mel
Dois corpos, em um só ser reunidos

A terra gira, dizem, anda às voltas
As cabeças também e vira as costas
Ao sol, quando é noite e há luar
As cabeças muito pesam nesse instante
Em que o sonho, foge sempre e é mais distante
Mais difícil é o amor de conjugar

Fica aqui, uma mão cheia de palavras
O arado mexeu terra, deixou lavras
As palavras deixo ao vento espalhar
Bem regadas com carinho e ternura
Adubadas de esperança e loucura
A seara com o vento há-de ondular

Carlos Tronco
Cacia
22-08-05

quinta-feira, 19 de março de 2009

Senta-te

Senta-te à sombra destas velhas árvores frondosas
e escuta a música do vento


Talvez procures
o sentido da vida
o algures chamado
sagrado Graal
Mas nunca pares
parar é fatal
vê como as ondas
animam os mares
Sentar é diferente
sonhar também dá
no coração da gente
o "caminho" está

quarta-feira, 18 de março de 2009

Para alguém , muito longe

A lua
eterna companheira
das noites de solidão
e raiva
ela
que de do seu terno olhar
domestica mares e marés
tem piedade
do pequeno grão de areia
dançando levemente na praia
que quer aprender a voar
nos braços do vento

Carlos Tronco
Vendôme
19/08/05

terça-feira, 17 de março de 2009

Aleixadas 1

Rireis sem dúvida, mesmo que seja pouco
E doido sou, estado que reivindico
Pobre de espírito não e se também não sou rico
Partilho a minha alma, de pobre poeta louco.

Carlos Tronco
Mondeville
17/03/09

domingo, 15 de março de 2009

Ajudar

Outro dia sentado num banco de cimento falava com um Senhor que tinha passado uma grande parte da sua vida a ajudar por esse mundo fora, género médico sem fronteiras...
Falávamos da assistência medical ao "terceiro e quarto mundo"
...se construíssemos esgotos dignos deste nome rapidamente desapareceria o problema da cólera e as campanhas "publicitárias" de "ajuda" dos países ricos com grandes reforços de dólares rapidamente se tornariam inúteis podendo então as verbas em questão serem consagradas à educação, à prevenção básica...

Ajudar

Acaba por ser hábito
Mas a gente ajuda com uma moedinha
Bate no peito
Esperando que o barulho
Tão sem jeito
Apoquente a pobreza
E logo fuja
Noutros tempos se ousava
E até Cristo
Caçava os vendilhões do templo
Que tristeza
Hoje apenas queremos por exemplo
As estrelinhas, senão bilhetes verdes
E eu diria
Enquanto dinheiro prevalecer
As crianças vão continuar a morrer.

Carlos Tronco
Aveiro
17/08/05

sábado, 14 de março de 2009

Carpinteiro

Já não há madeiros, tudo ardeu; foi em fumo!
Onde pregar as minhas mãos se não em cruz?
Não queria ter de roubar, mostrando o punho
Ao filho da Virgem Mãe, ao Deus Jesus.

Onde pregar as minhas mãos; que não se juntem!
Como muitos, só as portas da morte, sei rezar
E o Menino detesta que lhe untem
As mãos, uma vez na vida, por calhar...

Detesta a hipocrisia dos rebanhos
Que se atiram da falésia para o mar
Mas recusam, até a pureza dos sonhos.

Pede sim que respeitem os Mandamentos
Que gravou para Moisés lá no Sinaï
Interpretados por cada um, como por ventos...

Carlos Tronco
Torreira
12/08/05

sexta-feira, 13 de março de 2009

O que diz o silêncio

Venho escutar o silêncio
Dos teus lábios que recusam
Os meus beijos
Do teu ventre
Que recusa a semente
Dos meus cravos
Dos meus sonhos
Tão-somente

Venho corda ao pescoço
Tal Moniz
Rendido ao charme mudo
Dos teus olhos
Ao sorriso surdo que enfeita
A tua face
Menina, mulher e mãe
Sempre direita

Venho talvez queimar-me
Tal insecto
Voador
Sem asas
Sem destino
Queimar-me corpo e alma
Em tua mão
Estendida suave, doce
É o pão
Que alimenta
O palpite
Do meu peito


Carlos Tronco
Torreira
10/08/05

quinta-feira, 12 de março de 2009

As minhas mãos



As minhas mãos, cativam o teu olhar
Não sei se, seduzida pelas marcas do tempo
Se pelo instante do momento
Sei que hesitavas
Será que ali vias a mão estendida
A mão que magoa
A mão que castiga
Ou aquela que acaricia, segura, impede.
Não sabia, e para não perder
A tua esperança,
Passei a usar luvas negras.

