quinta-feira, 26 de novembro de 2009




Os meus passos são pequeninos quando a distância é grande
Se fossemos passarinhos, poderíamos aprender a voar
Não passamos de gente, apenas podemos esperar.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Terra




Terra,
Não Santa Terrinha
Na serra

Terra
Sim, chão para trigo
Pão e sepultura

Terra
Não lugar engraçado
Em mapa rosado

Oh terra impura...

Terra da amargura
Tu, que lavro com carinho
E fecundo..

Pão e vinho
O fruto
Da nossa guerra.

Quantas almas
Foi preciso
Sacrificar
Para o teu nome santificar?

Carlos Tronco
Mondeville
24/10/06

domingo, 22 de novembro de 2009

Pão com manteiga




Sabias que ser feliz, é muito simples
não há como sorrir, tu podes crer
eu sei quando sorris, por vezes mentes
mas sei adivinhar, mesmo sem ver

O dia esta lindo, mesmo se chove
o frio, também o vento, querem brincar
é pois o teu verbo quem comove
dizes, quero viver, não vou deitar

Apetece-me. Sim, a vontade, é quem dá força
sair, contar as gotas, dessa chuvinha
saltar nas poças de água e ser moça

Procurar pastelaria e que aproveite
pão quente com manteiga, torradinhas
e um copo de, café com leite.

Carlos Tronco
Mondeville
18/06/08

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Se tu me deres

Se tu me deres, um pouco do teu alento
Um pouco da tua graça
Dás-me pão, dás-me sustento,
E lá vou eu, pobre vento, a correr, até à praça

A dizer, com alegria
A quem passa, vai e vem
Que alguém me deu também
O que deu à Cruz Maria

Quero que saibam,
As barbas servem para isso
Os filhos que penduravam
São mais que fé, são feitiço

Vão crescendo e aprendendo
E quem tão pouco ensinou
Só a voar ajudou
Bater asas sozinho

Depois de árvore plantar
Dos meus filhos - mas não só - criar
Depois de algumas páginas escrever

Chega o momento fatal
Em que acorda o animal
Que nasceu para vencer

Se tu me deres
O sorriso dos teus lábios
Não preciso de mais fados
Nem do amor de outras mulheres.

sábado, 14 de novembro de 2009

A criação de um mundo

A!
Com a ponta do dedo
Tal uma varinha de condão
Desenhava
Ou melhor rabiscava
Nas tuas costas
Letras de um alfabeto
Imaginário
M!
Que tentavas adivinhar.
A tua pele
É sedosa
Macia
Cálida
Agradável ao tocar.
De quando em quando,
Um breve arrepio
O!
Acompanhava a peregrinação
Do meu dedo.
Ia escorregando
Ao longo da tua coluna vertebral.
Por vezes estremecias.
R!

Ainda não tinha terminado inteiramente
A letra G
E ja tu deixavas escapar um sussurro
AAAAAAAAAA
Depois outro mais intenso
Um quase gemido
Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!

Acordei
O meu peito abandonado
Ao teu dorso
Agora
A mais formosa e delicada
Pagina
Do nosso romance de amor

Começava a desvendar
A face escondida da lua.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Meio manto




Imagino que ainda dormes descansada
É verão e nua sonhas consolada
Pelo fresco do ribeiro e sua água
Sorris quando sentes o meu peito
Encostado às tuas costas com respeito
Tentando apaziguar a tua mágoa

Ontem não voltaste, talvez zangada
E o tempo demorou, só a alvorada
Me trouxe um pouco da esperança que perdi
Por isso nos teus sonhos vim tão junto
E sem nenhum pudor eu te pergunto
Que sentes ao deitar-me junto a ti

Onde vamos mulher, eis o caminho
Quero descobri-lo palmo a palmo com carinho
Percorrê-lo ao teu lado olhando em frente
Cairei, mais de uma vez estou seguro
Quero ver no teu olhar um azul puro
E que seja a tua mão que me levante

Carlos Tronco
Mondeville
28/01/08

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Um Sol




Uma estrela apenas
A luz
Um cheiro de lavanda
De sul
De vida
De areia, de mar

Um sol.
Um sol
Da primeira alvorada
Uma estrela da madrugada
Uma luz de candeia
De azeite
De terra quente
O sonho que solda
O rir
A felicidade
De um primeiro beijo
Dado sem saber
Naturalmente
Como o primeiro
Dado pelo sol
À lua
Uma espécie de estrela
Redonda
De tanto acariciada
De tanto desejada

