domingo, 8 de fevereiro de 2009

O pastor

A menina de quem a cabeça se enche de estrelas
Adora, pés em terra, ver passar
Cometas, luas, constelações; são velas
Que à noite iluminam o seu olhar

O seu destino é apenas o infinito
A sua esperança, nada menos que, muitos anos luz
É tempo, muito tempo, mas conduz
Almas, talvez perdidas e é bonito

Ver a menina, de brilhantes olhos, como astros
Procurar, no vazio, na imensidão
Para alimentar seus sonhos, verdes pastos

Talvez lá, no etéreo, longínquo prado
Vida; o tal pastor que dá a mão
A todos, pobres humanos e ao seu fardo.

Carlos Tronco
Mondeville
24/05/05

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Sonhos meus

O tempo, vai passando, sem dizer
Que é tempo, mais que tempo, de gritar
Basta!
É tempo de construir
Talvez, até, tempo de amar
Uma vida, não é vida, feita vento
Construir
Mas o quê, podeis dizer?
-Castelos.
...era moda em outro tempo
E porque não
Moinhos?
Sim
Simples moinhos
A vento
Para quê?
Haveis de perguntar...
Farinha

E boa
No mercado
Para que içar as velas?
Porque as velas
São tão belas
Ao girar.
Às voltinhas
Sempre à volta
Digo eu
Enquanto uma vela
De moinho
Encantar
Alguém sonha
Ser; saudade...
Dar a volta
à terra de verdade
E se por acaso acontecer
Encontrar, o paraíso
Em algum ponto...

Acordo!
Largo a âncora
Depois conto...

Carlos Tronco
Mondeville
27/05/05

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Virtual

Perguntei ao silêncio da noite
O que procuravas aqui, nesta teia
Que temias tu sereia?
Um beijo? Ou então açoite?
Para no longínquo anonimato deste meio
Virtual de se amar a si mesmo
Sem prazer
Olhemos a tela
E vemos feio
Nossa cara, nossas crenças, nosso ser
Que procuramos então juntos aqui
Vida, vidas, teatro ou real sentir?
A distância como mascara do tempo?
Muralha de defesa do sentimento
Qual fracasso esconde-mos ao ouvir
Letras, letras, letras,
Sinceras
Ou tretas?
Confissões ousadas
Palavras pesadas
Sentimentos censurados
Namoros
Sentir mas não tocar
Não ver sequer
Lágrimas
Lamentos
Amor virtual
Sem pecado capital
O essencial está salvoA alma, a alma, alma
O que não impede de arder
A chama, a chama, a chama
E virtualmente sofrer.

Carlos Tronco

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Homem

Amarrado ao mastro de um navio
Olhos cegos para o canto não ouvir
Nos braços de uma sereia não perder
Nem fé, nem tempo e ainda menos brio
Amarrado ao mastro de um navio
Tal o grego da grega mitologia
O navio da vida, esquecia
Sem amor até o verão é frio
Amarrado ao mastro de um navio
Tímpanos furados por doce melodia
Cegando cegos olhos, segando verdes trigos
Sugando até sangue, ouvindo só gemidos
Cegando esperanças, dos cegos dia a dia
Abrindo os abrigos
Ao vento, à tempestade
E ao futuro incerto
Pregar não sendo padre
Quando já usado
Exausto, velho, inerte
Ao céu pede clemência
Ao pai, o seu perdão
Só já encontra o diabo
Para lhe estender a mão

Carlos Tronco
Mondeville
24/05/05

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Quando desce o sol, sobe alto a lua

Quero encontrar no teu carinho
Elixir de eterna juventude
Como esse outrora, em que pude
Ser rumo no teu caminho

Afastar as turbulentas
Águas de um mar salgado
Atravessar com agrado
Estreitos, lagos e lendas

E quando o sol já cansado
Deixar o lugar á lua
e a saudade for um fado

A vida sera uma senda
Canto, prece, minha e tua
Os frutos a tua prenda

Carlos Tronco
Mondeville
24/05/05

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Inverno austral

É quando o inverno chega
com só seus cabelos
cor de neve
que o aconchego
da colcha de retalhos
se faz sentir
com mais
insistência
vamos aprendendo
juntos
a desvendar
os mistérios
dos gansos
lagartos
colibris
crocodilos
e outros animais humanos

Será a magia da vida?


