sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A criação de um mundo




A criação de um mundo 9


No sétimo dia a obra foi dada por acabada.
Tinha terminado a minha primeira casa de banho
Dois meses de férias tinham passado
Seis horas
Abri a torneira
Tomei uma bem-vinda «duche»
Depois, deitei-me de novo, moralmente exausto
Adormeci
Amanhã, um novo ano lectivo me espera
Que ensinar?
O meu avô pretendia que os calos eram mais valiosos que as unhas
Mais uma espécie em vias de extinção mas, à qual alguma sociedade de protecção dos animais se irá interessar
Quando morrer o ultimo poeta, o mundo inteiro, nem cantar saberá.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A criação de um mundo





A criação de um mundo 8

Acordei sonhando. A noite fora um pesadelo. Senti-me afogar no dilúvio das torneiras esquecidas abertas, tal era a minha sede de purificação. Abandonei-me a ferocidade das ondas e não larguei o leme. Novo Ulisses, resisti a noite inteira a tentação das sereias de tão amarrado estar ao destino da obra.
Dormi e sonhei. No sexto dia, o sonho tornou possível a poesia.
Não uma poesia de palavras onde a métrica compete com a inutilidade. Não. Não uma poesia escrita para evitar que a verdade seja dita.
Sim, uma poesia simples.
Uma poesia de gestos onde o verbo segue a linha traçada pelo escopo, como arado que fere a terra para lhe dar vida.
Poesia de actos.
De sorrisos.
De esperanças.
Onde se sente atingir a plenitude, porque o gesto é conseguido e o conseguido corresponde a doação do melhor de si para o bem comum. Onde cada gesto é uma perpétua aprendizagem e cada aprendizagem, um passo no caminho da perfeição.
Aqui um chuveiro.
Além um radiador.
Um espelho.
Uma luminária.
Procurando a harmonia.
Tentando obter o belo.
Sabendo que gostos e cores não se discutem.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A criação de um mundo




A criação de um mundo 7
A obra avançava; Podiam-se adivinhar desde agora os contornos do caminho do alto.
A meta aproximava-se, e com a proximidade do fim, começaram a aparecer as dúvidas.
Seriam as paredes suficientemente espessas para resistir ao assalto da ignorância?
Seriam as canalizações suficientemente resistentes para resistir a pressão da impureza?
Seria a luz suficientemente clara, para que se tornasse evidente a emancipação?
Era questão de saber e logo de ciência.
Era questão de pureza e logo de consciência.
Era questão de liberdade e logo de justiça.
No quinto dia o palácio, foi equipado com os apetrechos necessários ao seu funcionamento.
Aqui uma torneira que iria ofertar a água, além uma lâmpada para distribuir a luz.
A torneira fechada vedaria a água?
Com a humidade não haveria risco de choque eléctrico?
As dúvidas conduziam-me a perfeição do gesto e a perfeição do gesto à tranquilidade da alma. A experiência era a via do aperfeiçoamento.
No quinto dia as dúvidas apareceram e com as dúvidas nasceu a filosofia.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A criação de um mundo





A criação de um mundo 6
Agora que o saber se encontrava protegido, tornava-se possível utiliza-lo.
Depois da água, veio a luz. Depois da luz, veio a segurança e com a segurança o belo tornou-se possível. Para decorar as nuas paredes, no quarto dia, foram cobertas de azulejo.
Primeiro azul para lembrar o mar onde se construi a identidade de um povo. Depois o azul misturou-se com o creme para testemunhar em arabescos geométricos da união entre os elementos. Enfim o creme sozinho para não esquecermos o leite materno e a nossa origem sociocultural.
A composição pretendia ser bela, e a beleza pretendia proclamar que inteligência e saber devem levar o humano à arte e não à perdição.
Em baixo o azul-escuro; em cima o creme claro. Tal é o caminho entre as trevas e a luz, entre o caos e a equidade.

domingo, 3 de janeiro de 2010

A criação de um mundo





A criação de um mundo 5
Depois da purificação e com a iluminação, impunha-se a
protecção. Seria a tomada de consciência, tal como Adão, que achou necessário cobrir-se, após ter provado a maçã da sedução ou então, a consciência de que seria necessário proteger o bem mais precioso, o saber?
No terceiro dia, começaram a sair dos abismos as paredes que se elevariam até à luz; primeiro de aço nu em homenagem a Hefaïsto, depois, esse aço foi coberto de escudos de gesso e celulose insensíveis à humidade. Diziam naquele tempo, que a água combatia o fogo, que sem fogo não havia aço, e que, enfim, havendo aço melhor fora que fugisse da ferrugem como da peste. Para agasalhar esta obra, as paredes foram guarnecidas com lã de rocha.
A partir de aí o saber pode serenar no aconchego de um palácio cuja função mais se assimilava a uma arca da aliança, sem as tábuas. Não. Nada estava escrito; mas em cada gesto havia a partir de então, o saber da experiencia.