Beijada pelo sol
Perfumada desde cedo
Tentando aprender a voar
Erguendo-se
Com dificuldade
Das manhãs de inverno
Quando o frio das geadas
Amarra a alma
À horizontal planície
Como prece longínqua

A estrela do pastor
Então Vénus
Braço após dedo
Vagarosamente
A coragem
Acaba por vencer
As trevas
Para que enfim
O milagre do dia
Aconteça
E que o azul seja a assinatura
Do amor celestial

domingo, 8 de novembro de 2009

Renasceu





Renasceu
Das cinzas
Do nada
Fora árvore
Dera sombra
Floresceu
E o fruto alimentou.
Confidente de namorados,
Casa de pássaros,
Ninho de ventos.
Sonhou ser navio,
Sustento de velas,
Mesa de manjar,
Armário de panelas,
De janela madeira,
Liberdade de olhar.
Ardeu.
Ficou em cinzas.
E eu ao olhar para elas,
Perguntei:
-Porque assim findas?
Tu Tronco
De árvores belas.

Carlos Tronco
Azé
22 - 12 - 07

sábado, 7 de novembro de 2009

SELVAGEM




porque espero eu senhora
como se a madona fora
porque espero a aparição?
os caminhos eles são tantos
e por eles ouvem-se os prantos
os prantos do coração

não te quero ajoelhada
tu ovelha tresmalhada
imagina-me pastor
daqueles que vão por caminhos
deixando-os sempre limpinhos
mudando a pedra em flor

sou louco não tenhas duvida
assim calhou nesta vida
a próxima será melhor
acredita nos meus sonhos
pesadelos são medonhos
não amar é bem pior

ouves o som das trompetas
dos tambores e clarinet”a”s
imagina o eu ter voz
dança comigo querida
este som é o da vida
e a vida somos nós

vira Maria bonita
eu gosto de ti catita
do sorriso do teu rosto
mesmo se a distancia é muita
com o amor e a fé junta
irei até ti e com gosto

Carlos Tronco
Mondeville
03/12/07

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Arca

Procuro no silêncio do teu ausente olhar
A esperança, o caminho, talvez a luz
Procuro, como esse alguém, subindo à Cruz.

Pensava que do alto pudesse compreender
Os homens e partilhando o seu sofrer
Pensava amolecer os corações mais duros.

A virgem ao pé da Cruz até chorou
Mas esse sonho nunca resultou
Os cravos já há muito enferrujaram.

Encontro no silêncio, creio, sim
Face ao espelho, à ruína, ao ruim
Vontade para nunca naufragar.

Tu és a sereia que me encanta
O sopro, o alento que levanta
A nau, que um dia há-de salvar.

Carlos Tronco
Caen
18/12/07

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Chamas que ardem de fogo




Entre duas quase paredes de pedra outrora imaculada
Um rectângulo, como boca aberta
Por cima, na parta mais elevada
A cabeça; é sempre cabeça mesmo sem ter o poder de esperta
Erguia-se como um chapéu
Nada mais que uma chaminé
Procurei no bolso uma caixa de fósforos
Depois de lidos, os velhos jornais
Serviriam uma vez mais de arma de fogo
Lenha não faltava
A chama pegou rapidamente
Naquele tempo a estupidez humana
Ainda não era cultivada pela televisão
O encanto, o feitiço vinha daquele rectângulo aceso
Daquelas chamas que
Entre o vermelho alaranjado
E o azul quase celeste
Tanto parecia um instante ameaça infernal como
Pouco depois
Promessa de paraíso
As chamas, alguém já reparou?
Sempre se elevam param o céu...
Passei a noite velando a agonia
Daquele espesso pedaço de ramo
Há muito sem folhas,
Filho sem dúvida de um tronco
Ele mesmo sacrificado naquele altar
Enquanto a noite progredia
E o infernal fogo consumia com as suas vorazes chamas tão inocente criatura
A questão mesmo do essencial tornava-se lancinante:
“O que é a vida afinal?”
Algures, alguém decidira que era noite de natal
No entanto, no aconchego de uma lareira acolhedora
A solidão continuava tão pesada quanto a morte
Quando a ultima brasa se extinguiu
Escrevi já quase sem fé:
Prospero ano novo 2008.

Carlos Tronco
Azé
Centro de França
24/12/2007

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Distancia, é só meio caminho




Sim
Concordo
Compreendo-te
E tu sabes
Sabes como te amo
Como sabes
Que o amor
Não perdoa
Compreendo-te e desejo a tua felicidade
Mas, nasci homem
E assim ficarei
Imperfeito
Até que a morte
Nos separe.