Carlos Tronco
Mondevile
24-05-2005

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Perdição-Fado

A distância por castigo
Não quero discutir contigo
Do sentido da paixão
Basta-me sentir nas folhas
O vento onde recolhas
O bater do coração

Corre o tempo , foge a vida
Vais tu, vou eu; despedida
Está certo; dá para pensar
São muitos os meus desejos
Meus sonhos, falta de beijos
Mas um dia hei-de cantar

Fechar olhos como o galo
Para não ver do que falo
Escutar a emoção
Há muito ando perdido
Neste mundo sem sentido
Procurando a tua mão

Outrora ensinei a andar
A uma amiga sem par
Pelo caminho do meio
Seguindo o exemplo das velas
Quanto mais vento mais belas
Tudo o contrário do feio

Ensinando e aprendendo
Subindo mais que descendo
Por vezes a procurar
Onde anda o meu amor
Tal o perfume da flor
É charme de encantar

Meus amores, fosse eu fadista
Dava o peito e até a vista
A quem me quisesse por par
Sou apenas marinheiro
Por destino sou solteiro
E a lua é o meu altar.

Carlos Tronco

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Até ser dia

Noite e dia perguntei
O que será o amor
Da vida interroguei
O tom cor e sabor
Pedi ao vento vadio
Às flores e mulheres em cio
Procurei brando calor

Cada um o seu sentir
Respondeu sem hesitar
É loucura perguntar
A vida passa a fugir
Entre o parto e a morte
É vida e quando há sorte
Fadas ajudam o parir

Perplexo, duvidei
Sendo tão fácil a resposta
Porque a vida é tão torta
O divino é complexo
Obra de "Deus" o destino
Pode o humano ser "Lei"?

Deixo a pergunta aos astutos
Algozes, parvos e brutos
Não me vão contaminar
Procuro a resposta nas estrelas
Nos mares, nas ondas mais belas
O meu fado sempre amar

sábado, 31 de janeiro de 2009

Horizontal

Não estou fisicamente presente
Nada mais sou que, janela aberta
Sou música, palavras, mas não sou gente
Distância, a verdade descoberta

Sou presença, sou lembrança e até fado
Sou saudade, com voz rouca, sou carinho
Queria ser, algo mais, o ser amado
E saber, dos teus passos, o caminho

Que o meu caminho encontre, a tua estrada
Como o fio-de-prumo, a vertical
Queria ser, o teu destino ou tudo ou nada

Que os meus olhos cruzassem, os olhos teus
Que o meu olhar, branco puro como a cal
Guiasse os teus sonhos, até aos meus.

Carlos Tronco
Mondeville
12/05/05

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Sem regresso

Vês a areia, cor de areia, na ampulheta?
Que vai correndo, correndo devagar
Essa areia tempo corrido, cai direita
E para voltar a correr basta virar

Assim, em tempos antigos, se media o tempo
Mas na vida, meu amor, não há voltar
Cada segundo do tempo que se for
É tempo que já não se deve chorar

Cada instante saboreado, sofregamente
Amanhã não sabemos a cor do sol
Uma nuvem, pode esconder e de repente...

Deixa os meus lábios provar os lábios teus
As minhas mãos apagar os pesadelos
São instantes de felicidade, dádiva de um Deus.

