terça-feira, 27 de outubro de 2009

Alla cappella!




É no silêncio que a saudade pesa
E o peso o que mais a alma lesa
A solidão a companheira desta vida
Um dia nascemos e depois
É tempo de viver a vida, a dois
E logo chega a hora da partida...

Viúvo, de negro luto, estou vestido
É grande para um só ser, o sobretudo
Ao avançar varro as lajes dos caminhos
Feitos pela mão de um Deus antigo
Quase humanos, frágeis, eis o perigo
Um dia termos de avançar sozinhos.

Pensei; estrelas há muitas nesse céu
Brilhantes ou cobertas por um véu
Mas esses astros intocáveis, são distantes
Em vez de cometa, estrela ou mesmo lua
Lembrança apenas quis, guardar a tua
Seguindo a minha sina como dantes.

Outrora até me chamaram vadio
Recordo mas sentindo um arrepio
A voz foi o melhor que o céu me deu
As cordas já não vibram; estou cansado
Assim cantava à toa o Senhor Fado
No dia em que a Guitarra faleceu.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Depois de sete dias no deserto

Depois de sete dias
No deserto
Sem água
Para refrescar o espírito
Nem sustento
Para a alma
Colocou de novo a questão
Ao criador:
-O que é a Vida afinal?
Este após alguma hesitação respondeu:
-A questão não é saber,
o que é a Vida,
para começar a viver.
Deixai a vida acontecer
E depois sábios de mil experiencias,
Podereis dar um sentido à Vida.

Puxei pelo violão...
Depois de sete dias no deserto
Sem pão, sem mel, tendo por perto
Apenas as asas a pesar
Sentimos e o pensamento voa
A razão perdida, a sede do momento
E a voz que diz; será a voz do vento?
Eu sete dias e o mundo de fome ecoa!

Não somente de um jejum voluntario
Como o Cristo quando aceitou o calvário
Mas fome imposta por quem manda
Uns gordos, fartos, cheios de toucinho
Outros miseráveis como o chamado Deus menino
Vão e vêm como do mar a branca onda.

domingo, 25 de outubro de 2009

Almas em ruína




Mil e muitos anos depois
Pedras. Já nem casas, nem tabernas
Cortiça. Cavalos. Talvez bois
Também, lajes largas para as pernas.

Imaginei da romana o cabelo
Junto à fonte, docemente, penteá-lo
Naquele quadro agreste mas singelo
Pudesse eu romano acaricia-lo...

Além corria água das nascentes
Fervia e subia aos céus; disso estou certo!
Nos banhos jorravam águas quentes.

Imaginei ser rei, imperador, ganhar a briga
Escravo da morena, da romana
À sombra dos sobreiros de Miróbriga.

Carlos Tronco
Santiago de Cacém
Julho 07

sábado, 24 de outubro de 2009

Crepúsculos




O vento vadio bulia com os espanta-espíritos
Produzindo um som leve e ligeiro; uma companhia
Seriam das almas do outro mundo os gritos,
Ou dos amores, o canto, a alegria?

Ao alto, o sol, dizendo vou deitar
A luz agora acariciando mil sonhares
Primeiro eram pinheiros, depois mar
Algures a sombra fresca dos pomares

Á tardinha sentava-me a escrever
A vida à roda encantava e surpreendia
Procurava a alma Lusa entender

Seguia com paixão as andorinhas
Rodopiando pelos ares ao fim do dia
Recordava as tuas mãos olhando as minhas

Carlos Tronco
Melides
27 de Julho 2007

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Sonhar




As minhas mãos, matéria, quando pensamentos
por mais que atentos, não são mais que etéreos ventos
as minhas mãos, elas, podem-se tocar
e sentir, como sentem vento as velas
das minhas mãos pequenas e singelas
como do vento ligeiro o acariciar
deita-te no meu corpo
como se o meu corpo fosse o mar dos teus suspiros
deita-te na imensidão do mar
para que a espuma nos una até sempre
mergulha no delírio das nossas vontades
sente-me crescer
como cresce a vegetação da floresta quando o sol acontece
deita-te em mim mar enfurecido
sente os meus braços de vento tempestade
sacudir a tua alma e destino
abandona-te à profundidade do crer
acredita enfim
que sonhar também é amar.

Carlos Tronco
Mondeville
18/07/07

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Alentejo




Áridas areias pouco mais acima que terra
Pouco mais adornadas que por vento
Pouco mais acariciadas que por pedras.
Aqui um pinheiro manso já com pinhas
Além um sobreiro sem cortiça
Uma gaivota que voa com preguiça
Descrevendo no azul, vaidosas linhas.
O tempo passava. Nas algibeiras,
Metia as suas mãos ao tempo dadas
Do mistério dos caminhos seguia as beiras.
Um dia, ao caminhar, deu com uma flor
Selvagem. Agreste. Flor de caminho
E o tempo, que corria tão sozinho
Encontrou naquela flor o seu amor.
O tempo sabia que passando
Condenava aquela planta a morrer.
Parou. Suicidou-se e chorando
Permitiu à sua amada de viver.