Carlos Tronco
Ustaritz
09/11/07

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Sina




São meus
Os teus ciúmes
Como são teus
Os meus sonhos
Os medos são nossos
Somos
Quando unidos
Quando pomos
A mão na nossa mão
Somos donos
Do destino
E assim nasce aquele mimo
Com que bate
O coração

Carlos Tronco
Mondeville
07/11/07

domingo, 1 de novembro de 2009

A minha praia




A minha praia, de tanto ser areia,

já nem o tempo sabe

e já nem conta,

nem as ondas do mar

e nem escuta,

os cânticos da saudade, nem sereia.


A minha praia de tanto ser o mar,

não sabe já se vai, se esta a vir,

não sabe se deitar na areia é amar,

se correr nas ondas é sorrir.


A minha praia que já foi espuma

hoje é tardinha, é entardecer,

é uma praia deserta e sozinha,

mas que será praia até morrer.


Carlos Tronco
Mondeville
4/11/07

sábado, 31 de outubro de 2009

Um tronco abraçado à vida




Se um dia a saudade for
Varrida pelo tempo como a flor
Aí será o fim da primavera
Hoje rego com carinho as trepadeiras
Que se enrolam com seus braços de solteiras
E têm violetas flores à minha espera.

Equilibrando-se como notas, de música, sobre linhas
De uma pauta antiga, vão sozinhas
Sobem aos céus, de um azul imaginário
A clave de sol ao entardecer
Da vida talvez possa dizer
Se o sonho foi paraíso ou calvário

Se a Cruz da agonia transportastes
Se a coroa de espinhos suportastes
Vós, como o filho de Deus, chamado Cristo
Lembrai-vos que a Cruz também viveu
E nos ramos que, a árvore, por vós deu
Também houve, o sacrifício, de um tronco.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Selinho nos lábios

Preferes que te dê a mão
Pretendo beijar-te os seios
Se aceitas os meus braços
Achas os meus lábios feios.

Preferes que seja um amigo
Amores, já tiveste muitos
Preferes ver-me sozinho
Que eu e as estrelas juntos.

Preferes ler o que escrevo
Para cantar não faltam galos
Do teu preferir sou escravo.

E se não queres os meus beijos
Aceita as minhas flores
Para ti, cultivos cravos.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Morra a sede!

Na cova, o silêncio enterrado
E no barro cozido de forma humana
Lembrei aquele outro barro, em narinas soprado
Por um Deus criador, em um findar de semana.

Dizem ter criado o mundo em sete dias
O último tendo sido para descansar
E eu procuro nesta terra as liturgias
Que para além da verdade, me permitam sonhar.

Como aqui nesta vala dos tempos antigos
Nem verdade nem sonhos tenho encontrado
Mas apenas guerreiros, morte, meus amigos.

E sonho em vez de armadas, construir um par
De barro ânforas para o vinho
Morra a sede, pois nada mais se deve matar.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O que importa é ser

Primeiro houve um Deus
Que de barro o fez
E logo foi pecado
De maçã trincada
Por ele houve também
Morte ; e de cruz pregada
Hoje quer ser humano
Pouco mais que nada.

O que pesa o bicho?
Arrobas ou quintais?
E o seu valor
Será só gordura?
Se agora assim for
Não passa de lixo
A obra de um Deus
Vale muito mais.

A alma é etérea.
Será que tem valor?
E qual a maneira
De a avaliar?
A alma ou matéria
Seja o que for
Duvido que alguém
A queira comprar.

Procurando saber
O que valho eu
E se consciência
Eu puder tomar
Não serei mais bicho
Tenham paciência
Mas um ser pensante
E capaz de amar.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Alla cappella!




É no silêncio que a saudade pesa
E o peso o que mais a alma lesa
A solidão a companheira desta vida
Um dia nascemos e depois
É tempo de viver a vida, a dois
E logo chega a hora da partida...

Viúvo, de negro luto, estou vestido
É grande para um só ser, o sobretudo
Ao avançar varro as lajes dos caminhos
Feitos pela mão de um Deus antigo
Quase humanos, frágeis, eis o perigo
Um dia termos de avançar sozinhos.

Pensei; estrelas há muitas nesse céu
Brilhantes ou cobertas por um véu
Mas esses astros intocáveis, são distantes
Em vez de cometa, estrela ou mesmo lua
Lembrança apenas quis, guardar a tua
Seguindo a minha sina como dantes.