sábado, 2 de janeiro de 2010

A criação de um mundo






A criação de um mundo 4

Depois de chegada a água, tornava-se possível a reflexão. Mas, para que na superfície lisa e calma das águas pudesse cintilar a inteligência, era necessário que existisse a luz; no segundo dia, o criador desejou a luz, e a claridade apareceu. Não a luz pálida e vacilante de um círio, brilhando apenas porque se mantêm as trevas da ignorância e que a mais ligeira brisa pode afogar. Uma luz dosada, económica e alta para que todos pudessem tirar proveito.
Dosada, porque todos sabemos o quanto as estrelas rendem cego. Económica para ser acessível a todas as bolsas. Alta para que a humanidade se levante. Para que tentando realizar o sonho último, o de tocar a luz, enfim escolha o caminho do alto e nunca mais aceite andar de rastros.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A criação de um mundo





A criação de um mundo 3
A poeira havia coberto as almas. Impunha-se a purificação antes de tudo. No primeiro dia o criador desejou a água, e a água correu.
Não a agua salgada por tantas lágrimas de desespero, nem a agua gelada pela solidão; a purificação deveria obter-se com a água temperada pela esperança.
Foi necessário trazê-la de longe.
Em cobre torcido pelas labaredas de um fogo, ele mesmo purificador. Um fogo nascido da união entre um oxigénio que soprava a vida e um acetileno ardente que lhe concedia o aroma.
Subiu.
Desceu.
Virou.
Tornou a subir.
Tão as sendas da purificação eram tenebrosas.
A água aconteceu e a sede do conhecimento pode enfim ser regada.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

A criação de um mundo





A criação de um mundo 2
O combate prometia ser rude. Era necessário reunir um arsenal capaz de ajudar a vencer a inexperiência do criador. Nada de ultramoderno, de tudo o que esta tão à moda, nada da famosa tecnologia guerreira que serve não para libertar as mentes mas apenas ara espoliar as gentes. Não. A criação deste novo mundo, teria como exemplo, José o Carpinteiro e as suas mais simples ferramentas.
Então, este pai, não foi com simples serrote e plaina que ensinou ao Cristo o amor pela humanidade, que o levou a subir à cruz para nos salvar?
Alguém algum dia viu São José acariciar um madeiro de ceptro e tiara?

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A criação de um mundo





A criação de um mundo 1
Ao começo, o tudo, nada mais era que vazio, onde o sentido jazia inerte no abismo de um mar de trevas. Depois, esperança em um espaço-tempo luminoso e o esquecimento sem futuro tinha dado origem a uma argamassa de desespero e escuridão. A poeira da quietude havia coberto os primícias da revolta e a sujeira invadira as almas.
Mas, Deus não havia criado o homem para que se submetesse à facilidade, nem o havia dotado de inteligência, para que alguém, rei ou papa, pensasse no seu lugar. Então, seguindo o exemplo divino, tudo recomeçou.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Musas, por onde andais?

Musas, por onde andais?

A tua canção acrescento da guitarra
a voz cristalina de quem a corda encanta
presença, que alegra, como farta seara
seja a tua presença a nota que levanta

O punho e conduza à liberdade
das almas encerradas no inferno
de ti vou cultivar mera saudade
enquanto não terminar o triste inverno

Depois, talvez violetas, amores-perfeitos
mil flores de primavera a enfeitar
caminhos bem mais tortos que direitos

Conduzam um dia a encontrar
em ti musa e poeta a inspiração
para as minhas pobres letras adornar

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Juízo




Juízo

Branco gelado, cristais de geada
Ao sol canta um passarinho
Apagou-se a lareira e procura ninho

Mais um. Sem dúvida, direis
Em breve, vira cantar os reis
Frágil como avezinha. Mas de forma humana

Natal e barriga cheia. Festeja-se Jesus
Duvido que aquele que então subiu à cruz
Tenha esquecido ser filho do Carpinteiro

E na voz da agonia que canta lá fora
Há a revolta de um Cristo morto para nos salvar
Sem nenhum de nós, pronto para o imitar.

