sábado, 28 de fevereiro de 2009

Espelho

Perdido em qualquer parte, entre um céu e terra
procurando sem saber, se a vida tem sentido
sentei-me e esperei, que aparecesse algum amigo
mas a espera foi vã, mesmo se longa e sincera


Não tendo com quem falar, confiei-me ao sol que via
perguntei-lhe porque ali estava, pedi-lhe a iluminação
que me dissesse enfim, que me pegasse na mão
e mostrasse depois da noite, porque volta cada dia


Surpreendeu-me o astro rei, teve que me confessar
não sabia porque vinha, mas achava natural
uma vez que luz ele tinha, que continuasse a brilhar


Concordei com o novo amigo, que procurei imitar
estendi os magros braços, como raios, para o céu
em vez de aquecer as almas, só me consegui queimar.


Carlos Tronco
Algures
04/08/05

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Voltas

Cada madrugada novo nascimento
Promessa da eterna natureza
Permite esquecer o sofrimento
E ao vento abandonar a certeza


O que vemos será o astro rei?
Ou pálida imitação de uma verdade
Dizer-vos ao certo eu não sei
Se quiser dizer com sinceridade


Tentai sentir nos elementos
Chuva, frio, raios, tempestade
Aos sinais do céu, sejai atentos


O homem na sua incrível pequenez
Pretende dominar o universo
Quando só exprime estupidez.

Carlos Tronco
Mondeville
20/07/05

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Cartas

Baralho
de cartas
jogo
onde apercebo
para além
do rei
espadas
e quatro damas
números
uns poucos
e alguma fama.

Para além de batotas
Suecas
e também
o as
a bisca que
por vezes
vem por
traz
é jogo
mesmo quando
se joga
a vida

Carlos Tronco
Mondeville
15/07/05

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Cá vamos

Quando ando
tropeço
por vezes caio

Quando caio
levanto-me
por vezes magoado

Quando magoado
sinto
por vezes canto

O fado
tal um rouxinol
desesperado

Carlos Tronco
Mondeville
15/07/05

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Quando tocar a alvorada...

É tarde
e tenho sono
e tenho sede

De sonhos
de cachaça
quando penso

A vida
tapa os olhos
é um lenço

Do condenado
alvo inocente
sonho com um poço

Fundo
e no fundo
umas moedas

Crenças
esperanças
desesperadas

Como pedras
e no fundo
alguma água

Não vejo
o Cavaleiro Andante
a triste figura

Nem de fidalga
Dulcineia
a alma pura

Basta!
para a sede, água fresca
sempre salva

Para os sonhos
vou tentar
adormecer

Eu sei
que uma fada
há-de fazer

Do meu
coração cansado
nobre tesouro

Carlos Tronco
Mondeville
12/07/05

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Espera; são peras

E as peras já crescem
Lentamente em galho enxertado
São o fruto do labor; e merecem
De mim poeta louco, todo o cuidado

Louco, porque falo de ti as árvores
Estas longe e todo o carinho
É para aqueles ramos, como mármores
Templo, refugio, quando sozinho

Falo mas de quê, sois curiosos
Sei que escutam e estremecem
Os ramos são um pouco maliciosos

Peras fruto dos amores vegetais
Fertilizo aquelas flores com os meus sonhos
Estas longe e os meus amores são virtuais

Carlos Tronco
Mondeville
08/07/05

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Caroço tambem é cereja




As cerejas estão maduras
Vermelhas, redondas, puras
Suaves como o teu seio
Fruta dôce levo a boca
E o sumo até sufoca
Quando o dente; racha ao meio

Por vezes até me distraio
A sorrir como um catraio
Então o caroço engulo
Sinto um nó na garganta
Eis senão quando ela canta
O caroço deu um pulo

Estranho direis senhoras
Cantar fado a estas horas
Por causa de um carocinho
Deles nascem as “cerdeiras”
Que florescem as primeiras
Cuja sombra dá jeitinho

Vinde pois oh meus amores
Ver das “cerdeiras” as flores
Vinde enfeitar as orelhas
Redondinhas , de mãos dadas
Duas cerejas pelas caudas
Namoram como parelhas

Carlos Tronco
Mondeville
07/07/05

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Uma pétala adormece nos braços do vento

