quinta-feira, 23 de julho de 2009

Assim vai a vida...





A água ia correndo
devagar
sem rumo certo
sabendo apenas
que chegando
se tornaria mais salgada.

A ponte, impávida
por ali ficara
a ver correr águas,
depois de águas.

Unidos por uma só
e mesma sina,
ali se tinham encontrado.

Oposição de posturas:
Uma corrente,
lá ia, sem dar conta
atrás da vida
enquanto a outra
mais pacata,
esperava a morte.

No entanto,
partilhavam um só e único
destino:
quando morresse a ponte
o rio perderia o seu mais fiel
admirador
e não tendo
quem o contemplasse
noite e dia
correria louco
afogar-se
no salgado mar
do esquecimento.

Carlos Tronco
Mondeville
23/05/06

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Vestígios





Do alto das muralhas, pelo tempo vencidas
Se pode contemplar, paz e tranquilidade
Um rio e até as torres erguidas
Completam o quadro silvestre, da cidade

A relva é muito verde, reflecte a esperança
Os narcisos florescem; e dá gosto vê-los
Entre as flores corre agora alegremente uma criança
As muralhas já não servem, terminaram os pesadelos

Nunca mais, tantas mortes; e para que serviram?
Ontem inimigos, hoje quase irmãos
Apenas fizeram chorar, as mães que os pariram

Foi há muito, em algum século passado
Uma guerra, talvez mesmo mundial
Em que o verde campo, ficara encarnado.

Carlos Tronco
Mondeville
18/04/06

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O que é a vida afinal?

Cambaleando
tal um sonâmbulo
em instável equilíbrio
sobre um transparente
fio de seda
de uma mágica teia
pronto a perder os sentidos
e deixar-me encantar
pelo olhar mortífero
e sem piedade
do aracnídeo
sinto que a cada passo
melhor adere ao fio da vida
o pé direito
depois o pé esquerdo
transmitindo perfeitamente
as vibrações da minha impotência
ao monstro que teceu a armadilha
perco o equilíbrio
tonto
como embriagado
pelos vapores de um éter celeste
e porque a dor é imensa,
pergunto
será que o Deus que reclama pronto
a minha alma
é uma aranha também?

Carlos Tronco
Mondeville
15/05/06

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Vou contigo

Sinto
como um vazio no peito
como se a alma
sem jeito
estivesse a morrer
já não bate
badaladas
o coração já não sente
do etéreo as chamadas
sinto o inútil da vida
abandonada esquecida
sinto a palavra
sem cor
no fundo o que é o amor?
será das rosas a flor
o perfume do jasmim
apenas fonte de dor?
acredito
é mais que tempo
dar por findo o tormento
confiar a alma ao vento
que a leve para onde for.

Ouves?

O silêncio são palavras
com que grito o tudo, os nadas
e se exprime o coração
São dores há muito sentidas
nos caminhos destas vidas
de amor e de paixão

O silêncio são castigos
ou melhor, talvez abrigos
onde venho repousar
A alma que tanto custa
deixar sempre andar em busca
e a um Deus confiar

O silêncio são promessas
por cumprir, feitas sem pressas
e um dia , se calhar
Da caverna, onde deixei
esperanças de ser rei
sai rainha para amar

O silêncio vai passando
primeiro assobio brando
depois clamor de assustar
Ouvem-se já as pandeiretas
os bombos e as cornetas
musica ou ressuscitar?

Carlos Tronco
Mondeville
13/04/06

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A morte da esperança...China, Irão, etc.

A morte da esperança

De novo as trevas desceram sobre a terra
e o olor de queimado, paira agora aqui
não arderam coisas, foi estranha a guerra
ardeu a esperança, igual nunca vi

nas faces cansadas, desgosto é profundo
a traição foi tal, nem acreditavam
já não há caminho, valido neste mundo
ao ouvir o mal, apenas choravam

uma vez caídos, no chão, reparai
ainda crianças, são os vossos filhos
estendei-lhes a mão, se pretendeis ser pai

levam inocentes hoje para o calaboiço
amanhã será, sempre um novo dia
a sinistra forca, o vosso baloiço

Carlos Tronco
Mondeville
01/04/06

sábado, 11 de julho de 2009

Como se faz?