Carlos Tronco
Azé
24/12/07

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Dizer Adeus





Disseste Adeus e pensei
Adeus quando eu morrer
Disseste adeus e sonhei
Te voltarei, eu, a ver?

Morrer só morro uma vez
Que Deus tenha piedade
E vidas me dê ele três
Para matar a saudade

Sonhei, foi pena, acordado
Por não conseguir dormir
Partir hoje é sem agrado

Dizer adeus é fugir
Que a morte não me apanhe
Quando de morto fingir!

sábado, 12 de dezembro de 2009

ESPERA

Já nem a lua me envolve
apenas a solidão
e há muito que não chove
são lágrimas do coração

coração tem também penas
mas nunca soube voar
e cansado com verbenas
será que pode ainda amar?

amar não é só ter sorte
escolher o bom caminho
se não for até a morte
melhor seja amar sozinho

sozinho porque estas longe
e não tenho o teu olhar
lua sabes não sou monge
necessito acariciar

dirás: isso é masturbação
sabe bem, dê onde der
torradas também são pão
sem manteiga; tu mulher

não posso ver os teus olhos
e amar o teu sorrir
recebe abraços aos molhos
tem pena, não te vás rir

é que rir por vezes mata
a troça também faz morrer
a vida tem uma data
limite para sofrer

já não sei o que dizia
esqueci-me do começo
talvez chegue esse outro dia
em que o amor não tenha preço

e juntos de braço dado
por ai em correrias
tu amada e eu honrado
aprenda o que já sabias

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Mil e uma noites

um dia virei bater a tua porta
um tapete enrolado sob o braço
de oriente senhora podeis crer

este tapete vale mais que grande espaço
voante e ainda por cima é de cor

o tapete liga onde for
como o arco-íris do amor
a tua doce anca e o meu pobre braço

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Cordas e amarras

A corrente, que nos amarra à terra
a corda que nos prende as velas
a terra onde cultivamos a alma
as velas que nos empurram, para o mar
fruto maduro, um dia, para enterrar
o vento que nos leva, ligeiros, a sonhar
tornando nossas vidas, belas.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Lenços de papel

Se choras muito,
eu vou enviar-te um pacote de lenços
de papel .
Ouves?

Uma linda caixa cor-de-rosa,
com girassóis a enfeitar

Beijo cada lenço,
um a um
antes de enviar.

Como fazer depois, para tornar a dobrar?

Envio a caixa vazia!!!
Isto é, para quem vê com os olhos,
mas dentro irão,
com beijos, todos os meus sonhos.

E em vez de lenços de papel
para os olhos limpar
terás um pouco da minha
esperança
para
te consolar.

Carlos Tronco
Mondeville
13/02/07

sábado, 5 de dezembro de 2009

A fonte onde correm mágoas

Já não são asas que batem
Nem deuses que levam a cruz
São apenas ais sem luz
Já nem os corações partem

Tudo mudou e um dia
Começaram a crescer
Eram filhos a viver
Fonte de melancolia

Como uma ponte caída
Ou nascente ressequida
Esqueci o meu sonhar

Há caminhos e são muitos
Não levam a nenhum lugar
Se forem corridos sozinho

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Palavras de chorar

Os meus beijos não são beijos
minha mão, já nem existe
minha boca só persiste
a contar coisas em vão
são palavras, pensamentos,
mas são beijos, não se dão
são apenas os tormentos
no bater de um coração
são palavras, são malditas
não se podem transformar
em carícias em amor
são palavras de chorar

19/01/07

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Canto de sereia




Livre como o vento em noite de vendaval
de fantasma lençol, como em carnaval
uiva mais que canta, imita a sereia
voz que não encanta, voz de perdição

Quando estende o braço, vazia a mão
doi o coração, é como cadeia
libre como o vento, brisa já sem ar
afoga-se de mansinho como a sonhar

Sente-se perdido, tal é a liberdade
percorre este mundo, sem qualquer vontade
fala com os muros, responde o silencio
que morde calado, sinal de fastio

Em pleno verão, sente calafrio
e os narcisos murcham, era de esperar
as flores são seres vivos
hão de se matar!