Outrora até me chamaram vadio
Recordo mas sentindo um arrepio
A voz foi o melhor que o céu me deu
As cordas já não vibram; estou cansado
Assim cantava à toa o Senhor Fado
No dia em que a Guitarra faleceu.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Depois de sete dias no deserto

Depois de sete dias
No deserto
Sem água
Para refrescar o espírito
Nem sustento
Para a alma
Colocou de novo a questão
Ao criador:
-O que é a Vida afinal?
Este após alguma hesitação respondeu:
-A questão não é saber,
o que é a Vida,
para começar a viver.
Deixai a vida acontecer
E depois sábios de mil experiencias,
Podereis dar um sentido à Vida.

Puxei pelo violão...
Depois de sete dias no deserto
Sem pão, sem mel, tendo por perto
Apenas as asas a pesar
Sentimos e o pensamento voa
A razão perdida, a sede do momento
E a voz que diz; será a voz do vento?
Eu sete dias e o mundo de fome ecoa!

Não somente de um jejum voluntario
Como o Cristo quando aceitou o calvário
Mas fome imposta por quem manda
Uns gordos, fartos, cheios de toucinho
Outros miseráveis como o chamado Deus menino
Vão e vêm como do mar a branca onda.

domingo, 25 de outubro de 2009

Almas em ruína




Mil e muitos anos depois
Pedras. Já nem casas, nem tabernas
Cortiça. Cavalos. Talvez bois
Também, lajes largas para as pernas.

Imaginei da romana o cabelo
Junto à fonte, docemente, penteá-lo
Naquele quadro agreste mas singelo
Pudesse eu romano acaricia-lo...

Além corria água das nascentes
Fervia e subia aos céus; disso estou certo!
Nos banhos jorravam águas quentes.

Imaginei ser rei, imperador, ganhar a briga
Escravo da morena, da romana
À sombra dos sobreiros de Miróbriga.

Carlos Tronco
Santiago de Cacém
Julho 07

sábado, 24 de outubro de 2009

Crepúsculos




O vento vadio bulia com os espanta-espíritos
Produzindo um som leve e ligeiro; uma companhia
Seriam das almas do outro mundo os gritos,
Ou dos amores, o canto, a alegria?

Ao alto, o sol, dizendo vou deitar
A luz agora acariciando mil sonhares
Primeiro eram pinheiros, depois mar
Algures a sombra fresca dos pomares

Á tardinha sentava-me a escrever
A vida à roda encantava e surpreendia
Procurava a alma Lusa entender

Seguia com paixão as andorinhas
Rodopiando pelos ares ao fim do dia
Recordava as tuas mãos olhando as minhas

Carlos Tronco
Melides
27 de Julho 2007

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Sonhar




As minhas mãos, matéria, quando pensamentos
por mais que atentos, não são mais que etéreos ventos
as minhas mãos, elas, podem-se tocar
e sentir, como sentem vento as velas
das minhas mãos pequenas e singelas
como do vento ligeiro o acariciar
deita-te no meu corpo
como se o meu corpo fosse o mar dos teus suspiros
deita-te na imensidão do mar
para que a espuma nos una até sempre
mergulha no delírio das nossas vontades
sente-me crescer
como cresce a vegetação da floresta quando o sol acontece
deita-te em mim mar enfurecido
sente os meus braços de vento tempestade
sacudir a tua alma e destino
abandona-te à profundidade do crer
acredita enfim
que sonhar também é amar.

Carlos Tronco
Mondeville
18/07/07

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Alentejo




Áridas areias pouco mais acima que terra
Pouco mais adornadas que por vento
Pouco mais acariciadas que por pedras.
Aqui um pinheiro manso já com pinhas
Além um sobreiro sem cortiça
Uma gaivota que voa com preguiça
Descrevendo no azul, vaidosas linhas.
O tempo passava. Nas algibeiras,
Metia as suas mãos ao tempo dadas
Do mistério dos caminhos seguia as beiras.
Um dia, ao caminhar, deu com uma flor
Selvagem. Agreste. Flor de caminho
E o tempo, que corria tão sozinho
Encontrou naquela flor o seu amor.
O tempo sabia que passando
Condenava aquela planta a morrer.
Parou. Suicidou-se e chorando
Permitiu à sua amada de viver.

Carlos Tronco
Melides
Verão 2007

domingo, 18 de outubro de 2009

Carlos simplesmente...