Primavera
De sonhos
Mas as flores, então?
Que abelhas beijam
Ou será em vão?
Primavera doce
Meu doce pecado
Vai passando o tempo
Vai vivendo o fado
Primavera é
O calor vadio
Dos beijos roubados
Sentir arrepio
Na pele tão macia
Os beijos depostos
Cor de primavera
Que afasta o frio

Carlos Tronco
Mondeville
17/03/05

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

As meninas dos meus olhos



Os meus olhos
cegos por lágrimas de desespero
já nenhuma lente lhes vale


Por mais que deformem
a realidade do mundo
nada mais enxergo que as lágrimas
que cobrem de líquido salgado
as minhas pupilas


A menina dos meus olhos
aprendeu assim a nadar
no lago salgado do meu pranto
e quando a tradição invoca
o milagre das rosas
eu apenas me lembro
da maldição das lágrimas


Caio a joelhos
sem força para erguer
os braços aos céus
sabendo que será inútil
pedir a "Tua" compaixão
pois já me condenaste


Os meus olhos
cegos por lágrimas de desespero
já nenhuma lente lhes vale
por mais que deforme a realidade
do mundo, nada mais enxergo que as lágrimas
que cobrem de liquido salgado
as minhas pupilas

Carlos Tronco
Mondeville
07/07/05

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Quando caiem folhas

São folhas que voam
Por vento sopradas
Que sopram os fados
Das folhas dizia
Madrugada fria
O sol a espreitar
As folhas voar
Mal amanhecia
Um voo engraçado
Há que ter cuidado
Ao rodopiar
E em cada folha
Um triste lamento
De um ramo sedento
Perdendo a folhagem
Ao longo do tempo
Da vida a imagem
Em dia cinzento
Indo com a aragem

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

As asas que me faltam

é pena
são penas
de ave ferida

de asa partida
são penas da vida
há que procurar

de um bater de asas
deixar as palavras
a ti me levar

das asas as penas
palavras serenas
beijos de encantar

eu deixo o meu ombro
abro o coração
para te escutar

não é poesia
apenas mania
de querer dizer

com poucas palavras
o que em ti me agrada
é seres natural

Carlos Tronco
Mondeville
29/06/05

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Segredo de búzio

Morena singela, quando vais à praia
Ajustas à anca, o vinco da saia
A saia travada, que te fica bem
Oh linda morena, quando a onda vem

A onda que vem e molha o joelho
Na espuma branca, sentes calafrio
Quando se levanta, tu segues o fio
Voltas para casa, mirar o espelho

O cabelo solto, de livre mulher
O peito ofegante, vago respirar
Pescoço oferecido, aos beijos, que quer

Quando, penumbra e o macio ar
Envolve a tua alma, reconforta o teu ser
Ao sonho da vida, te vais entregar

Carlos Tronco
Mondeville
26/06/05

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Plutão

O meu caminho conduziu-me ao longe

até ao mais longínquo dos planetas

não sei se foi por medo ou foi metas

impostas pelo destino e não fui monge


Nunca o hábito me conseguiram vestir

usava apenas por tradição

como Eva antes de conhecer Adão

corpo nu juro, sem mentir


Diziam, esconde, olha, faz cobiça

e a guarda iam chamar com prontidão

não fosse eu, algum ladrão de linguiça


Era apenas o mais simples aparato

o dos amantes no momento encantado

e o que não escondia era para ser provado


Carlos Tronco
25/06/05
Procuras

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Sonhos e quimeras

Sinto o desejo do teu corpo no calor que transmite
Quando alongado sobre o corpo meu
E do coração eterno palpite
Amor transparente, como branco véu

Tecido frágil pronto a levantar
Ao mínimo sopro de suave vento
Basta cultivar, basta estar atento
Ao sopro do vento e ternamente beijar

O pescoço, a orelha e depois o peito
O dorso tremendo, também acariciar
E sentir na pele o carinho feito

Deixei-me adormecer; encontrei-me a sonhar
Senti-me feliz; e nos braços penas
Momentos tão ternos, que pude voar

Carlos Tronco
Caen
21/06/05

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Abraça-me

Abraça-me

como se o meu peito fosse o mundo

como se a minha alma estivesse pura

como se o meu coração fosse louco

e capaz de bater só com brandura

abraça-me

sem pensares : é só um sonho...!