Carlos Tronco
Mondeville
14/04/06

domingo, 29 de novembro de 2009

Vulcão à beira mar




O mar nada pode, para extinguir vulcão que explode
Desses amores súbitos e vadios nascem as mais belas ilhas
Do mar azul e das lavas ardentes são as filhas
O mar não apaga, quando muito fode.

sábado, 28 de novembro de 2009

Se um dia




Se um dia já sem jeito ao abraçar
O teu peito dos meus lábios não gostar
Será tempo de partir e o castigo
Será de não mais partilhar comigo
A cor verde, o azul do verde-mar

quinta-feira, 26 de novembro de 2009




Os meus passos são pequeninos quando a distância é grande
Se fossemos passarinhos, poderíamos aprender a voar
Não passamos de gente, apenas podemos esperar.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Terra




Terra,
Não Santa Terrinha
Na serra

Terra
Sim, chão para trigo
Pão e sepultura

Terra
Não lugar engraçado
Em mapa rosado

Oh terra impura...

Terra da amargura
Tu, que lavro com carinho
E fecundo..

Pão e vinho
O fruto
Da nossa guerra.

Quantas almas
Foi preciso
Sacrificar
Para o teu nome santificar?

Carlos Tronco
Mondeville
24/10/06

domingo, 22 de novembro de 2009

Pão com manteiga




Sabias que ser feliz, é muito simples
não há como sorrir, tu podes crer
eu sei quando sorris, por vezes mentes
mas sei adivinhar, mesmo sem ver

O dia esta lindo, mesmo se chove
o frio, também o vento, querem brincar
é pois o teu verbo quem comove
dizes, quero viver, não vou deitar

Apetece-me. Sim, a vontade, é quem dá força
sair, contar as gotas, dessa chuvinha
saltar nas poças de água e ser moça

Procurar pastelaria e que aproveite
pão quente com manteiga, torradinhas
e um copo de, café com leite.

Carlos Tronco
Mondeville
18/06/08

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Se tu me deres

Se tu me deres, um pouco do teu alento
Um pouco da tua graça
Dás-me pão, dás-me sustento,
E lá vou eu, pobre vento, a correr, até à praça

A dizer, com alegria
A quem passa, vai e vem
Que alguém me deu também
O que deu à Cruz Maria

Quero que saibam,
As barbas servem para isso
Os filhos que penduravam
São mais que fé, são feitiço

Vão crescendo e aprendendo
E quem tão pouco ensinou
Só a voar ajudou
Bater asas sozinho

Depois de árvore plantar
Dos meus filhos - mas não só - criar
Depois de algumas páginas escrever

Chega o momento fatal
Em que acorda o animal
Que nasceu para vencer

Se tu me deres
O sorriso dos teus lábios
Não preciso de mais fados
Nem do amor de outras mulheres.

sábado, 14 de novembro de 2009

A criação de um mundo

A!
Com a ponta do dedo
Tal uma varinha de condão
Desenhava
Ou melhor rabiscava
Nas tuas costas
Letras de um alfabeto
Imaginário
M!
Que tentavas adivinhar.
A tua pele
É sedosa
Macia
Cálida
Agradável ao tocar.
De quando em quando,
Um breve arrepio
O!
Acompanhava a peregrinação
Do meu dedo.
Ia escorregando
Ao longo da tua coluna vertebral.
Por vezes estremecias.
R!

Ainda não tinha terminado inteiramente
A letra G
E ja tu deixavas escapar um sussurro
AAAAAAAAAA
Depois outro mais intenso
Um quase gemido
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!

Acordei
O meu peito abandonado
Ao teu dorso
Agora
A mais formosa e delicada
Pagina
Do nosso romance de amor

Começava a desvendar
A face escondida da lua.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Meio manto




Imagino que ainda dormes descansada
É verão e nua sonhas consolada
Pelo fresco do ribeiro e sua água
Sorris quando sentes o meu peito
Encostado às tuas costas com respeito
Tentando apaziguar a tua mágoa

Ontem não voltaste, talvez zangada
E o tempo demorou, só a alvorada
Me trouxe um pouco da esperança que perdi
Por isso nos teus sonhos vim tão junto
E sem nenhum pudor eu te pergunto
Que sentes ao deitar-me junto a ti

Onde vamos mulher, eis o caminho
Quero descobri-lo palmo a palmo com carinho
Percorrê-lo ao teu lado olhando em frente
Cairei, mais de uma vez estou seguro
Quero ver no teu olhar um azul puro
E que seja a tua mão que me levante