Como se faz um poema
perguntou intrigada a criança
os olhos repletos de esperança
a alma cheia de alegria
procurava uma via
mas não sabia dizer

Eu apenas disse
(decerto era tolice)
primeiro é preciso querer
querer abrir a alma ao vento
mas também estar atento
ao mundo e saber partilhar
na palavra, num olhar
na lágrima, numa emoção
saber dar o coração
sem ao coração tirar
aquele modo de apertar
e ao corpo inteiro dar
não só sangue, vida também

Primeiro
é só uma palavra
que pouco diz
quase nada
depois duas palavras
já são quase uma frase
uma acção
com três já se conta uma história
de fracassos, de vitória
e assim calma e docemente
não só somos simples gente
somos a força do mundo
buscando cá nas entranhas
no que temos de mais profundo

Sem vício, sem artimanhas
deitamos a barca ao mar
depois de muito escutar
sabeis o que disse a criança?
-Sou poeta, ...se calhar!

Carlos Tronco
Mondeville
24/03/06

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Luta!!!

Diziam ser a primavera e neva,
de branca neve vai cobrindo,
a esperança e tudo o que de mais lindo
cabe na alma pura da criança.

Neva e o frio invade pouco a pouco a mente,
no futuro acabam por não acreditar,
é na juventude que se encontra a semente;
a força do jovem sorriso não matai.

Tu oh Deus inerte o que fazes?
apenas deixais nevar e nada mais
não abandones os teus nobres filhos sob lajes
enquanto engordam de parvoíces televisivas os seus pais

Matar a esperança de um coração
é o crime hediondo, imperdoável
em vez de assassinar, tende a tua mão
à inocência; é valor digno de ser louvável

Carlos Tronco
Mondeville
22/03/06

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Remendos e retalhos

Não deixes a colcha sem remendos
sem o teu sentir, sem a tua alma
por vezes os momentos são tremendos
mas a esperança, o único barco que nos salva

Não deixes que o tempo passe
e ao passar
Fira a cada instante, e em uma chaga
se transforme cada lágrima do olhar

Cada instante vale pela felicidade do instante
Vê como felizes tomam sol os lagartinhos
Como voam, contentes, colibris e outros passarinhos
Não olhes para trás, "bora" lá! Avante!

O futuro é em frente, vem comigo
Ajuda-me a avançar dá-me o teu braço
quisera convencer-te e como amigo
deixar-te o mais ternurento e forte abraço

sábado, 4 de julho de 2009

Sente-se a vida



Fundiu a neve
e de novo
se faz sentir
nas entranhas da terra
o grito da vida,
a essência do canto.

Já se ouve o correr da seiva nos galhos
já se sente
a vontade das flores
serem fragrância
e depois saboroso fruto.

Por enquanto só se vêm ramos
vestidos de nu inverno e sem folhas
mas o clamor da esperança
é mais forte que o berro
das trevas prestes a acabar.

Com o sol do novo dia
renasce uma vez mais
o meu jardim.

Carlos Tronco
Vou falar de ti às árvores
Mondeville
12/03/06

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Andamos

Andamos

e os meus passos

marcados ficaram

nos teus passeios

os nossos laços

lábios que amaram

do peito os seios

e os meus passos

marcados ficaram

perdidos

sem meios

marcados na pedra

tão dura

sem veios

Carlos Tronco
Mondeville
06/03/06

terça-feira, 30 de junho de 2009

Mercadores do templo





Recuso-me o levar a Cruz do Cristo
Pois na Cruz, foi o Pai quem o pregou
Levo a minha, consciente apenas disto
Por cada Cruz erguida, sempre alguém chorou

Junto ao Cristo chorou a Virgem desesperada
Junto a mim, também alguém há-de chorar
Que a minha mortalha seja, então queimada
Para com, a minha morte, ninguém ganhar

Filhos de Deus, somos todos, e eu também
Apenas uns, fazem levar a Cruz dourada
Enquanto outros, têm na cruz de lenha, o único bem

Se algum dia, numa azinheira aparecer
Virgem Maria, no seu brilhante, manto de luz
Eu peço apenas, para da Cruz, não mais descer.