Carlos Tronco
Mondeville
10/05/05

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Coroas

Coroas
Adornadas
De prata
Catitas
Sem preconceitos
Promessas de doces leitos
Sorrisos ao constatar
Dos seus homens o defeito
Sempre virados p'ro mar
Sentidos encantos
E com sereias perdidos
Os seus prantos divertidos
São cantos quase sem jeito

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

DIZER

Porquê
tentar dizer o indizível
porquê sondar a alma
sabendo vão
que por mais que pareça, tão, risível
a alma não se come
como pão
tentar saber em um instante
o porquê da vida
a felicidade
dizer e claramente sentida
palavras misturadas de verdade
perguntar também
o que verdade é
pois
o que para mim tem um sentido
se alguém o ouve
tende o ouvido
talvez entenda que foi dito sem ter fé
partilhar da minha alma com a tua
dizer, alinhavar, tomar partido
alguém encontrara, eu não duvido
palavras para dizer a alma sua.

Carlos Tronco
Mondeville
03/05/05

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O QUE É A MORTE?

Quando o coração para de bater?
Não, aquele coração que puxa
A máquina que faz circular
O líquido vermelho
O sangue
Essa morte é clássica, é...
Talvez seja
Facilmente detectável
Estou a falar do outro
Do coração impalpável
Etéreo, desobediente
Aquele que comanda à loucura
Aquele que foge à razão
Aquele, insensível à consciência
Sim aquele que ama
Morrer é então já não amar
Que é a vida afinal?
A fase da existência durante a qual
O coração indomável
Bate por alguém


Carlos Tronco
CAEN
24-03-04

domingo, 25 de janeiro de 2009

Encontro

Se as minhas mãos soubessem falar
quando te afago o rosto
e apago as tuas lágrimas

se os meus dedos soubessem dizer
quando acaricio o teu peito
e escuto o teu coração

se o meu ser pudesse explicar
o que a minha alma sente
se os meus lábios soubessem cantar...

é um gesto imperfeito
palavra sem jeito
etéreo falar

são flores à enfeitar
são rendas do peito
são beijo por dar

e depois sem medo
sereno e feliz
de poder partilhar

eu deixo o meu dedo
vadio, é segredo...
deixo passear

por montes e vales
colinas ribeiros
e deixas tocar

nas cordas da vida
guitarra querida
a acompanhar

o fado, o destino
o nó da garganta
o sorriso enfim...

se a mágoa é tanta
hesitas perguntas
depois de mãos juntas

sorrindo, alegre
e quase com febre
pedes protecção

da cara ao joelho
da alma o espelho
...passeia uma mão.

Carlos Tronco
Mondeville
07/05/05

sábado, 24 de janeiro de 2009

Historias para dormir de pé...

Amiga dôce
tu que sabes escutar
palpitas
por vezes adivinhas
e ris

Amiga distraida
de dedo entalado
seria un namorado
aquele passarinho?

ou o seu vizinho
o famoso lagarto?

tu que não quizeste
deixar o jacaré
procuras ali
e pé ante pé

mulher
eu ja vi
eu sei como é

eu o teu amigo
que esta sempre aqui

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Astros

Sinto no calor do teu peito
No afago dos teus braços
A potência, o fogo, o jeito
A corda, o fio, também os laços

Sinto a ternura condensada
Do abraço forte e carinhoso
De uma procura desesperada
De um beijo que tem algo bondoso

Sinto alta noite em companhia
De um cometa fugitivo
De uma brilhante estrela, mas vadia
Sinto tocar no alvo que persigo

Sinto apenas, pois tocar não posso
Aqui, a razão do acreditar
Em céus, astros, tudo quanto é nosso
Conjugando simplesmente o verbo amar

Carlos Tronco
Mondeville
01/05/05

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Um instante

Um instante
Pode ser o princípio da eternidade
Como o ponto final
Da incerteza
No entanto
Instantes virtuais
Mesmo somados
Não fazem vidas
Quanto a mim
Começo a duvidar
Que existo

Carlos Tronco
Mondeville
31-03-2005

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Poente

Procuro a solidão
Doce pecado
Que me faça esquecer
A minha sina
Procuro a sua mão
Também o fado
Que me leve ao entardecer
Sobre a colina
De onde possa ver
Deitar no mar
Algum sol perdido
No tormento
Do frio celeste
E em um momento
No salgado leito
A ternura encontrar

Carlos Tronco
Mondeville
29/03/05

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Adorno mural



Disseram-me
que não eram muros
antes paredes nuas
tristes
sem vida
corpo inerte.