segura-me junto a ti sem me agarrar

beija-me, da-me tudo, sem pensar

eu apenas , dou palavras por tesouro

abraça-me

ando assim, sempre a pedir

peço até as estrelas a verdade

já não sei se é possível medir

deixai-me astros admirar a felicidade

abraça-me

levai com vos pelo universo os sonhos meus

e com vos irão também os meus pensares

oh estrelas apagai os meus penares

levai com vos as minhas preces até Deus

abraça-me

será que existe esse tal gigante ?

será verdade ou apenas superstição

e se existe algures na escuridão

pedi por mim estrelas lindas, pedi perdão

abraça-me

e por fim se tudo isto é verdade

se deus existe seja de que forma for

que tenha dos pobres filhos piedade

e me deixe abraçar, o meu amor

Carlos Tronco
15/06/05
Mondeville

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Divagações

Nada mais tenho para te oferecer
Que a magia das minhas mãos
O calor de um peito esbranquiçado

Deixa a tua face adormecer
Poisada em coração, pedra a tremer
Saboreia o suporte, esquece o jeito

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Não sei que dizer...

Não sei dizer
se é chuva
se é água, talvez seja mágoa
que sentes escorrer

é triste,
ver correr assim
um rio sem fim
e se ele existe,

nem sei se desagua
são lágrimas, gritos
que molham os olhos

mas depois a alma
como evaporada
dorme descansada

Carlos Tronco
Mondeville
13/06/05

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Eu chamo

Eu chamo
"Demónio de Sócrates" à consciência
Ser consciente,
Estar consciente
Perder consciência
Tomar consciência.
Mas
Com o tempo
Talvez comece a misturar
Trata-se da minha verdade
Sem dúvida diferente da tua
Certamente diferente da verdade
Pois a verdade dói
Dói a dor da alma
Dói o não amor
E o escuro
Quando se faz silencioso o sentimento
Dói caminhar
Doem as pernas
Que não arrastaram pés
Sempre no mesmo lugar
Será que os sapatos têm pátria
E não a querem deixar?
Dói
Mas acaba por encantar.
A dor.

Carlos Tronco

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Riscos

Riscos
riscos negros
em folhas de papel

Branco
Como a neve branca
antes de fundir

Calor
com o calor
das almas perdidas

Arabescos
riscados em margens de folhas
como uma seguida de traços

Esotéricos
como indicando
caminhos

Impossíveis
em invisíveis mapas
de tesouros

Traços
como passos alinhavados
em caminhos incertos

Cumes
dorsos de dunas
sobe céus encobertos

Canto
lamento, perdido
em infinitos horizontes

Negros
tão tristes, medonhos
que transformam sonhos

Pesadelos
em doces lamentos
de peito rasgar

Preces
sem acreditar
que basta chorar

Pouco
e aos poucos esqueces
somos filhos teus

Oh deus!
Tu ser sem piedade
criaste a saudade

Fado
afastas-te os meus
criaste a distância

Amores
criou o deus pai
frágeis como flores

Carlos Tronco
Mondeville
08/06/05

domingo, 8 de fevereiro de 2009

O pastor

A menina de quem a cabeça se enche de estrelas
Adora, pés em terra, ver passar
Cometas, luas, constelações; são velas
Que à noite iluminam o seu olhar

O seu destino é apenas o infinito
A sua esperança, nada menos que, muitos anos luz
É tempo, muito tempo, mas conduz
Almas, talvez perdidas e é bonito

Ver a menina, de brilhantes olhos, como astros
Procurar, no vazio, na imensidão
Para alimentar seus sonhos, verdes pastos

Talvez lá, no etéreo, longínquo prado
Vida; o tal pastor que dá a mão
A todos, pobres humanos e ao seu fardo.

Carlos Tronco
Mondeville
24/05/05

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Sonhos meus

O tempo, vai passando, sem dizer
Que é tempo, mais que tempo, de gritar
Basta!
É tempo de construir
Talvez, até, tempo de amar
Uma vida, não é vida, feita vento
Construir
Mas o quê, podeis dizer?
-Castelos.
...era moda em outro tempo
E porque não
Moinhos?
Sim
Simples moinhos
A vento
Para quê?
Haveis de perguntar...
Farinha

E boa
No mercado
Para que içar as velas?
Porque as velas
São tão belas
Ao girar.
Às voltinhas
Sempre à volta
Digo eu
Enquanto uma vela
De moinho
Encantar
Alguém sonha
Ser; saudade...
Dar a volta
à terra de verdade
E se por acaso acontecer
Encontrar, o paraíso
Em algum ponto...