Carlos Tronco
Mondeville
28/01/08

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Um Sol




Uma estrela apenas
A luz
Um cheiro de lavanda
De sul
De vida
De areia, de mar

Um sol.
Um sol
Da primeira alvorada
Uma estrela da madrugada
Uma luz de candeia
De azeite
De terra quente
O sonho que solda
O rir
A felicidade
De um primeiro beijo
Dado sem saber
Naturalmente
Como o primeiro
Dado pelo sol
À lua
Uma espécie de estrela
Redonda
De tanto acariciada
De tanto desejada

Beijada pelo sol
Perfumada desde cedo
Tentando aprender a voar
Erguendo-se
Com dificuldade
Das manhãs de inverno
Quando o frio das geadas
Amarra a alma
À horizontal planície
Como prece longínqua

A estrela do pastor
Então Vénus
Braço após dedo
Vagarosamente
A coragem
Acaba por vencer
As trevas
Para que enfim
O milagre do dia
Aconteça
E que o azul seja a assinatura
Do amor celestial

domingo, 8 de novembro de 2009

Renasceu





Renasceu
Das cinzas
Do nada
Fora árvore
Dera sombra
Floresceu
E o fruto alimentou.
Confidente de namorados,
Casa de pássaros,
Ninho de ventos.
Sonhou ser navio,
Sustento de velas,
Mesa de manjar,
Armário de panelas,
De janela madeira,
Liberdade de olhar.
Ardeu.
Ficou em cinzas.
E eu ao olhar para elas,
Perguntei:
-Porque assim findas?
Tu Tronco
De árvores belas.

Carlos Tronco
Azé
22 - 12 - 07

sábado, 7 de novembro de 2009

SELVAGEM




porque espero eu senhora
como se a madona fora
porque espero a aparição?
os caminhos eles são tantos
e por eles ouvem-se os prantos
os prantos do coração

não te quero ajoelhada
tu ovelha tresmalhada
imagina-me pastor
daqueles que vão por caminhos
deixando-os sempre limpinhos
mudando a pedra em flor

sou louco não tenhas duvida
assim calhou nesta vida
a próxima será melhor
acredita nos meus sonhos
pesadelos são medonhos
não amar é bem pior

ouves o som das trompetas
dos tambores e clarinet”a”s
imagina o eu ter voz
dança comigo querida
este som é o da vida
e a vida somos nós

vira Maria bonita
eu gosto de ti catita
do sorriso do teu rosto
mesmo se a distancia é muita
com o amor e a fé junta
irei até ti e com gosto

Carlos Tronco
Mondeville
03/12/07

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Arca

Procuro no silêncio do teu ausente olhar
A esperança, o caminho, talvez a luz
Procuro, como esse alguém, subindo à Cruz.

Pensava que do alto pudesse compreender
Os homens e partilhando o seu sofrer
Pensava amolecer os corações mais duros.

A virgem ao pé da Cruz até chorou
Mas esse sonho nunca resultou
Os cravos já há muito enferrujaram.

Encontro no silêncio, creio, sim
Face ao espelho, à ruína, ao ruim
Vontade para nunca naufragar.

Tu és a sereia que me encanta
O sopro, o alento que levanta
A nau, que um dia há-de salvar.

Carlos Tronco
Caen
18/12/07

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Chamas que ardem de fogo




Entre duas quase paredes de pedra outrora imaculada
Um rectângulo, como boca aberta
Por cima, na parta mais elevada
A cabeça; é sempre cabeça mesmo sem ter o poder de esperta
Erguia-se como um chapéu
Nada mais que uma chaminé
Procurei no bolso uma caixa de fósforos
Depois de lidos, os velhos jornais
Serviriam uma vez mais de arma de fogo
Lenha não faltava
A chama pegou rapidamente
Naquele tempo a estupidez humana
Ainda não era cultivada pela televisão
O encanto, o feitiço vinha daquele rectângulo aceso
Daquelas chamas que
Entre o vermelho alaranjado
E o azul quase celeste
Tanto parecia um instante ameaça infernal como
Pouco depois
Promessa de paraíso
As chamas, alguém já reparou?
Sempre se elevam param o céu...
Passei a noite velando a agonia
Daquele espesso pedaço de ramo
Há muito sem folhas,
Filho sem dúvida de um tronco
Ele mesmo sacrificado naquele altar
Enquanto a noite progredia
E o infernal fogo consumia com as suas vorazes chamas tão inocente criatura
A questão mesmo do essencial tornava-se lancinante:
“O que é a vida afinal?”
Algures, alguém decidira que era noite de natal
No entanto, no aconchego de uma lareira acolhedora
A solidão continuava tão pesada quanto a morte
Quando a ultima brasa se extinguiu
Escrevi já quase sem fé:
Prospero ano novo 2008.