Carlos Tronco
Mondeville
12/03/09

terça-feira, 10 de março de 2009

Marinha do mar

Olha o mar e vê
na crista das ondas
as rendas de espuma
salgada

Uma à uma
as ondas do mar
se vêem soltar
aos teus pés oh deusa

Doce de encantar
o tempo ao passar
faz de ti a musa

de alguém a sonhar

Carlos Tronco

Com um "jacarezinho" de ternura

segunda-feira, 9 de março de 2009

Andante, piano piano...

Ando
por aqui
aos pontapés à vida
sem rumo
sem sumo
que possa acalmar
a sede de mundo
veleiro sem mar
de velas caídas
chama por apagar
...ou luz não acesa
no centro da mesa
festim; despedida
na mesa da vida
se vêm queimar
em chama
(que parece viva)

A mesa da vida
parece um altar
onde os sonhos
querida
se vêm
sacrificar.


Carlos Tronco “Carpinteiro"
Torreira
01/08/05

domingo, 8 de março de 2009

Raquel

Um simples nome, mulher criança e esguia
Menina bonita; em quem há muito pensava...
Desde os bancos da escola, às festas em que bailava
Aquele olhar tão meigo; cabelo solto eu via

Uma boneca de trapo, uma boneca esquecida
Uma presença dizes; a companhia de leito
Se naquele tempo antigo, apenas nascia o peito
Agora nasce a saudade dos velhos tempos da vida

Morávamos na mesma rua, íamos juntos à escola
Apenas te observava, silêncio por confidente
Por vezes contigo sonhava, em vez de jogar à bola

Castanhos os teus cabelos, morena a tua pele
Se os anos foram passando, se esquecemos tanta gente
Com carinho vou lembrando, a pequenina Raquel

Carlos Tronco
Mogaflores
31/07/05

quarta-feira, 4 de março de 2009

Como morre um sonho

Perdido
Como se perde o sol
Quando a lua cheia
Vem para espreitar

Perdido
Entre sonho e frio
De solidão escolhida
Para que sare a ferida
De quem não pode amar

Perdido
Como gota de água
Em deserta areia
Rio que desagua
E é do mar a veia

Perdido em olhos
São sonhos profundos
Nos olhos do mundo
Se perde o olhar
Pois são tão imundos
Que podem cegar

Nos olhos no peito
Um amor-perfeito
Começa a encantar
Ao charme sujeito
Perdido sem jeito
Me deixo levar

O sol vai morrendo
Extinto o incêndio
Em águas de mar
Em doce fogueira
A estrela trigueira
Se deixa afogar

Carlos Tronco
Torreira
25/07/05

terça-feira, 3 de março de 2009

Sonhei Lisboa

Pretendi poder mudar a serra
de sítio
pois ali bem não ficava
mas a serra se agarrava
como vento às velas do navio

Era bom acreditar no sonho meu
era bom deixar a brisa me levar
como vela
em tempestade, ao rasgar
também eu
sonhos de papel
vim queimar

Era Agosto, ardia o monte
queimava a vida
era verão e as labaredas assobiavam
era verão
e calor sonhos queimava
como queima em Fevereiro o agreste frio

Vinha para amar
era o destino
era o fado
que de mansinho me empurrava
era Lisboa
era o Tejo que esperava
passeando vaidoso como um rio

Cheguei
mas o destino é vadio
por vezes
esquece a sina e perde a fé
e Lisboa a fadista,
que arrepio...
esqueceu ao que vinha e deu ao pé

Fiquei
perdido
ali fiquei
no deserto cais
enquanto a distância ia aumentando
do barco já nem se via nem a vela
virei-me para ao mar
e fui amando

Carlos Tronco
Lisboa
09-08-05

segunda-feira, 2 de março de 2009

Alento

Passava distraído, olhei, senti-me bem
Vi amigos, vi amigas, sentei-me, deixei-me estar
Nada tinha para dizer, também não sabia cantar
Não importa, nesta vida, há sempre que partilhar

domingo, 1 de março de 2009

Soprar a vida

És barro nas minhas mãos
a vida te hei-de dar
soprando, sonhado, ar
destino e fado irmãos

Sonho ser um Deus do campo
capaz de semear vento
quero ser o teu alento
do teu coração, um canto

Sou doido e dá para rir
a tristeza não da vida
chegou o momento de ir

Pelo caminho do alto
levar a doidice ao céu
promessa a que não falto

Carlos Tronco
Mondeville
12/02/06