Acordo!
Largo a âncora
Depois conto...

Carlos Tronco
Mondeville
27/05/05

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Virtual

Perguntei ao silêncio da noite
O que procuravas aqui, nesta teia
Que temias tu sereia?
Um beijo? Ou então açoite?
Para no longínquo anonimato deste meio
Virtual de se amar a si mesmo
Sem prazer
Olhemos a tela
E vemos feio
Nossa cara, nossas crenças, nosso ser
Que procuramos então juntos aqui
Vida, vidas, teatro ou real sentir?
A distância como mascara do tempo?
Muralha de defesa do sentimento
Qual fracasso esconde-mos ao ouvir
Letras, letras, letras,
Sinceras
Ou tretas?
Confissões ousadas
Palavras pesadas
Sentimentos censurados
Namoros
Sentir mas não tocar
Não ver sequer
Lágrimas
Lamentos
Amor virtual
Sem pecado capital
O essencial está salvoA alma, a alma, alma
O que não impede de arder
A chama, a chama, a chama
E virtualmente sofrer.

Carlos Tronco

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Homem

Amarrado ao mastro de um navio
Olhos cegos para o canto não ouvir
Nos braços de uma sereia não perder
Nem fé, nem tempo e ainda menos brio
Amarrado ao mastro de um navio
Tal o grego da grega mitologia
O navio da vida, esquecia
Sem amor até o verão é frio
Amarrado ao mastro de um navio
Tímpanos furados por doce melodia
Cegando cegos olhos, segando verdes trigos
Sugando até sangue, ouvindo só gemidos
Cegando esperanças, dos cegos dia a dia
Abrindo os abrigos
Ao vento, à tempestade
E ao futuro incerto
Pregar não sendo padre
Quando já usado
Exausto, velho, inerte
Ao céu pede clemência
Ao pai, o seu perdão
Só já encontra o diabo
Para lhe estender a mão

Carlos Tronco
Mondeville
24/05/05

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Quando desce o sol, sobe alto a lua

Quero encontrar no teu carinho
Elixir de eterna juventude
Como esse outrora, em que pude
Ser rumo no teu caminho

Afastar as turbulentas
Águas de um mar salgado
Atravessar com agrado
Estreitos, lagos e lendas

E quando o sol já cansado
Deixar o lugar á lua
e a saudade for um fado

A vida sera uma senda
Canto, prece, minha e tua
Os frutos a tua prenda

Carlos Tronco
Mondeville
24/05/05

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Inverno austral

É quando o inverno chega
com só seus cabelos
cor de neve
que o aconchego
da colcha de retalhos
se faz sentir
com mais
insistência
vamos aprendendo
juntos
a desvendar
os mistérios
dos gansos
lagartos
colibris
crocodilos
e outros animais humanos

Será a magia da vida?


Carlos Tronco
Mondevile
24-05-2005

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Perdição-Fado

A distância por castigo
Não quero discutir contigo
Do sentido da paixão
Basta-me sentir nas folhas
O vento onde recolhas
O bater do coração

Corre o tempo , foge a vida
Vais tu, vou eu; despedida
Está certo; dá para pensar
São muitos os meus desejos
Meus sonhos, falta de beijos
Mas um dia hei-de cantar

Fechar olhos como o galo
Para não ver do que falo
Escutar a emoção
Há muito ando perdido
Neste mundo sem sentido
Procurando a tua mão

Outrora ensinei a andar
A uma amiga sem par
Pelo caminho do meio
Seguindo o exemplo das velas
Quanto mais vento mais belas
Tudo o contrário do feio

Ensinando e aprendendo
Subindo mais que descendo
Por vezes a procurar
Onde anda o meu amor
Tal o perfume da flor
É charme de encantar

Meus amores, fosse eu fadista
Dava o peito e até a vista
A quem me quisesse por par
Sou apenas marinheiro
Por destino sou solteiro
E a lua é o meu altar.