Eis o desafio
ressuscitar
e
com
pincel e tinta
tornar algo
inexpressivo
ao olhar
felicidade
de uma tarde
cinzenta.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Vento vadio

é algo difícil
falar com o vento
e deixar levar
como folhas fossem
o seu pensamento

não é que não gostem
as folhas portanto
de voar enquanto
o outono vem
e o vento vadio
aquele que é frio
que estraga a madeixa
pensamento leva
de aqui para além
o que vale também
quando vem de volta
esse vento à solta
traz e sabe bem
mil pensares

amém

CC
Mondeville
15/04/05

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Molhada como chuva

Continua a chover
Gotas de água
Traços de vida
Derramadas
Caiem do céu
E sujas
Em lama
Correm
Em chão alheio
Vidas que se vão esgotando
Caindo
Derramando
E quando o sol
De novo raiar
Talvez seja tarde demais
Talvez já não haja nuvens no céu
Talvez a vida tenha deixado de ser

Céu azul claro
De pura sede

Carlos Tronco
Mondeville
29-03-05

domingo, 11 de janeiro de 2009

O mistério da arte

Pretendeis conhecer-me pelo que escrevo,
As letras, não fui eu quem as inventou
E Deus apenas, a soletrar, me ensinou.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Silêncio

Nos teus olhos, nos teus lábios, nos teus braços
Procuro o meu caminho, segredo teu
Procuro a luz clara que a um ateu
Possa levar da baixa terra ao alto espaço

Procuro, por vales escondidos, suaves colinas
Onde a alma faz o leito para sonhar
Onde se desaltera em fontes, o mudo olhar
Fontes frescas e puras das meninas

Dos olhos; dizia há pouco, a esperança
De ver como em miragem, fundo ao mar
Tocar nos céus, como em sonhos de criança

Conhecer, o impossível, o destino
O rumo de uma vida a sonhar
Quando deixado, de mágoa desatino

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Uma pétala adormece nos braços do vento

Uma pétala adormece nos braços do vento
Que sem piedade, a leva rudemente
Ao leito, de ervas, do amor convento
Para a depor, como uma semente

Algo fabuloso, que só é ternura
No chão consagrado, e vai rebentar
Um quadro pintado, só de formosura
O frágil da pétala, fundo como o mar

Triste a menina, ali a encontro
Parecia perdida; quando a achei
Mas tão ternurenta, caramelo em ponto

Na palma da mão, então fiz saltar
A pétala de flor, quadro colorido
Coisa pequenina, grande pelo amar.

Carlos Tronco
Mondevile
17/03/05

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Searas vermelhas



Papoilas
Sabeis o que são?
São coisas floridas
Que puxam do chão
E todas garridas
De singelas cores
Serão mesmo flores?
Tão frágeis são elas
Vermelhas
São sangue
De feridos campos
Arados selvagens
Ferozes charruas
Flores encarnadas
Enfeitam os trigos
Searas, amigos,
Com flores engraçadas
Searas vermelhas
Dos campos antigos

Carlos Tronco
Mondeville
12/04/05

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Palavras

Uma palavra solta
Uma palavra apenas
Uma palavra dita
Grito de revolta
De mágoas e penas
Tu mulher catita
Uma palavra leve
Não há quem lhe pegue
É flor de jasmim
É perfume santo
Que tem o encanto
De um amor sem fim
Palavras perdidas
Frases esquecidas
Efeito atrasado
Depois são relidas
E são destas vidas
O sal e o agrado
Confessei e disse
Com poucas palavras
Como te amo amor
E tu respondeste
Tem juízo, engano,
Palavras sem cor
Fico aqui perdido
Ao canto esquecido
Como um velho santo
Das minhas palavras
Vão nascendo nadas
Mas ouve-se o pranto
Até há quem goste
Sente-se feliz
Talvez mais confiante
E com palavrinhas
Que já não são minhas
Torna-se amante

Já não sei, não juro, que é poesia
Mas tecer palavras
Mal alinhavadas
Traz-me alegria

Carlos Tronco
Mondeville
24/03/05

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Quem?