Carlos Tronco
Mondeville
21/02/06

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Trago comigo um abraço

Trago comigo um abraço
De braços que foram de aço
E agora são poesia
Confio na minha lua
Se a vires também é tua
Haja brisa e maresia.

Trago os olhos já cansados
De tantos sonhos e fados
Os dedos até recusam
Tocar nas cordas singelas
De guitarras que são belas
Quando lágrimas as usam.

Trago comigo a alegria
De quem há muito não via
Os amigos. Mas sonhei
São tantas expectativas
Reunidas tantas "vidas"
Não sei escrever. Chorei.

As lágrimas são tão salgadas
Ficaram as mãos temperadas
Aliviado e sem jeito
Venho ligeiro à conquista
De mais uma vida e em pista
Quero os amigos do peito.

Carlos Tronco
Mondeville
23/02/06

domingo, 28 de junho de 2009

Somos multidão

Um primeiro passo
sozinho e logo
me arrependi
tropecei em quimeras
escorreguei, caí
joelho no chão
as mãos a sangrar
e não é que então
eu senti tocar
uma mão no ombro
que logo me disse
levanta
vem de aí
há outro caminho.
-Certo?
...é mais curto a dois.
Senti-me liberto
e lá fomos, pois
o mundo chamava
há que descobrir
era a aventura
queríamos partir
sonhos de criança
fomos dando passos
cheios de esperança
o mundo é cruel
rápido encontramos
barreiras e muros
a ultrapassar
éramos só dois
e de ali parar
foi como se em espada
fossemos espetar
quase desesperados
prontos a desistir
joelho no chão
os olhos molhados:
-Tudo foi em vão!
e eis senão quando
ouvimos a voz:
-Não estais sozinhos
há outros caminhos.
Já éramos três
o tempo passou
houve mais derrotas
mais vozes ainda
quem abrir mais portas.

Ontem era só
hoje sou multidão
não preciso de armas
tenho coração.

Carlos Tronco
Mondeville
16/02/06

sábado, 27 de junho de 2009

Torre de Babel

Uma torre, só é torre, se for alta
E alta só é, se não cair
Não basta ao Altíssimo pedir
É no chão, que a altura começa

Primeiro há que cavar; ventre materno (Pacha Mama)
A terra, que a todos dá o seu pão
Cavar deixa o seu traço, em cada mão
É na profundidade da cova que nasce o engenho

Alicerces sólidos, fé e alguma arte
Podem os muros da torre, então subir
E sólidos como o amor, já ninguém parte

Sonhamos que a nossa torre toca o céu
Esquecendo a triste história de Babel
Sonhamos levantar um dia o leve, véu.

Carlos Tronco
Mondeville
08/02/06

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Vem; se ousas!

Sinto-me ligeiro como a neve,
caindo lentamente,
para a terra.

Já sinto o frio
que me enterra,
já sinto a morte
e de contente,
ergo o punho ao céu
em desafio.

Morro sem me render,
sem cobardia.

Não sendo rico,
posso até morrer,
com brio.

Carlos Tronco
Mondeville
28/01/06

terça-feira, 23 de junho de 2009

Noites de perdição

Noite alta
Trevas espessas
Espera longa

Uma voz ecoa
Um clamor chama
O murmúrio nasce

A solidão aguda,
Fere a alma delicada
E o sol parece
Uma estrela sem amor
Porque a negra noite
Fria acontece

Tu
Cometa
De longa cabeleira
Cintilante
Que apareces
Por vezes
No reino dos céus
Saras as chagas
De um peito aberto
A um coração perdido
Enamorado

Carlos Tronco
Mondeville
10/01/06

domingo, 21 de junho de 2009

Uma trança




Uma trança

Feita de caminhos
Bem entrelaçados
Escondidos dos olhos
Batidos pelos ventos
Uns de fios de ouro
Os outros cinzentos
Leve como a dança
De penas perdidas
Caminhos sem rumo
Cabelos de fumo
Que mãos penteiam
Com dedos molhados