Carlos Tronco
Melides
Verão 2007

domingo, 18 de outubro de 2009

Carlos simplesmente...




As mãos eu darei à tua cruz
ressuscite quem quiser que eu fico morto
apaixonei-me por prego, ferrugento, torto
e assim pregado, sonho ser Jesus

Imagino agora, por aí, chorando
as mulheres, que me amaram e que amei
um golpe de lança, firme, de vez em quando
e a esponja amarga, de fel, que adorei

O Pai assim me quis e fez-me louco
desejou ver-me pregado, aqui me tem
aceitei ser eu o morto, mais ninguém

Disseram-me, deixa ir outro pobre, qualquer
é o que mais prospera, neste mundo
mas quis subir lá cima pr'a saber.

Carlos Tronco “Carpinteiro”

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Quando morre a noite cresce a alvorada

Uma noite que termina
já cantam os rouxinóis
e o sol já ilumina
a alma e caracóis

uma noite e os teus sonhos
é tempo de realizar
seca as lágrimas dos olhos
vem comigo, vem-me amar

desperta que o sol vai alto
o coração não espera
segue-o e dá um salto
sê a minha primavera

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Salomé quase sereia


Riscos a preto e branco



Porque me pedes sereia
Como a agulha pede a veia
A vida. Não posso dar!
Os passos possíveis são muitos
Podemos avançar juntos
O caminho analisar.

O amar não é ter sorte
Se não for até à morte
Mesmo assim foi partilhar
Um beijo e um momento
Deste meu lábio sedento
Dos teus olhos o olhar

Sereia, oiço o teu pranto
O teu cantar e encanto
Compreende, não vou deixar
A terra que me alimenta
Se por vezes foi cinzenta
É estrela ao brilhar.

Já nos tempos muito antigos
Os três magos e adidos
Deixaram a estrela guiar
O Deus que os esperava
Sobre feno a mãe deitava
O que era de espantar.

Ouro, incenso e também mirra
A oferta era gira
Não se deixou convencer
O menino ali deitado
Virou-se pró outro lado
Antes quis na cruz morrer

Sereia, eu assim faço
Não te vou dar o meu braço
E se assim não conhecer
Dos teus charmes a ternura
Há-de haver uma alma pura
Que me ajude a envelhecer

Velho já, de barbas brancas
Pode ser que as tuas ancas
Veja dançar para Herodes
Se a minha cabeça quiseres
Serás uma das mulheres
Que seduziu os algozes.

Não fui rei, nem sacerdote
E apenas deixei por dote
Umas letras e pensares
Não queiras a minha vida
Pesa antes minha querida
Dos amigos, os pesares.

Guarda bem essa bandeja
Que para mais já não seja
Que para brilhante, espelhar
Da tua alma os recantos
E que haja nos teus cantos
Uma forma de esperar.

Carlos Tronco
Mondeville
20/04/07

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Ter amor...

...ser amor.

Ser amor e não ser gente
Ser amor
E não tocar
Ser o fruto descontente
De uma vida a sonhar
Ser amor
Já é bastante
Para quem pode esperar
Mas um amor
Tão distante
Não é amor nem amar
Preciso crer
Que existes
Neste mundo, pois amor
Amar sem ver o fundo
Não é amor minha amante
Promessas
Fá-las o céu
Promete um sol radiante
Adeus, vamos em paz
Amor, amor, adiante...

Carlos Tronco
Mondeville
14/01/07

domingo, 11 de outubro de 2009

Porque não me entendes?




Porque as estrelas são leves
a ponto de pairar lá no céu?
Porque um Deus as fez livres
a ponto de a ligeireza as sustentar.
Por isso, o homem que sonha
acaba cego, de tanto olhar.
Agita os braços
tenta imitar os pássaros
assobia
tenta rodopiar.
O homem acaba cego
mas nunca aprende a voar.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Primeira água

Poesia de primeira água
É cristalina não lava
As mágoas do coração
Alguém diz e com palavras
Outras vezes diz com nadas
Tudo para a alma é vão

A água como a mulher
À primeira quando quer
Nem sempre acerta está claro
Corre livre como o vento
Procurando o seu alento
No amor: um metal raro

A água que já foi chuva
Quando enfurece derruba
Por vezes diz-se é da cheia
Talvez chegue o lindo dia
Que o sol seja poesia
Para o amor uma estreia

Nesse momento profundo
Da ressurreição deste mundo
Há-de um poeta acordar
Cada canhão transformado
Em um piano; o teclado
Transformado num altar