As mãos eu darei à tua cruz
ressuscite quem quiser que eu fico morto
apaixonei-me por prego, ferrugento, torto
e assim pregado, sonho ser Jesus

Imagino agora, por aí, chorando
as mulheres, que me amaram e que amei
um golpe de lança, firme, de vez em quando
e a esponja amarga, de fel, que adorei

O Pai assim me quis e fez-me louco
desejou ver-me pregado, aqui me tem
aceitei ser eu o morto, mais ninguém

Disseram-me, deixa ir outro pobre, qualquer
é o que mais prospera, neste mundo
mas quis subir lá cima pr'a saber.

Carlos Tronco “Carpinteiro”

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Quando morre a noite cresce a alvorada

Uma noite que termina
já cantam os rouxinóis
e o sol já ilumina
a alma e caracóis

uma noite e os teus sonhos
é tempo de realizar
seca as lágrimas dos olhos
vem comigo, vem-me amar

desperta que o sol vai alto
o coração não espera
segue-o e dá um salto
sê a minha primavera

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Salomé quase sereia


Riscos a preto e branco



Porque me pedes sereia
Como a agulha pede a veia
A vida. Não posso dar!
Os passos possíveis são muitos
Podemos avançar juntos
O caminho analisar.

O amar não é ter sorte
Se não for até à morte
Mesmo assim foi partilhar
Um beijo e um momento
Deste meu lábio sedento
Dos teus olhos o olhar

Sereia, oiço o teu pranto
O teu cantar e encanto
Compreende, não vou deixar
A terra que me alimenta
Se por vezes foi cinzenta
É estrela ao brilhar.

Já nos tempos muito antigos
Os três magos e adidos
Deixaram a estrela guiar
O Deus que os esperava
Sobre feno a mãe deitava
O que era de espantar.

Ouro, incenso e também mirra
A oferta era gira
Não se deixou convencer
O menino ali deitado
Virou-se pró outro lado
Antes quis na cruz morrer

Sereia, eu assim faço
Não te vou dar o meu braço
E se assim não conhecer
Dos teus charmes a ternura
Há-de haver uma alma pura
Que me ajude a envelhecer

Velho já, de barbas brancas
Pode ser que as tuas ancas
Veja dançar para Herodes
Se a minha cabeça quiseres
Serás uma das mulheres
Que seduziu os algozes.

Não fui rei, nem sacerdote
E apenas deixei por dote
Umas letras e pensares
Não queiras a minha vida
Pesa antes minha querida
Dos amigos, os pesares.

Guarda bem essa bandeja
Que para mais já não seja
Que para brilhante, espelhar
Da tua alma os recantos
E que haja nos teus cantos
Uma forma de esperar.

Carlos Tronco
Mondeville
20/04/07

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Ter amor...

...ser amor.

Ser amor e não ser gente
Ser amor
E não tocar
Ser o fruto descontente
De uma vida a sonhar
Ser amor
Já é bastante
Para quem pode esperar
Mas um amor
Tão distante
Não é amor nem amar
Preciso crer
Que existes
Neste mundo, pois amor
Amar sem ver o fundo
Não é amor minha amante
Promessas
Fá-las o céu
Promete um sol radiante
Adeus, vamos em paz
Amor, amor, adiante...

Carlos Tronco
Mondeville
14/01/07

domingo, 11 de outubro de 2009

Porque não me entendes?




Porque as estrelas são leves
a ponto de pairar lá no céu?
Porque um Deus as fez livres
a ponto de a ligeireza as sustentar.
Por isso, o homem que sonha
acaba cego, de tanto olhar.
Agita os braços
tenta imitar os pássaros
assobia
tenta rodopiar.
O homem acaba cego
mas nunca aprende a voar.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Primeira água

Poesia de primeira água
É cristalina não lava
As mágoas do coração
Alguém diz e com palavras
Outras vezes diz com nadas
Tudo para a alma é vão

A água como a mulher
À primeira quando quer
Nem sempre acerta está claro
Corre livre como o vento
Procurando o seu alento
No amor: um metal raro

A água que já foi chuva
Quando enfurece derruba
Por vezes diz-se é da cheia
Talvez chegue o lindo dia
Que o sol seja poesia
Para o amor uma estreia

Nesse momento profundo
Da ressurreição deste mundo
Há-de um poeta acordar
Cada canhão transformado
Em um piano; o teclado
Transformado num altar

Poesia de primeira água
Apagará toda a mágoa
Com um ligeiro tocar
E a alma estremecendo
Serena, então vai ouvindo
Do outro lado do mar