Cabelos apanhados
Por fitas de cor
Belos penteados
Carinho e amor
Caminhos sem fim
De vidas suponho
Ou fios sem prumo
Que olhar ruim
Não viu nem quer ver
Perdido a olhar
Muito devagar
Vai-se arrepender

A trança da vida
Agora desfeita
Era tão cumprida
Já não se aproveita
Hoje é carrapito
Mais pequeno claro
Também é bonito
Pois de metal raro

Carlos Tronco
Mondeville
3/01/06

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Fado do amanhecer

Tocar com a ponta dos meus dedos
Da alma os teus segredos
E os teus lábios beijar
A distância é tão-somente
Pimenta para quem sente
Com o tempo se aprende a amar

Amar com garra e dedico
O feio e o bonito
à razão das minhas preces
Andava no mundo perdido
Sonhava sozinho e comigo
E então tu apareces

Não houve nem azinheira
Pastorinhos ou outra asneira
Apenas oportunidade
De abrir asas e voar
Como quem queria voltar
Aos vinte anos; a boa idade

Gira a terra como sempre
De uma forma permanente
Contigo quero dançar
Que toque à noite e ao um dia
A orquestra, a sinfonia
Até o sol se deitar

Carlos Tronco
Mondeville
01/01/06

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Sem título...

Se eu soubesse quantas vidas
Tenho para florescer
Deixava-me de despedidas
Ia pelos montes correr

Cantar fados, desgarradas
Deixar a vida viver
Com o inverno, com o estio
E a primavera a crescer

Venham amigos, amores
Que venham todos por bem
No peito da minha mão
Há lugar para cada um

Um abraço ao coração
E pão para mais algum
Sentem-se amigos à roda
Tudo é bom enquanto dura

Ele só se termina a boda
Quando algum Deus nos empurra
Para o vazio, para a cova
Mesmo sendo a morte pura

Seja o mais tarde possível
A cova só quero ver
Quando não puder sonhar
E amigos já não ter

Carlos Tronco
Mondeville
31/12/05

quarta-feira, 17 de junho de 2009

O fragil da vida




Silêncio, branco, em noite que amanhece
Quando o manto estendido, vencido parece
Por vezes, no meio, uma ave, procura
Pão. Semente ou somente salvar a vida
Algum insecto, verme, criatura perdida
Branco e frio; é gelo, em manhã ja madura

Combate entre o belo e o tempo que passa
A neve a orar, com fé, rogando a graça
A clemencia dos céus, também algum frio
A ave coitada, com fome procura
Se alguém viu passar um petisco; ternura
De uma cena que segue docemente, um fio

Que amarra à vida, à terra e ao céu
Para voar, a ave, precisa de piteu
A neve necessita para viver de gelo
A ave, ela, morre de frio, ao vê-lo
Eu à janela, impotente, assisto
Ao drama da vida, resumido, a isto.

Carlos Tronco
Mondeville
28/12/05

domingo, 14 de junho de 2009

Emigrantes

Enquanto houver
Uma vela acesa
Na mais pequenina capela
Do mais agreste monte
A gente ao vê-la
Ao olhar p'ra ela
Acredita
Que a esperança
Continua a correr daquela fonte
O que nos une à Terra?
Procurais
Não são só os “ais”
Acredito
Para uns pode ser
O que viveram os pais
Para outros a recordação
De um sol mais bonito

Carlos Tronco
Mondeville
06/12/05

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Chorar

De mãos fadistas, doce carícia
Na pele vibrante, nas tuas cordas
Sente dos dedos, mas sem malícia
O carinho sagrado, tu quando acordas

Tu, oh! guitarra, fêmea encantada
Da tua voz, doce e suave
Tornas mais leve, a madrugada
Contigo voo, tal uma ave

As tuas formas, arredondadas
Recordam as musas, tempos antigos
Em que nos bosques, viviam fadas

Esse teu cabo, que não tem fim
De alguma Deusa, lembra-me as pernas
Meias de vidro, cor de marfim.