Nem cera, nem mármore, mas apenas carne
Humano calor, divino dizer
Barba por fazer e o resto charme

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Senti a macieira florescer




Fui ao jardim espreitar
Ver se a vida já brotava
Uma macieira estava
Pronta para despertar

Senti nas profundas entranhas
A seiva já a subir
E de desejo sorrir
Fêmea de cascas castanhas

Aqui está a primavera
Mas como pode escolher?
Árvore plantada na serra

Entre a terra onde a prendem as raízes
E o céu onde se libertam os perfumes
Podemos ser, testemunhas e juízes?

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

FOI ASSIM QUE O INCRÍVEL ACONTECEU

FOI ASSIM QUE O INCRÍVEL ACONTECEU

Mãos trémulas, erguendo-se, e ao céu implorando
O favor mais lindo, no vale da frescura
Com as mãos desenhando das colinas a verdura
O objecto do desejo implorava chorando

Sonhava com o vale, dormia nas colinas
E da verde erva fresca, dizia o sentir
Sozinho no deserto, então resolveu pedir
A erva que crescia da fera eram crinas

Pediu ao Deus senhor a criação de um ser
Coisa parecida e comparava aos sonhos
Fosse bonita ou feia, como Deus quiser

E foi assim pedindo, o nosso pobre Adão
A criação da mulher obteve, o pai de todos nós
Conheceu a felicidade, conhecida a solidão

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Verde é a distância

Verdes são os campos
de trigo ao nascer
verdes os teus olhos
estando a escrever
escrever de verde
da cor da esperança
enquanto amadurece
canto e tu dança

Verdes são os campos
verde o meu jardim
os suspiros tantos
tão verdes para mim
dá-me verdes beijos
com o teu olhar
no céu desta boca
pois eu vou gostar

mais um ano
mais um ano
mais o tempo
vai passar
mais a vida encurtar
tudo isto é desengano
:
mais um ano
mais dois dias
um inverno
noites frias
chega o verão
se não me engano
:
mais um ano
mais um ano
e assim passam os dias

Carlos Tronco

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Noites de inverno


Na minha rua, quando o vento é tão duro que torna o branco puro...

Quando a esperança é corroída pela espera
Que nada mais que desilusão colore o espaço
Que nem o perfume suave da primavera
Tempera a falta de carinho do teu braço

Passado a volta dos ombros meus
Como quem diz amigo, estou aqui
Apenas me resta e são teus
Alguns versos que distraído escrevi

Tu que em ternura transformaste
A ansiedade das noites de solidão
Tu que tantos fados acompanhaste

Soubeste despertar doce paixão
E depois se em silêncio te retiraste
Foi por teres escutado o coração

Carlos Tronco
Fui falar de ti às árvores
Mondeville
10/04/05

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Ardeu a esperança





Ardeu a esperança

A viola maltratada
Pelos dedos violada
Perdeu-se pela cidade
Tomou por amante o fado
Sem qualquer outro cuidado
Passou a chorar saudade

Não sei bem se recordava
A música ou a palavra
Se o seu amor, derradeiro
Acompanhou os fadistas
De alma e os bairristas
Em um fado sorrateiro

Nas vielas da Alfama
Com o tempo ganhou fama
Diziam já nas esquinas
Instrumento do demónio
Desvirtua o matrimónio
E dá asas as meninas

A viola de madeira
Fora sempre a mais solteira
Pregaram-lhe um dia fogo
E o negro da solidão
Invadiu a multidão
Perdeu-se a alma do povo.