Não o cântico da sereia
Que prende como uma teia
Mas o coro dos escravos
Partidas as suas correntes
Mostram agora os dentes
As flores que levam são cravos

Carlos Tronco
Mondeville
11/01/07

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O poeta bobo

Deixa-me aproximar
os meus dedos ao te tocarem,
apenas pretendem extrair a dor, a tristeza
de uma distância sempre presente
não tenhas medo dos meus beijos
deixa apenas que poisem os meus lábios
sobre a tua pele macia
deixa-te adormecer
dormindo, os sonhos tornam o prazer possível, real, palpável
deixa as tuas menstruas correr entre as tuas coxas
assim está escrita a tua sina de mulher
deixa o teu corpo dorido
receber as carícias de umas mãos sem jeito
os dedos entalados entre sortilégios e delírios
não tenhas medo de sentir o prazer invadir o teu ventre
deixa as minhas mãos trémulas
num gesto mágico ou talvez desesperado, extrair as
tuas angustias, as tuas incertezas
não me deixes falar como um bobo
deixa apenas que te ame em silêncio

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

É mar os meus sonhos

Em tempos jurei ir a Compostela
Adorar Santiago e bota fumo
Foi antes de ter chegado suave, dela
Convite para ir ao fim do mundo

Em Vigo deitei-me ao mar, deixei-me ir
Arrastado pelas ondas do oceano
Quando cheguei a miúda pôs-se a rir:
-Não sabias que havia barco oh cigano?

Estou aqui e com fome, vim depressa
Nenhum barco é tão rápido como os sonhos
Vim a nado para cumprir a promessa
De me perder no belo azul dos teus olhos...

Carlos Tronco
mondeville
04/01/07

domingo, 4 de outubro de 2009

Eis!




Boa tarde, desconhecida da outra margem
Mistério de uma alma que não deseja ser vista
Silêncio de quem não quer ser nem rei, nem pajem
Enquanto escondida, faz de mim fadista

E canto senhora, pois chorar não sei
Canto sonhando, ser um rouxinol
Dou-te a minha voz, o coração já dei
Que fizeste dele? Foi posto em formol?

Vós tendes razão, verdade é, sou louco
Louco pois cantar, não posso sem voz
Enquanto gaguejo, troçai, fazei pouco

Partis a couraça, fendeis esta noz
Vereis pois por dentro, a cor das entranhas
Que seja a vitória, dos contra e dos prós.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Sendas e atalhos

Caminharei ao longo da senda da fortuna,
interrogando cada olhar que cruzarei
em uns, apenas verei morte, desprezo
quando o teu olhar cruzar, eu saberei
se o profundo do mar já foi vencido
se o infinito do amor eu encontrei
eis o ser pelo qual ando perdido
eis o olhar a quem, para sempre, me prenderei.

Carlos Tronco
Mondeville
10/12/06

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Uma flor na areia




Imagina uma praia,
de areia muito branca,
de mar muito quente,
ao longe tu caminhas levemente,
quando do outro lado do longe,
docemente
caminho eu .

Será que me reconhecerias
assim distante
entre mar e dunas
entre sal e azul?

Será que correrias,
braços abertos ao vulto
que do outro lado da esperança
correria ao teu encontro?

E depois,
ali abraçados e felizes
apenas felizes de poder-mos saborear o instante
em que um grão de areia descobre
um amor-perfeito
perdido na imensa praia da vida.

Carlos Tronco
Mondeville
30/10/06

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Aceitação




Estendo os braços
Que já tantas esperanças
Traíram
E os dedos descarnados
Trémulos
Procuram
Na negra cegueira da noite
A tua imagem
A tua sede
As tuas vontades
As tuas incertezas
Procuro-te
Em um céu estrelado
De tanto sombrio
Procuro a luz
Que guie os meus hesitantes passos
Procuro o Olimpo
Deusa morena
Do sul
Procuro os teus seios
Procuro o alimento, a vida
Procuro o amor nesta noite interminável e glacial
Onde nem a música
Das trevas
Interrompe a solidão de um sonho
E tu mulher
Que miúda já não quer ser
Será que me aceitas com todos os meus defeitos
Os meus medos
As minhas hesitações
O meu feitio colérico?
Aceitas a minha ternura sem jeito de ser?