CARLOS TRONCO
Mondeville
06/12/05

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Espera

Espera

Traz a tua alma

que para inspiração já tenho a lua

traz o teu coração pois para beleza já tenho o sol

vem, traz o teu ser, vem vestida ou nua

e do teu carinho farei o meu lençol

Carlos Tronco
Mondeville
26-11-05

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Palavras para...Inês

Palavras para…Inês

Entre a tua gentileza e a minha solidão
existe apenas um mar, um oceano incógnito
de quem a maior lágrima é a distância
as quimeras e outros sonhos coloridos,
são os enfeites que feitos espuma, adornam as ondas

Nem sempre o horizonte é rubro ao por do sol
por vezes chovem cravos vermelhos
e quando vires uma mancha vermelha no negro do meu colete
saberás que as letras do alfabeto se esgotaram
cheguei e o poema, esta prestes acabado

Carlos Tronco
Mondeville
19/02/09

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Condenado ao silêncio

São palavras de sonho

são sonhos mal ditos

são corações aflitos

pesadelos medonhos

não saber dizer

o que alma sente

e na mão da gente

não poder fazer

inventar com letras

palavras que ditas

e depois escritas

toquem ; são cornetas

palavras são música

que alegra o ser

não poder dizer

é a morte somente

Carlos Tronco
Mondevile
26/11/05

sábado, 6 de junho de 2009

Nevão





Neva docemente
e docemente se vai cobrindo
de imaculado branco
os testemunhos da humana vida
neva, docemente
e docemente
se vai acreditando
que ainda é possível
preservar
este nosso cantinho de vida
neva, docemente
como um sinal do alto
um convite
à aceitação do destino
neva, docemente
mas sabemos,
que os bonecos de neve
são o fruto
das mãos do homem

Carlos Tronco
Mondeville
26/11/05

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Inverno

Em fria madrugada
quando mercúrio desce
até ao sétimo "degrau"
abaixo de zero
acontece o milagre
do cristal de gelo
Dona Aranha,
tendo armado a sua teia
na véspera
para caçar algum
insecto
de sina menos invejável
depara-se
quando Dão Sol
abre o primeiro
olho
com uma obra-prima
digna do “Michelangelo”
dos aracnídeos
e eu,
pobre caiador
de muros velhos
levo o meu joelho a terra
em sinal de reconhecimento:
a natureza
recompensa a vista
para que lhe perdoem
o silêncio
do canto dos rouxinóis

Carlos Tronco
Mondeville
21/11/05

terça-feira, 2 de junho de 2009

Cerrado



Fechei os olhos
Para os teus olhos não cegar
Fechei a boca
Para os teus lábios não queimar
Fechei o punho
Para a tua liberdade conservar
Fechei o coração
Para a tua alma não perder
Depois,
Adormeci

Para contigo,
Poder sonhar.

Carlos Tronco
Mondeville
06/11/05

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Passos sem rumo





Quando longe dos meus passos

vereis as minhas pegadas hesitantes

e que ao longe o horizonte

pareça nada mais que infindo

não tenteis seguir-me:

será porque me perdi


Quando longe dos meus passos

encontrareis a minha alma

dizei baixinho uma oração;

talvez um Deus mais clemente

escute

e perdoe

o ter-me perdido

Carlos Carpinteiro
Mondeville
02/11/05

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Lágrimas




Quando olhos molhados
pelo salgado destino
procurava na sombra
dos cabelos molhados
a frescura da vida
e paraíso dos sonhos

Dizias:
-Os homens não choram

E eu perguntava:
- Porquê?

Não respondias.

A minha nuca afagavas

e então eu me abandonava
aos teus cabelos de fada.