CT
Mondeville
23/11/08

domingo, 28 de dezembro de 2008

Se algum dia for necessário

O pensamento sim, contêm a fé
do descrente, do perdido,
do vadio
corre pelo mundo fora, a maré
vai e vem
preso a esta vida
por um fio.
Um dia o fio rompe,
a liberdade
torna-se possível,
há que conquistar
pena é que, a mais simples verdade,
esse é o momento
desta pobre vida deixar;
Alguém pensou:
se um fio rompe, vamos conceber
em vez de um fio, uma corda, uma rede
mas,
em vão.
Um Deus lá em cima esta a ver
e o fio, a corda corta, sem dó da própria mão;
Fio cortado
só podemos cair.
As labaredas do inferno já esperam.
Haverá alguma fada
pronta a ir
queimar os braços para da morte nos salvar?
...é esse o sonho que nos mantém em vida
acreditar que alguém um dia nos há-de resgatar.
Condenados pela sina à partida
morrer beijando os seios da fada ao luar.

Carlos Tronco
Mondeville
28/06/06

sábado, 27 de dezembro de 2008

SEIVA



Os ramos estão feridos
São terríveis as dores de um vegetal
Terríveis porque não se exprimem
Nem em gritos
Nem em choros
Não há pior condenação do que a pena
De silêncio
Então
Que significado pode ter a liberdade?
Para uma árvore
Um tronco
Que só no momento do sacrifício final
Quando serrado
Transformado em pranchas
Só depois de morto
E de madeira seca
Feita barco, navio
É que
Já sem folhas
Sem flores
Deitado ao mar
Pode
E só quando Deus quer
Sonhar
Alcançar a liberdade
E procurar o caminho
Do alto

carlos Tronco
Vou falar de ti as árvores
Rieux Minervois
25/07/07

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

BEM AVENTURADOS OS POBRES DE ESPÍRITO



PARIS 1955
Werner Alfred Rosenberg dit Vero


Sim
Confesso, tenho medo
Medo, da estupidez humana
Confesso, e peço o perdão das minhas culpas
Perdão pela cobardia
Quando morre um inocente
Quando uma mulher é batida, violada
Quando uma criança sofre na sua carne e no seu Espírito
Quando
Eu
Ser inteligente, ou pretendido ser
Olho divertido
Um jogo de futebol
A invasão do Iraq
A construção do muro da vergonha
Perdão pelo silêncio
Quando devia gritar
Perdão pelo apoio
Quando devia calar
Como o ser humano é um ser minúsculo

feliz natal Santo Comércio

Carlos Tronco

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Quando nasce o sol, perde o branco a lua




A lua já sonha
o sol adormece
de face risonha
um sonho, uma prece

Talvez, na escuridão
perdida nas trevas
me concedas o perdão
o perdão que agora negas

Dorme um sono descansado
sol, tu o pão da nossa vida
pois amanhã acordado
nova luz esta garantida:

Quando nasce o sol
perde o branco a lua
de branco só tem
o que o sol lhe dá

Quando nasce o sol
seja minha ou tua
a lua também
anda ao Deus dará

Quando nasce o sol
o sol desgraçado
que contigo levas
o sonho sonhado

Quando nasce o dia
tu que até aqueces
madrugada fria
a noite esqueces

é de novo luz
é de novo luta
a ti me conduz
a sina bendita

Carlos Tronco "Carpinteiro"
Mondeville
29/03/06

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Quando sopram ventos brilham velas



E frente à tempestade
Frente ao crime
Imposto pelos céus
Sem caridade
Que o coração sente a verdade
Que leva peito nu até vencê-los
Claro,
Cabelo desguedelhado
Pelo vento
Um olhar azul de aço
Assassino
Espada em punho
Avança fende a noite
Guiado
No seu passo
No seu fado
Pela chamada
Do além
Por trás das velas
Vão sulcando o bravo mar as caravelas
O instinto do amor
Não se contém

Carlos Tronco
Mondeville
10/03/05

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A moedinha mulata



No silencio das palavras
busco almas, busco nadas
ternura e compaixão
encontro no meu caminho
loucura, sopro, carinho
calor, para meu coração.