Carlos Tronco
Mondeville
25/10/06

sábado, 26 de setembro de 2009

Quando

Quando beijo o teu ombro procuro
O arrepio, de um coração ofegante
E sinto aquele poder do gigante
Cujo olhar derruba até um muro

A parede é quem separa os seres
E o meu beijo pretende dar alento
Continuo mais abaixo se quiseres
Beijos doces e leves como o vento

Quando chegar ao monte tão sagrado
Em que Vénus ganhou fama no amor
Quero que aceites o meu beijo com agrado

E que tal a loba que em Roma então deixou
Romus e Rómulos matar a sede
Compreendas que este homem te amou

Carlos Tronco
Mondeville
25/10/06

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Promessas




Dizia que apanhava os cabelos
porque a tua cabeleira
me dá vontade de acariciar,
sentir a textura, o perfume; compreendes?

Até esconder a minha face,
quando triste, quando dorido
para que não vejas a minha cara
para que não oiças as minhas lágrimas.

Para que possas continuar a amar-me,
que palavras poderia eu dizer?
Para que o milagre
da aceitação aconteça?

As minhas mãos tremem,
porque não conheço certezas
a minha voz treme,
porque apenas procuro.

O meu coração bate,
porque agora espero,
as minhas mãos pedem
porque o teu peito é doce

Para escrever, preciso de viver o momento
as letras vão caindo dos dedos
e as quedas vão formando palavras
e as palavras, vão gritando clamores.

Os clamores vão
chamando amores
e os amores vão
embalando as almas.

Carlos Tronco
Mondeville
25/10/06

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Êxtase solitário





Êxtase solitário

Se é possível no deserto, pensar haver encontrado
A sensação divina de partilhar com um Deus
Pedir que o pecado seja perdoado
Em um instante de êxtase contemplando os céus

O deserto por vezes, não é de areia feito
E a sede sentida, não se afoga em nascente
Por vezes apenas sede, de alma e de peito
A solidão maior deserto, que encontra a gente

A mão febril, passeia docemente
A sensação de até um miragem, poder tocar
Vagueia descansada, entre o seio e o o ventre

A sede do deserto água pode acalmar
A solidão consentida, se transforma em leite
Êxtase solitário, também é amar.

Carlos Tronco
Mondeville
24/10/06

sábado, 19 de setembro de 2009

Ergue-te




Não eram palavras
nem apenas letras
muito menos sonhos
nem brisa
nem vento
sequer juramento
ou soma de nadas

era como um punho
fechado
com vida
promessa
sagrada
um sopro
à partida

o tempo que passa
e tudo transforma
uma vez em nada
outra vez adorna
a ideia levava
mais longe, mais alto
tal o sol da aurora

fica a esperança
e a dor e a lágrima
que na face dança
há-de ser a água
para flor regar
em dia em que azul
possa eu beijar

Carlos Tronco
Mondeville
12/10/06

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Escuta




Escuta
Não os sinos da catedral
Que anunciam a morte
Nem aqueles da capela
Que prometem afugentar o trovão

Escuta
Escuta as badaladas
De um coração que é teu
E que só pode entender
Quem te ama

Escuta
Escuta os seus desejos
E segue o compasso
Dos teus ventrículos
Para realiza-los

No coração és tu quem mandas

Escuta o teu coração
E deixa-te enternecer
Pela beleza
Das cores
Pelo perfume da vontade
Pelo macio da saudade

Escuta simplesmente
E age tendo reflectido

Escuta o teu coração
E deixa livres os campanários
Para que as cegonhas
Possam construir os seus ninhos.

Carlos Tronco
Mondeville
05/09/08

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Vês?




Vês a tua mão
Que tão ternamente
Segura a minha?
O que vês são fios
E um deles uma linha
Um fio entre o parto e a morte
Uns chamam-lhe linha da sorte
Outros a linha da vida
Onde a passo perco o equilíbrio
E temo, também confesso
Perder o sentido e o resto
Não te rias linda magana
Eu sei, a minha mão
Há muito já a mediste
Com teu olhar de cigana

Carlos Tronco
Mondeville
14/03/07

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Eu não sabia




Eu não sabia

Eu não sabia escrever
Tu mostraste-me o papel
E a tinta tornou-se palavras

Eu não sabia escrever
Tu ensinaste-me que uma pena
Outrora fora asas

Eu não sabia escrever
Tu explicaste-me que como a pena
Deixa o traço da sua alma
No branco virginal do frágil papel,
Também as asas quando divinos lábios
Lhe haviam soprado a brisa do ser
Para que aprendessem a voar,
Haviam deixado no mais profundo
Azul dos céus, o traço das suas penas