Carlos Tronco
Azé
Centro de França
24/12/2007

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Distancia, é só meio caminho




Sim
Concordo
Compreendo-te
E tu sabes
Sabes como te amo
Como sabes
Que o amor
Não perdoa
Compreendo-te e desejo a tua felicidade
Mas, nasci homem
E assim ficarei
Imperfeito
Até que a morte
Nos separe.

Carlos Tronco
Ustaritz
09/11/07

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Sina




São meus
Os teus ciúmes
Como são teus
Os meus sonhos
Os medos são nossos
Somos
Quando unidos
Quando pomos
A mão na nossa mão
Somos donos
Do destino
E assim nasce aquele mimo
Com que bate
O coração

Carlos Tronco
Mondeville
07/11/07

domingo, 1 de novembro de 2009

A minha praia




A minha praia, de tanto ser areia,

já nem o tempo sabe

e já nem conta,

nem as ondas do mar

e nem escuta,

os cânticos da saudade, nem sereia.


A minha praia de tanto ser o mar,

não sabe já se vai, se esta a vir,

não sabe se deitar na areia é amar,

se correr nas ondas é sorrir.


A minha praia que já foi espuma

hoje é tardinha, é entardecer,

é uma praia deserta e sozinha,

mas que será praia até morrer.


Carlos Tronco
Mondeville
4/11/07

sábado, 31 de outubro de 2009

Um tronco abraçado à vida




Se um dia a saudade for
Varrida pelo tempo como a flor
Aí será o fim da primavera
Hoje rego com carinho as trepadeiras
Que se enrolam com seus braços de solteiras
E têm violetas flores à minha espera.

Equilibrando-se como notas, de música, sobre linhas
De uma pauta antiga, vão sozinhas
Sobem aos céus, de um azul imaginário
A clave de sol ao entardecer
Da vida talvez possa dizer
Se o sonho foi paraíso ou calvário

Se a Cruz da agonia transportastes
Se a coroa de espinhos suportastes
Vós, como o filho de Deus, chamado Cristo
Lembrai-vos que a Cruz também viveu
E nos ramos que, a árvore, por vós deu
Também houve, o sacrifício, de um tronco.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Selinho nos lábios

Preferes que te dê a mão
Pretendo beijar-te os seios
Se aceitas os meus braços
Achas os meus lábios feios.

Preferes que seja um amigo
Amores, já tiveste muitos
Preferes ver-me sozinho
Que eu e as estrelas juntos.

Preferes ler o que escrevo
Para cantar não faltam galos
Do teu preferir sou escravo.

E se não queres os meus beijos
Aceita as minhas flores
Para ti, cultivos cravos.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Morra a sede!

Na cova, o silêncio enterrado
E no barro cozido de forma humana
Lembrei aquele outro barro, em narinas soprado
Por um Deus criador, em um findar de semana.

Dizem ter criado o mundo em sete dias
O último tendo sido para descansar
E eu procuro nesta terra as liturgias
Que para além da verdade, me permitam sonhar.

Como aqui nesta vala dos tempos antigos
Nem verdade nem sonhos tenho encontrado
Mas apenas guerreiros, morte, meus amigos.

E sonho em vez de armadas, construir um par
De barro ânforas para o vinho
Morra a sede, pois nada mais se deve matar.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O que importa é ser

Primeiro houve um Deus
Que de barro o fez
E logo foi pecado
De maçã trincada
Por ele houve também
Morte ; e de cruz pregada
Hoje quer ser humano
Pouco mais que nada.

O que pesa o bicho?
Arrobas ou quintais?
E o seu valor
Será só gordura?
Se agora assim for
Não passa de lixo
A obra de um Deus
Vale muito mais.

A alma é etérea.
Será que tem valor?
E qual a maneira
De a avaliar?
A alma ou matéria
Seja o que for
Duvido que alguém
A queira comprar.

Procurando saber
O que valho eu
E se consciência
Eu puder tomar
Não serei mais bicho
Tenham paciência
Mas um ser pensante
E capaz de amar.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Alla cappella!