Carlos Tronco

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Até ser dia

Noite e dia perguntei
O que será o amor
Da vida interroguei
O tom cor e sabor
Pedi ao vento vadio
Às flores e mulheres em cio
Procurei brando calor

Cada um o seu sentir
Respondeu sem hesitar
É loucura perguntar
A vida passa a fugir
Entre o parto e a morte
É vida e quando há sorte
Fadas ajudam o parir

Perplexo, duvidei
Sendo tão fácil a resposta
Porque a vida é tão torta
O divino é complexo
Obra de "Deus" o destino
Pode o humano ser "Lei"?

Deixo a pergunta aos astutos
Algozes, parvos e brutos
Não me vão contaminar
Procuro a resposta nas estrelas
Nos mares, nas ondas mais belas
O meu fado sempre amar

sábado, 31 de janeiro de 2009

Horizontal

Não estou fisicamente presente
Nada mais sou que, janela aberta
Sou música, palavras, mas não sou gente
Distância, a verdade descoberta

Sou presença, sou lembrança e até fado
Sou saudade, com voz rouca, sou carinho
Queria ser, algo mais, o ser amado
E saber, dos teus passos, o caminho

Que o meu caminho encontre, a tua estrada
Como o fio-de-prumo, a vertical
Queria ser, o teu destino ou tudo ou nada

Que os meus olhos cruzassem, os olhos teus
Que o meu olhar, branco puro como a cal
Guiasse os teus sonhos, até aos meus.

Carlos Tronco
Mondeville
12/05/05

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Sem regresso

Vês a areia, cor de areia, na ampulheta?
Que vai correndo, correndo devagar
Essa areia tempo corrido, cai direita
E para voltar a correr basta virar

Assim, em tempos antigos, se media o tempo
Mas na vida, meu amor, não há voltar
Cada segundo do tempo que se for
É tempo que já não se deve chorar

Cada instante saboreado, sofregamente
Amanhã não sabemos a cor do sol
Uma nuvem, pode esconder e de repente...

Deixa os meus lábios provar os lábios teus
As minhas mãos apagar os pesadelos
São instantes de felicidade, dádiva de um Deus.

Carlos Tronco
Mondeville
10/05/05

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Coroas

Coroas
Adornadas
De prata
Catitas
Sem preconceitos
Promessas de doces leitos
Sorrisos ao constatar
Dos seus homens o defeito
Sempre virados p'ro mar
Sentidos encantos
E com sereias perdidos
Os seus prantos divertidos
São cantos quase sem jeito

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

DIZER

Porquê
tentar dizer o indizível
porquê sondar a alma
sabendo vão
que por mais que pareça, tão, risível
a alma não se come
como pão
tentar saber em um instante
o porquê da vida
a felicidade
dizer e claramente sentida
palavras misturadas de verdade
perguntar também
o que verdade é
pois
o que para mim tem um sentido
se alguém o ouve
tende o ouvido
talvez entenda que foi dito sem ter fé
partilhar da minha alma com a tua
dizer, alinhavar, tomar partido
alguém encontrara, eu não duvido
palavras para dizer a alma sua.

Carlos Tronco
Mondeville
03/05/05

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O QUE É A MORTE?

Quando o coração para de bater?
Não, aquele coração que puxa
A máquina que faz circular
O líquido vermelho
O sangue
Essa morte é clássica, é...
Talvez seja
Facilmente detectável
Estou a falar do outro
Do coração impalpável
Etéreo, desobediente
Aquele que comanda à loucura
Aquele que foge à razão
Aquele, insensível à consciência
Sim aquele que ama
Morrer é então já não amar
Que é a vida afinal?
A fase da existência durante a qual
O coração indomável
Bate por alguém


Carlos Tronco
CAEN
24-03-04

domingo, 25 de janeiro de 2009

Encontro

Se as minhas mãos soubessem falar
quando te afago o rosto
e apago as tuas lágrimas

se os meus dedos soubessem dizer
quando acaricio o teu peito
e escuto o teu coração

se o meu ser pudesse explicar
o que a minha alma sente
se os meus lábios soubessem cantar...