Eu não sabia escrever
E tu ensinaste-me a escutar

Eu não sabia escrever
E tu pegaste na minha mão trémula
Para que juntos, descobrisse
Os arabescos subtis do teu corpo

Eu não sabia escrever
Mas contigo nasceu algo poético

Eu não sabia escrever
E contigo aprendi a soletrar
a palavra Mulher

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Penas e tinteiros de alguém



Viver de penas que escrevem
e não de setas
Penas e apenas
penas das suas próprias
mágoas
Ser barda, poeta
de primeiras águas
E não contentar-se
de tinta que não presta
Respeitar ainda
quem verdade clama
E não, tentar achincalhar
Uns cantam por versos ter
até na alma
Outros, por não terem, querem
apenas fama e
Os versos se contentam de copiar
Carlos Tronco

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O milagre dos lábios




Ontem
já tarde
perguntaram-me
o que era o amor
e eu que não conhecia
nem sequer soube dizer
se era perfume
ou flor.

Fechei os olhos
e disse
abraça-me eternamente
aquilo que a alma
sente
só pode ser a paixão
que sente um coração
quando bate ternamente

Carlos Tronco
Mondeville
29/09/06

domingo, 6 de setembro de 2009

Garrafa ao mar...



Quando emoção forte
profundamente toca
e como um terno olhar
acaricia o pensamento
então o meu olhar,
em estrelinhas foca
estrelas celestes
cortando o meu alento.

E não é que então,
quando menos espero
aparece um “fantasminha”
que me faz sorrir
recordo o terno tempo
era primavera...
pão não é só água,
mas também farinha.

Hoje és tu garrafa
que me fazes rir
dizes ser de além
mais longe que o mar
feita de maçãs,
e peras também!
A sede às almas
sabes tu tirar.

Carlos Tronco
Mondeville
13/09/06

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

IMAGINAI




Imaginai

Imaginai um ramo
Carregado
Carregado, mas não de flores
Essas já caíram
Imaginai
Um ramo vergado
Pelo peso dos frutos
Tal como
Uma vida repleta de experiências
Imaginai
Imaginai um velho
Olhar e tentar
Compreender
As crianças que brincam
A sombra da frondosa árvore
Para finalmente concluir
Valeu a pena

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Apenas para adornar o mundo





Era apenas um penedo
de formas arredondadas
pela chuva
pelo vento
pela sorte.

Por vezes metia medo,
mas atento
oferecia
nas suas rudes formas
que o tempo,
com pequenos toques,
muitas carícias,
e algumas tempestades
havia retratado,
tal a sua própria imagem,
a sua sorte.

Ali só
e face à morte
que a todos espera,
testemunhava:
rochedo não queria guerra
mas apenas que o tempo,
lhe concedesse
na sua espera
que se transformasse,
um dia,
talvez o da ressurreição,
em uma flor,
desabrochando
da mão da mãe terra,
para adornar o mundo.

Carlos Tronco
Mondeville
27/08/06

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Ceras também são vela



Sinto no oco das mãos
o vazio do mundo
em que respiro.
Nadas
e ainda menos
linhas
de vida,
sonhadas,
mais que verdadeiros amores.
Imagino sim,
que no vazio tudo cabe,
mesmo Vénus,
a estranha companheira
das frias
madrugadas.
A estrela do Pastor.
Doces pensares.
Será caso para abraçar,
as palmas das minhas mãos,
e depois erguê-las ao céu,
para que o milagre se concretize?

Acendo uma vela
e no vazio,
deixo que a vela arda.
Quem sabe!
Tudo pode acontecer...
A cera corre
e no queimar da pele,
das mãos que a recebem com carinho
lembra,
que o vazio também dói.

Carlos Tronco
Mondeville
25/05/06

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Trasmontana




Saia comprida mas negra
debaixo do avental
Blusa de cores, garrida
manta cinzenta, mortal.

Nos cabelos carrapito
nos olhos, o infinito
nos lábios, o sabor do mal.

O rosto fora bonito
cobre-a um lenço esquisito
Quem é? Que faz afinal?

É norte, são Trás-os-Montes
por vezes perto das fontes
pode-se ver, a fiar...

Leva na mão uma roca
com a outra gira um fuso
a lã é de cordeiro luso;
Em cada pé uma soca

Não tece esperança, mas medos
e a lã que ela fia
é a única alegria
que lhe passa pelos dedos.

À Mãe Lurdes
Às mulheres de Tinhela, concelho de Valpaços

Carlos Tronco
Mondeville
24/08/06