Carlos Tronco
Mondeville
27/09/06

terça-feira, 26 de maio de 2009

Areias dispersas





Areias dispersas
Eu não sou ladrão de sonhos
Sou pupila dos teus olhos
Esquece amor, a tua areia
Para ser duna em minha praia
Volta um dia a ser catraia
Sê o canto da sereia

Deixa-te levar pelo vento
Sob o meu olhar atento
Assim se aprende a voar
O tempo que já passou
Levou tudo, não levou
Direito de se apaixonar

Hesitas, é natural
Pois o branco é cor de cal
Vê como a neve é fria
No céu as cores são muitas
Arco-íris, quando elas juntas
Ao brilhar, que alegria

Detesto pregar em vão
Logo, dá-me a tua mão
Vamos percorrer o mundo
O tempo que já passou
Foi tempo, já o levou
Um Deus para o mar mais fundo

De mãos dadas a cantar
Corpos pregados, dançar
Pregados tal Cristo em cruz
Que eu seja o teu madeiro
O que ressuscitar primeiro
Leva o outro até a luz

Carlos Tronco
Mondeville
14/10/05

segunda-feira, 18 de maio de 2009

DEPOIS, OS JOELHOS CEDERAM

As pernas dobraram-se sob o peso de uma vida já longa. Mas que continuava. Seria o peso da experiência?
Acredito que a experiência evite a repetição dos mesmos erros.
Será que pode evitar o acontecimento de erros diferentes?

Não repetir os mesmos erros, talvez não evite o errar.
A experiencia, permite o melhoramento, isto é, permite fazer melhor que precedentemente?
Fazer melhor implica portanto fazer diferente
mesmo se, fazer diferente não impede fazer pior.

Como se aperfeiçoar com a experiencia então?
Só a experiencia própria é valida. A filosofia chinesa explica, que a experiencia, é uma lanterna que só ilumina o caminho daquele que caminhou.
Eliminando os erros sucessivos, podemos esperar um dia, sermos confrontados a um numero reduzido de possibilidades e então diminuirmos pela experiencia a probabilidade de errar. No entanto “o homem teme o que ignora” e prefere perpetuar o erro sabendo que esta errado, que confiar à incerteza a possibilidade de acertar um dia.
Por isso cega.
Por isso prefere a religião à razão. Por isso nega à consciência o que oferece à superstição.
Por isso continua desesperadamente humano.

Carlos Tronco
Mondeville
18/05/09

domingo, 17 de maio de 2009

O raio de luz

Beira-mar.
Quase praia.
Mas sem areia.
Rochedos
Muitos
E pontiagudos.
À flor das ondas
Neblina espessa
Para não dizer
Que pouco se enxerga.

Ondas,
Das mais bravias
E eu sonhando

Vejo-me
Tal um símbolo fálico
Antigo,
Um farol
Que pretende guiar,
Que tenta guiar
Os veleiros
Na tormenta,
As almas perdidas.

Sonho poder ser
Sustento de sonhos
Alento de madrugadas frias
Mas repletas de esperança.

Sonho
Poder guiar os passos
Orientar as velas
Soprar os ventos.

Sonho
Gritar baixinho
Murmurar, estou aqui
Segue a luz do meu espelho.

Sonho,
Mas é em ti meu amor
Que encontro rumo
Para os meus hesitantes passos.

Carlos Tronco
Mondeville
13/10/05

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Outono da vida

Se a noite foi longa
Mais longa foi a espera
Esperava confiante
Alguma primavera

Que a geada se fosse
Que enfim viesse o calor
E com o perfume das flores
Encontrasse o amor

Esperei
E o tempo
Pouco a pouco
Passou

Primavera não veio
Muito menos o verão
No outono passeio
Esperando em vão

Carlos Tronco
Mondeville
11/10/05

sábado, 9 de maio de 2009

Cegadas



Vedes
Aquele espantalho
Ali abandonado
No meio da ceara?
Entre as espigas maduras
De barbudo centeio
Entre as rubras papoilas
Irmãs do pão
Vedes aqueles braços descarnados
Que imploram os escuros céus?
E ouvis o pranto
O vento desesperado
Uivar como famintos lobos?
E os rebanhos?
Tresmalhados
Espantados pela cena
Que se precipitam
Do alto da falésia
Como um só ser?