Numa pedra da calçada
daquelas pedras, pisada
pelo tempo e a paixão
vi a minha própria lua
estrada minha e tão tua
brilhava no próprio chão

Pensei então, isto é fado
é um volver ao passado
é da vida a saudade
que nos ensina o caminho
para sair do sozinho
e descobrir a verdade

São palavras ternurentas
mesmo sopinha de letras
na boca da minha mão
que atiro ao vento vadio
ele compõe e com brio
a simples palavra "Tostão"

Não é moedinha de prata
é pequenina é "mulata"
por tanto ao sol andar
no meu bolso, anda um cobre
que a minha alma sobe
quando me ponho a sonhar

Carlos Tronco
Mondeville
22/03/05

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A vida



Simples decorrer dos dias
Noites longas
Manhãs frias
Pores de sol
Amores vadios

Ver água a correr nos rios
Nos rios até ao mar
Um passarinho a voar
É receber, saber dar
Um segredo que confio
Companhia animal
Um sorriso de criança
O tinto que faz tão mal

É viver sem ter juízo
A sonhar com paraíso
Morrer sem desesperar
A vida é como um guiso
Ao mexer
Põe-se a tocar

Carlos Tronco "Carpinteiro"
Mondeville
07/04/05

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Acreditai em impossíveis sonhos



A poesia serve para acreditar
Em impossíveis sonhos
Os sonhos servem, para diminuir as distâncias
As distâncias para acalmar as dores
As dores para apaziguar as almas
Mas as almas para o que servem?
Para aquecer os infernos?
Para sonhar nos invernos?
Ou apenas perdoar
Ao Criador omnipotente
De ter criado a gente
E não deixar abraçar
Abraçar sonhos sem medos
Encontrar mesmo em penedos
Formas de gente
Perdida
Entre as pedras desta vida
Entre as colunas do templo
Que ruiu sendo um exemplo
Para quem
Não acreditar

Carlos Tronco “Carpinteiro”
Mondeville
21/03/05

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Caminho do Norte

Procuro o caminho da luz e só tenho
por guia um sorriso, uma mão aberta
coração feliz, no peito desperta
é possível sim; ternura desenho

é projecto , é arte e no papel já ver
o futuro raiar, como sol tropical
esquecer inverno, triste e glacial
para amar sorrindo, é preciso crer

estende os teus braços
e os meus apertados
em longínquos laços

aceita ternura
feitiço e encanto
e também loucura

CT
Mondeville
08/03/05

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Presente



Era apenas uma flor de jardim
Daquelas matizadas que já viste
Que uma flor te magoe, fico triste
Terei de guardar o ramo para mim

Ficarei ali, assim de pé
Com o ramo de flores cortadas, na mão
Tal um espantalho já sem fé
A ver cair as pétalas, no chão

Pode chover e até nevar
Impávido, eu ali fico
Sobre o ramo já murcho, a chorar

Pode ser que amanhã quando voltar
Com um ramo novo na mão
Amanhã venhas a aceitar

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Areias vadias



Castelos de areia, são frágeis e belos
Obras de criança, da alma espelhos
Reflectem inocência, também credulidade
São feitos bonitos, com suavidade
Até acredito, que não vou perdê-los
Castelos dourados, vamos construi-los

Um balde, ao contrário, que serve de molde
Redondo é de certo, esguio só pode
Perfeita uma torre, moldar no seu meio
Uma torre alta, que a viver já sente
Castelo maciço, que protege a gente
E à janela uma fada, e o seu farto seio
Sonhos de criança, conquistar as torres
E do coração, abrandar as dores
Areia molhada, é de felicidade
Deixa-te amar, não tenhas vaidade
Cavaleiro andante; linda “Dulcineia”
Dá-me a tua mão, que bom é eu tê-la