É no silêncio que a saudade pesa
E o peso o que mais a alma lesa
A solidão a companheira desta vida
Um dia nascemos e depois
É tempo de viver a vida, a dois
E logo chega a hora da partida...

Viúvo, de negro luto, estou vestido
É grande para um só ser, o sobretudo
Ao avançar varro as lajes dos caminhos
Feitos pela mão de um Deus antigo
Quase humanos, frágeis, eis o perigo
Um dia termos de avançar sozinhos.

Pensei; estrelas há muitas nesse céu
Brilhantes ou cobertas por um véu
Mas esses astros intocáveis, são distantes
Em vez de cometa, estrela ou mesmo lua
Lembrança apenas quis, guardar a tua
Seguindo a minha sina como dantes.

Outrora até me chamaram vadio
Recordo mas sentindo um arrepio
A voz foi o melhor que o céu me deu
As cordas já não vibram; estou cansado
Assim cantava à toa o Senhor Fado
No dia em que a Guitarra faleceu.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Depois de sete dias no deserto

Depois de sete dias
No deserto
Sem água
Para refrescar o espírito
Nem sustento
Para a alma
Colocou de novo a questão
Ao criador:
-O que é a Vida afinal?
Este após alguma hesitação respondeu:
-A questão não é saber,
o que é a Vida,
para começar a viver.
Deixai a vida acontecer
E depois sábios de mil experiencias,
Podereis dar um sentido à Vida.

Puxei pelo violão...
Depois de sete dias no deserto
Sem pão, sem mel, tendo por perto
Apenas as asas a pesar
Sentimos e o pensamento voa
A razão perdida, a sede do momento
E a voz que diz; será a voz do vento?
Eu sete dias e o mundo de fome ecoa!

Não somente de um jejum voluntario
Como o Cristo quando aceitou o calvário
Mas fome imposta por quem manda
Uns gordos, fartos, cheios de toucinho
Outros miseráveis como o chamado Deus menino
Vão e vêm como do mar a branca onda.

domingo, 25 de outubro de 2009

Almas em ruína




Mil e muitos anos depois
Pedras. Já nem casas, nem tabernas
Cortiça. Cavalos. Talvez bois
Também, lajes largas para as pernas.

Imaginei da romana o cabelo
Junto à fonte, docemente, penteá-lo
Naquele quadro agreste mas singelo
Pudesse eu romano acaricia-lo...

Além corria água das nascentes
Fervia e subia aos céus; disso estou certo!
Nos banhos jorravam águas quentes.

Imaginei ser rei, imperador, ganhar a briga
Escravo da morena, da romana
À sombra dos sobreiros de Miróbriga.

Carlos Tronco
Santiago de Cacém
Julho 07

sábado, 24 de outubro de 2009

Crepúsculos




O vento vadio bulia com os espanta-espíritos
Produzindo um som leve e ligeiro; uma companhia
Seriam das almas do outro mundo os gritos,
Ou dos amores, o canto, a alegria?

Ao alto, o sol, dizendo vou deitar
A luz agora acariciando mil sonhares
Primeiro eram pinheiros, depois mar
Algures a sombra fresca dos pomares

Á tardinha sentava-me a escrever
A vida à roda encantava e surpreendia
Procurava a alma Lusa entender

Seguia com paixão as andorinhas
Rodopiando pelos ares ao fim do dia
Recordava as tuas mãos olhando as minhas

Carlos Tronco
Melides
27 de Julho 2007

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Sonhar




As minhas mãos, matéria, quando pensamentos
por mais que atentos, não são mais que etéreos ventos
as minhas mãos, elas, podem-se tocar
e sentir, como sentem vento as velas
das minhas mãos pequenas e singelas
como do vento ligeiro o acariciar
deita-te no meu corpo
como se o meu corpo fosse o mar dos teus suspiros
deita-te na imensidão do mar
para que a espuma nos una até sempre
mergulha no delírio das nossas vontades
sente-me crescer
como cresce a vegetação da floresta quando o sol acontece
deita-te em mim mar enfurecido
sente os meus braços de vento tempestade
sacudir a tua alma e destino
abandona-te à profundidade do crer
acredita enfim
que sonhar também é amar.