Não
Não vedes
E ainda menos sentis
Que o espantalho são apenas
Dois paus cruzados
Vestidos de um casaco velho
Ornado de um chapéu furado
Talvez roubado
Derrubado desde a primeira tempestade
Não vedes que teima na posição erecta
E de pé
Apenas se expõe
A inclemência
Dos elementos
Para
Mais depressa
Desaparecer
Ser esquecido?

sexta-feira, 8 de maio de 2009

TERRA DE SANTOS




Os tambores nunca se calaram
Continua a bater amigo, e grita!
O teu sofrimento lá longe, discreto
Mesmo se os canhões já se acalmaram

De carne e osso, tu companheiro
Da escola, no mato, dos mesmos bancos
Perdeste as pernas, a esperança, é dinheiro
As minas vinham de países democráticos

Hoje festejas a independência
De quem? Tu o craque da bola
Viva presidente! Que indecência!

Querias levantar quando toca o hino; Peninha!
Não vale a pena tentar
Cospes nas mãos para fazer avançar a cadeirinha

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Duvido, mas procuro

Não é por não poder, que amar não quero
Não é por eu te amar, que perder me vou,
Além de tudo, a vontade é de ferro,
De tudo um dia dar, como um Deus, o dou

Deu olhos e a luz nos mostra o caminho,
A vontade faz o resto e aqui estou
Mas sempre avançar, mesmo se for sozinho,
Legume ou cordeiro, é que eu não sou.

Vinde pois; segui-me, se assim o desejais
A senda é escarpada, e até fere os pés,
Mas sede sem mais, do que simples animais

Livres, inventivos, sede enfim amantes
Partilhai o corpo, a alma e os bornais
Sereis então felizes, mais felizes do que antes

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O caminho

Eis o caminho escolhido
E sigo apenas o rastro
Dos teus passos quando afasto
Do meu banco os passos meus

Deixo de ser uma pedra
Sem alma que nada quebra
Guiado por um olhar
No céu os astros são teus

Falavam os velhos antigos
De uma via que nos céus
Láctea; Hera a mulher de Zeus
Deixara então escapar

Da boca de um Hércules esfomeado
O seio que pendurado
Marcara o infinito
Com o traço do leite dito

Pois vejo agora sim
A via, será que persiste?
Mas na minha mente existe
E me guia ao seio teu

Carlos Tronco
Mondeville
08/09/05

segunda-feira, 4 de maio de 2009

O fim está próximo



São cores
Que lembram as flores
Jardins perfumados

Enquanto os amores
Dizem serem dores
Longas caminhadas

São olhos
Que vêem aos molhos
Como é profundo

O fundo do mar
Que me há-de levar
Ao berço do mundo

São sons
Do fundo da alma
Que olho com calma
Lembrando penhores

E as águas
Deixam navegar
E até baloiçar
Em ondas as mágoas

Espero
Que vá germinar
Quando me deitar
Nos braços sereias

Assim
Talvez seja o fim
Mas é para mim
A fonte de ideias

Carlos Tronco
Mondeville

domingo, 3 de maio de 2009

Quando cai uma folha







Quando cai uma folha

Uma folha verde amadurece
E o verde vai-se tornando amarelo
Do outono é, talvez, o tom mais belo
A queda de uma folha que enternece

Uma folha que cai perdendo a vida
Nos braços do vento se deixa adormecer
Para as andorinhas, é o sinal, da partida
Mas não tarda outro dia a nascer

Caiem folhas e depois vai caindo
Branca neve quando chega o Natal
A criança, o Deus Menino, é o bem-vindo

Nascimento que traz com ele a esperança
De dias melhores, de uma doce primavera
Vede no horizonte, como a morta folha dança

Carlos Tronco
Mondeville
05/10/05

sábado, 2 de maio de 2009

Do mar conheço a sede




A cor do mar é salgada
como a lágrima do olhar
quando lembro a minha amada
e me deito a afogar
:
E me deito a afogar
Nas águas da tua fonte
que procuro acariciar
antes de beijar o "monte"
:
De Vénus hei-de escalar
pelo norte e pelo sul
para me deixar escorregar
até águas do azul
:
Azul dizem ser o mar
como são os olhos meus
para não veres, eu vou fechar
ao beijar os lábios teus