Carlos Tronco “Carpinteiro”
Mondeville
17-03-2005

domingo, 7 de dezembro de 2008

O que pode a ternura




No silêncio dos teus braços
No macio dos teus passos
No calor da tu voz
Encontro carinho, ternura
Eu que ando a procura
De um laço liso e sem nós

Um laço verde de esperança
Um laço de confiança
Que funde em um só dois seres
De seda, de linho fino
Oh laço sê o caminho
Em que avanças sem perderes

Confiança em uma estrela
No negro céu a mais bela
Que faz esquecer o luar
Uma estrela de veludo
Que deixa o meu peito mudo
Quando a consegue apanhar

Toca os cabelos sedosos
De caracóis tão vaidosos
Toca a alma com os dedos
Ofereces-me o teu pescoço
Eu que era um destroço
Sou agora, Deus sem medos

CT
Mondeville
07/03/05

sábado, 6 de dezembro de 2008

O destino dos meus passos



As saudades são bonitas
São como rendas, são fitas
Que prendem o teu cabelo
São o fio que eu sigo
Os meus sonhos, nossas mágoas
As saudades são palavras
Que escreves meu abrigo

Quando em noites, noites frias
Vem bater, melancolia
A porta do meu casebre
Nos teus cabelos me escondo
Escudo que me protege
A tristeza, não consegue
Nem fazendo muito estrondo

Quebrar a minha esperança
De voltar o teu carinho
Teu sorriso, o teu ninho
Aviva apenas lembrança
Os teus passos, meu destino
Onde conduz o caminho
A vida é uma dança.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Não serei o teu sonho, talvez possa ser o teu amparo




A minha pele agora é de cabedal
Daquelas que se curam, de animal
Talvez para sapatos se aproveite

Outrora foi macia como leite
E agora já nem untada com azeite
É pele que alguém queira tocar

Deixa que os meus lábios
Provem os teus seios
Deixa vaguear

No teu corpo bela
Quero-me sentir
Como a navegar

Recebe o meu carinho
Que corre, que grita
Sobre o corpo teu

E a mão que sentes
Tocar os mamilos
Foi Deus que ma deu

Deixa-me sonhar
Deixa os lábios teus
Meu corpo beijar

A distância é muita
Essa foi a finta
Do Pai ao deixar

Música e palavras
Versos, foi assim
Não é bem perfeito

Sempre é um peito
Se gostas de mim
Onde te encostar

23/04/06
Carlos simplesmente

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O pomar dos meus sonhos





As macieiras florescem na primavera
E maduros estão os frutos no estio
Cores, do amarelo, ao vermelho cor da terra
Flores pequeninas, que fazem esquecer o frio

Serão, como dizem, o fruto do pecado?
Que um dia neste mundo tudo mudou
Quando Eva ofereceu ao namorado
O fruto íntimo que Adão, então provou

Talvez de "Branca de neve", maçã seja
Envenenada por ciumenta madrasta
Talvez nem maçã de contos, nem de igreja

Mas certamente, o fruto simples de um pomar
Cuja beleza eu comparo a ti oh fada
é nos teus braços que eu me deixo encantar

Carlos Tronco “Carpinteiro”
Mondeville
24/03/05

Contrato de primeiro emprego

Tenho filhos de que não sou pai
filhos que são espirituais
discípulos que seguem o pensar
são jovens, são catedrais
a quem ensinei nada mais
que o dia-a-dia é lutar
a vida são só dois dias
dois dias e muitos ais
não vale a pena chorar
punho erguido, “bora”, em frente
pois se quereis ser gente
têm que vos respeitar
CT
Mondeville
22/03/06

Querida verdade

Suavemente vou passando
os meus olhos
pela saudade que o tempo
vai criando.
De vez em quando
correm lágrimas de ansiedade:
é o nosso mar a brindar
que nos inunda,
é o salgado sabor da vida,
é o instante
que nos faz sentir
da distância
a verdade.