é um gesto imperfeito
palavra sem jeito
etéreo falar

são flores à enfeitar
são rendas do peito
são beijo por dar

e depois sem medo
sereno e feliz
de poder partilhar

eu deixo o meu dedo
vadio, é segredo...
deixo passear

por montes e vales
colinas ribeiros
e deixas tocar

nas cordas da vida
guitarra querida
a acompanhar

o fado, o destino
o nó da garganta
o sorriso enfim...

se a mágoa é tanta
hesitas perguntas
depois de mãos juntas

sorrindo, alegre
e quase com febre
pedes protecção

da cara ao joelho
da alma o espelho
...passeia uma mão.

Carlos Tronco
Mondeville
07/05/05

sábado, 24 de janeiro de 2009

Historias para dormir de pé...

Amiga dôce
tu que sabes escutar
palpitas
por vezes adivinhas
e ris

Amiga distraida
de dedo entalado
seria un namorado
aquele passarinho?

ou o seu vizinho
o famoso lagarto?

tu que não quizeste
deixar o jacaré
procuras ali
e pé ante pé

mulher
eu ja vi
eu sei como é

eu o teu amigo
que esta sempre aqui

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Astros

Sinto no calor do teu peito
No afago dos teus braços
A potência, o fogo, o jeito
A corda, o fio, também os laços

Sinto a ternura condensada
Do abraço forte e carinhoso
De uma procura desesperada
De um beijo que tem algo bondoso

Sinto alta noite em companhia
De um cometa fugitivo
De uma brilhante estrela, mas vadia
Sinto tocar no alvo que persigo

Sinto apenas, pois tocar não posso
Aqui, a razão do acreditar
Em céus, astros, tudo quanto é nosso
Conjugando simplesmente o verbo amar

Carlos Tronco
Mondeville
01/05/05

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Um instante

Um instante
Pode ser o princípio da eternidade
Como o ponto final
Da incerteza
No entanto
Instantes virtuais
Mesmo somados
Não fazem vidas
Quanto a mim
Começo a duvidar
Que existo

Carlos Tronco
Mondeville
31-03-2005

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Poente

Procuro a solidão
Doce pecado
Que me faça esquecer
A minha sina
Procuro a sua mão
Também o fado
Que me leve ao entardecer
Sobre a colina
De onde possa ver
Deitar no mar
Algum sol perdido
No tormento
Do frio celeste
E em um momento
No salgado leito
A ternura encontrar

Carlos Tronco
Mondeville
29/03/05

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Adorno mural



Disseram-me
que não eram muros
antes paredes nuas
tristes
sem vida
corpo inerte.

Eis o desafio
ressuscitar
e
com
pincel e tinta
tornar algo
inexpressivo
ao olhar
felicidade
de uma tarde
cinzenta.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Vento vadio

é algo difícil
falar com o vento
e deixar levar
como folhas fossem
o seu pensamento

não é que não gostem
as folhas portanto
de voar enquanto
o outono vem
e o vento vadio
aquele que é frio
que estraga a madeixa
pensamento leva
de aqui para além
o que vale também
quando vem de volta
esse vento à solta
traz e sabe bem
mil pensares

amém

CC
Mondeville
15/04/05

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Molhada como chuva

Continua a chover
Gotas de água
Traços de vida
Derramadas
Caiem do céu
E sujas
Em lama
Correm
Em chão alheio
Vidas que se vão esgotando
Caindo
Derramando
E quando o sol
De novo raiar
Talvez seja tarde demais
Talvez já não haja nuvens no céu
Talvez a vida tenha deixado de ser

Céu azul claro
De pura sede

Carlos Tronco
Mondeville
29-03-05

domingo, 11 de janeiro de 2009

O mistério da arte

Pretendeis conhecer-me pelo que escrevo,
As letras, não fui eu quem as inventou
E Deus apenas, a soletrar, me ensinou.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Silêncio

Nos teus olhos, nos teus lábios, nos teus braços
Procuro o meu caminho, segredo teu
Procuro a luz clara que a um ateu
Possa levar da baixa terra ao alto espaço

Procuro, por vales escondidos, suaves colinas
Onde a alma faz o leito para sonhar
Onde se desaltera em fontes, o mudo olhar
Fontes frescas e puras das meninas

Dos olhos; dizia há pouco, a esperança
De ver como em miragem, fundo ao mar
Tocar nos céus, como em sonhos de criança

Conhecer, o impossível, o destino
O rumo de uma vida a sonhar
Quando deixado, de mágoa desatino