Carlos Tronco
Mondeville
29/09/05

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Ondas



Espuma
Renda na crista das águas
Como semente que vem fertilisar
O esteril mar
Talvez seja isso o amor !
A dissolução
De um ser
No seu elemento

quinta-feira, 30 de abril de 2009

A queda

Caio a cada passo pois tropeço
nos braços de um vento duro e frio
caio tão bem que já conheço
cada palmo do inferno e até já rio

Cada vez que caio até chamusco
nas labaredas do demo a minha alma
e quando volto a pensar com alguma calma
sinto-me então triste e acabado!

Espero um dia tropeçar
de tal modo que ao cair não toque o chão
e seja o dia em que aprenda a voar

Asas não tenho e até suspeito
apenas me resta o poder sonhar
que o coração não me arranquem deste peito

Carlos Tronco
Mondeville
3/09/05

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Fui falar de ti




Caule, vertical
Crescendo, divertido
Sonho vegetal
De braço estendido

Multidão em floresta
Que respira em verdes folhas
Agua feita chuva, divina, tu que molhas
À árvore das de beber, cais e é sempre festa

Caule feito tronco
Que é mais forte cada dia
E de raízes profundas, da terra, vou ao encontro

Fui terra, barro amassado
A terra hei-de voltar
Talvez sejam saudades, saudades do meu passado

Carlos Tronco
Fui falar de ti as árvores
Mondeville
20/09/05

domingo, 26 de abril de 2009

Acontece



Sentado no colo, deitado no peito
Semeando vento, mais que tempestade
Um peito, um abrigo, fonte de amizade
Encosto feliz, a face, ao meio

Em fonte de carinho, água é a ternura
Procuro encontrar, uma razão à vida
De que cada etapa, é uma despedida
Hoje uma ilusão, ontem lua escura

Amanhã novo dia, volta o sol, sobre o mar
Com o sol, volta a esperança e a vida continua
E a maré é a vida, que recua para avançar

Encosto a minha cara, escuto minha querida
No peito, o coração bate sem parar
No cabelo dedos de mão; a doce mão... Da vida

Carlos Tronco
Lisboa
4/08/05

sábado, 25 de abril de 2009

Seja Abril a cada instante




Se um dia por acaso aqui passaste
ao sentires na aurora o perfume da saudade
lembra-te do cravo vermelho que pisaste
e sabe porque perdeste a liberdade

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Sementeira

Caminho e andando, semeando duvidas
Perguntando a mim mesmo o que é amar
Questões sem resposta, verdades viúvas
Mas vou caminhando, querendo avançar

Conheci outrora, linda rapariga
De olhar tão meigo; escrevia bem
Lembrança que guardo, como uma figa
Passaram os anos e foi-se também

Casei e com filhos, caminho já feito
Julguei nesta vida, ter enfim chegado
Mas o coração, batia no peito

Um quase velhinho, de barbas já brancas
Continuo andando, será que floriu
Cada flor selvagem, que o tempo pariu?

quinta-feira, 23 de abril de 2009

O OLHAR

O Olhar,

vai-se perdendo
no vácuo do distante,
ao longo dos anos
por vezes,
só ás vezes,
se encontra
em outros olhos perdidos,
e sorri

As mãos não acariciam
nem só ventos,
nem só sonhos

por vezes acariciam peitos,
mas também almas.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

SABER





Não sei que esperanças ter
Não sei dizer
Qual rumo é o melhor
Não sei mostrar
Só sei que sigo o fado
A pensar
Talvez seja seguir-te, o meu destino


Não sei há quanto tempo
Sigo a lua
Depois, noite perdida sigo também
O sol, como se fosse a sombra tua
Sem brilho
Pois tu és a luz, meu bem

Só sei, quando em mar alto,
Ando perdido
Que o abraço mortal, das ondas,
Já desejo
Sempre me foi possível fugir do perigo
E encontrar a calma, a vida
No teu beijo.

Carlos Tronco
Mondeville
18/09/05