Carlos Tronco
Mondeville
18/07/07

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Alentejo




Áridas areias pouco mais acima que terra
Pouco mais adornadas que por vento
Pouco mais acariciadas que por pedras.
Aqui um pinheiro manso já com pinhas
Além um sobreiro sem cortiça
Uma gaivota que voa com preguiça
Descrevendo no azul, vaidosas linhas.
O tempo passava. Nas algibeiras,
Metia as suas mãos ao tempo dadas
Do mistério dos caminhos seguia as beiras.
Um dia, ao caminhar, deu com uma flor
Selvagem. Agreste. Flor de caminho
E o tempo, que corria tão sozinho
Encontrou naquela flor o seu amor.
O tempo sabia que passando
Condenava aquela planta a morrer.
Parou. Suicidou-se e chorando
Permitiu à sua amada de viver.

Carlos Tronco
Melides
Verão 2007

domingo, 18 de outubro de 2009

Carlos simplesmente...




As mãos eu darei à tua cruz
ressuscite quem quiser que eu fico morto
apaixonei-me por prego, ferrugento, torto
e assim pregado, sonho ser Jesus

Imagino agora, por aí, chorando
as mulheres, que me amaram e que amei
um golpe de lança, firme, de vez em quando
e a esponja amarga, de fel, que adorei

O Pai assim me quis e fez-me louco
desejou ver-me pregado, aqui me tem
aceitei ser eu o morto, mais ninguém

Disseram-me, deixa ir outro pobre, qualquer
é o que mais prospera, neste mundo
mas quis subir lá cima pr'a saber.

Carlos Tronco “Carpinteiro”

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Quando morre a noite cresce a alvorada

Uma noite que termina
já cantam os rouxinóis
e o sol já ilumina
a alma e caracóis

uma noite e os teus sonhos
é tempo de realizar
seca as lágrimas dos olhos
vem comigo, vem-me amar

desperta que o sol vai alto
o coração não espera
segue-o e dá um salto
sê a minha primavera

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Salomé quase sereia


Riscos a preto e branco



Porque me pedes sereia
Como a agulha pede a veia
A vida. Não posso dar!
Os passos possíveis são muitos
Podemos avançar juntos
O caminho analisar.

O amar não é ter sorte
Se não for até à morte
Mesmo assim foi partilhar
Um beijo e um momento
Deste meu lábio sedento
Dos teus olhos o olhar

Sereia, oiço o teu pranto
O teu cantar e encanto
Compreende, não vou deixar
A terra que me alimenta
Se por vezes foi cinzenta
É estrela ao brilhar.

Já nos tempos muito antigos
Os três magos e adidos
Deixaram a estrela guiar
O Deus que os esperava
Sobre feno a mãe deitava
O que era de espantar.

Ouro, incenso e também mirra
A oferta era gira
Não se deixou convencer
O menino ali deitado
Virou-se pró outro lado
Antes quis na cruz morrer

Sereia, eu assim faço
Não te vou dar o meu braço
E se assim não conhecer
Dos teus charmes a ternura
Há-de haver uma alma pura
Que me ajude a envelhecer

Velho já, de barbas brancas
Pode ser que as tuas ancas
Veja dançar para Herodes
Se a minha cabeça quiseres
Serás uma das mulheres
Que seduziu os algozes.

Não fui rei, nem sacerdote
E apenas deixei por dote
Umas letras e pensares
Não queiras a minha vida
Pesa antes minha querida
Dos amigos, os pesares.

Guarda bem essa bandeja
Que para mais já não seja
Que para brilhante, espelhar
Da tua alma os recantos
E que haja nos teus cantos
Uma forma de esperar.

Carlos Tronco
Mondeville
20/04/07

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Ter amor...

...ser amor.

Ser amor e não ser gente
Ser amor
E não tocar
Ser o fruto descontente
De uma vida a sonhar
Ser amor
Já é bastante
Para quem pode esperar
Mas um amor
Tão distante
Não é amor nem amar
Preciso crer
Que existes
Neste mundo, pois amor
Amar sem ver o fundo
Não é amor minha amante
Promessas
Fá-las o céu
Promete um sol radiante
Adeus, vamos em paz
Amor, amor, adiante...

Carlos Tronco
Mondeville
14/01/07

domingo, 11 de outubro de 2009

Porque não me entendes?




Porque as estrelas são leves
a ponto de pairar lá no céu?
Porque um Deus as fez livres
a ponto de a ligeireza as sustentar.
Por isso, o homem que sonha
acaba cego, de tanto olhar.
Agita os braços
tenta imitar os pássaros
assobia
tenta rodopiar.
O homem acaba cego
mas nunca aprende a voar.