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Uma pétala adormece nos braços do vento

Uma pétala adormece nos braços do vento
Que sem piedade, a leva rudemente
Ao leito, de ervas, do amor convento
Para a depor, como uma semente

Algo fabuloso, que só é ternura
No chão consagrado, e vai rebentar
Um quadro pintado, só de formosura
O frágil da pétala, fundo como o mar

Triste a menina, ali a encontro
Parecia perdida; quando a achei
Mas tão ternurenta, caramelo em ponto

Na palma da mão, então fiz saltar
A pétala de flor, quadro colorido
Coisa pequenina, grande pelo amar.

Carlos Tronco
Mondevile
17/03/05

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Searas vermelhas



Papoilas
Sabeis o que são?
São coisas floridas
Que puxam do chão
E todas garridas
De singelas cores
Serão mesmo flores?
Tão frágeis são elas
Vermelhas
São sangue
De feridos campos
Arados selvagens
Ferozes charruas
Flores encarnadas
Enfeitam os trigos
Searas, amigos,
Com flores engraçadas
Searas vermelhas
Dos campos antigos

Carlos Tronco
Mondeville
12/04/05

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Palavras

Uma palavra solta
Uma palavra apenas
Uma palavra dita
Grito de revolta
De mágoas e penas
Tu mulher catita
Uma palavra leve
Não há quem lhe pegue
É flor de jasmim
É perfume santo
Que tem o encanto
De um amor sem fim
Palavras perdidas
Frases esquecidas
Efeito atrasado
Depois são relidas
E são destas vidas
O sal e o agrado
Confessei e disse
Com poucas palavras
Como te amo amor
E tu respondeste
Tem juízo, engano,
Palavras sem cor
Fico aqui perdido
Ao canto esquecido
Como um velho santo
Das minhas palavras
Vão nascendo nadas
Mas ouve-se o pranto
Até há quem goste
Sente-se feliz
Talvez mais confiante
E com palavrinhas
Que já não são minhas
Torna-se amante

Já não sei, não juro, que é poesia
Mas tecer palavras
Mal alinhavadas
Traz-me alegria

Carlos Tronco
Mondeville
24/03/05

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Quem?

Nem cera, nem mármore, mas apenas carne
Humano calor, divino dizer
Barba por fazer e o resto charme

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Senti a macieira florescer




Fui ao jardim espreitar
Ver se a vida já brotava
Uma macieira estava
Pronta para despertar

Senti nas profundas entranhas
A seiva já a subir
E de desejo sorrir
Fêmea de cascas castanhas

Aqui está a primavera
Mas como pode escolher?
Árvore plantada na serra

Entre a terra onde a prendem as raízes
E o céu onde se libertam os perfumes
Podemos ser, testemunhas e juízes?

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

FOI ASSIM QUE O INCRÍVEL ACONTECEU

FOI ASSIM QUE O INCRÍVEL ACONTECEU

Mãos trémulas, erguendo-se, e ao céu implorando
O favor mais lindo, no vale da frescura
Com as mãos desenhando das colinas a verdura
O objecto do desejo implorava chorando

Sonhava com o vale, dormia nas colinas
E da verde erva fresca, dizia o sentir
Sozinho no deserto, então resolveu pedir
A erva que crescia da fera eram crinas

Pediu ao Deus senhor a criação de um ser
Coisa parecida e comparava aos sonhos
Fosse bonita ou feia, como Deus quiser

E foi assim pedindo, o nosso pobre Adão
A criação da mulher obteve, o pai de todos nós
Conheceu a felicidade, conhecida a solidão

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Verde é a distância

Verdes são os campos
de trigo ao nascer
verdes os teus olhos
estando a escrever
escrever de verde
da cor da esperança
enquanto amadurece
canto e tu dança

Verdes são os campos
verde o meu jardim
os suspiros tantos
tão verdes para mim
dá-me verdes beijos
com o teu olhar
no céu desta boca
pois eu vou gostar

mais um ano
mais um ano
mais o tempo
vai passar
mais a vida encurtar
tudo isto é desengano
:
mais um ano
mais dois dias
um inverno
noites frias
chega o verão
se não me engano
:
mais um ano
mais um ano
e assim passam os dias

Carlos Tronco