Poesia de primeira água
Apagará toda a mágoa
Com um ligeiro tocar
E a alma estremecendo
Serena, então vai ouvindo
Do outro lado do mar

Não o cântico da sereia
Que prende como uma teia
Mas o coro dos escravos
Partidas as suas correntes
Mostram agora os dentes
As flores que levam são cravos

Carlos Tronco
Mondeville
11/01/07

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O poeta bobo

Deixa-me aproximar
os meus dedos ao te tocarem,
apenas pretendem extrair a dor, a tristeza
de uma distância sempre presente
não tenhas medo dos meus beijos
deixa apenas que poisem os meus lábios
sobre a tua pele macia
deixa-te adormecer
dormindo, os sonhos tornam o prazer possível, real, palpável
deixa as tuas menstruas correr entre as tuas coxas
assim está escrita a tua sina de mulher
deixa o teu corpo dorido
receber as carícias de umas mãos sem jeito
os dedos entalados entre sortilégios e delírios
não tenhas medo de sentir o prazer invadir o teu ventre
deixa as minhas mãos trémulas
num gesto mágico ou talvez desesperado, extrair as
tuas angustias, as tuas incertezas
não me deixes falar como um bobo
deixa apenas que te ame em silêncio

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

É mar os meus sonhos

Em tempos jurei ir a Compostela
Adorar Santiago e bota fumo
Foi antes de ter chegado suave, dela
Convite para ir ao fim do mundo

Em Vigo deitei-me ao mar, deixei-me ir
Arrastado pelas ondas do oceano
Quando cheguei a miúda pôs-se a rir:
-Não sabias que havia barco oh cigano?

Estou aqui e com fome, vim depressa
Nenhum barco é tão rápido como os sonhos
Vim a nado para cumprir a promessa
De me perder no belo azul dos teus olhos...

Carlos Tronco
mondeville
04/01/07

domingo, 4 de outubro de 2009

Eis!




Boa tarde, desconhecida da outra margem
Mistério de uma alma que não deseja ser vista
Silêncio de quem não quer ser nem rei, nem pajem
Enquanto escondida, faz de mim fadista

E canto senhora, pois chorar não sei
Canto sonhando, ser um rouxinol
Dou-te a minha voz, o coração já dei
Que fizeste dele? Foi posto em formol?

Vós tendes razão, verdade é, sou louco
Louco pois cantar, não posso sem voz
Enquanto gaguejo, troçai, fazei pouco

Partis a couraça, fendeis esta noz
Vereis pois por dentro, a cor das entranhas
Que seja a vitória, dos contra e dos prós.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Sendas e atalhos

Caminharei ao longo da senda da fortuna,
interrogando cada olhar que cruzarei
em uns, apenas verei morte, desprezo
quando o teu olhar cruzar, eu saberei
se o profundo do mar já foi vencido
se o infinito do amor eu encontrei
eis o ser pelo qual ando perdido
eis o olhar a quem, para sempre, me prenderei.

Carlos Tronco
Mondeville
10/12/06

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Uma flor na areia




Imagina uma praia,
de areia muito branca,
de mar muito quente,
ao longe tu caminhas levemente,
quando do outro lado do longe,
docemente
caminho eu .

Será que me reconhecerias
assim distante
entre mar e dunas
entre sal e azul?

Será que correrias,
braços abertos ao vulto
que do outro lado da esperança
correria ao teu encontro?

E depois,
ali abraçados e felizes
apenas felizes de poder-mos saborear o instante
em que um grão de areia descobre
um amor-perfeito
perdido na imensa praia da vida.

Carlos Tronco
Mondeville
30/10/06

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Aceitação




Estendo os braços
Que já tantas esperanças
Traíram
E os dedos descarnados
Trémulos
Procuram
Na negra cegueira da noite
A tua imagem
A tua sede
As tuas vontades
As tuas incertezas
Procuro-te
Em um céu estrelado
De tanto sombrio
Procuro a luz
Que guie os meus hesitantes passos
Procuro o Olimpo
Deusa morena
Do sul
Procuro os teus seios
Procuro o alimento, a vida
Procuro o amor nesta noite interminável e glacial
Onde nem a música
Das trevas
Interrompe a solidão de um sonho
E tu mulher
Que miúda já não quer ser
Será que me aceitas com todos os meus defeitos
Os meus medos
As minhas hesitações
O meu feitio colérico?
Aceitas a minha ternura sem jeito de ser?

Carlos Tronco
Mondeville
25/10/06

sábado, 26 de setembro de 2009

Quando

Quando beijo o teu ombro procuro
O arrepio, de um coração ofegante
E sinto aquele poder do gigante
Cujo olhar derruba até um muro

A parede é quem separa os seres
E o meu beijo pretende dar alento
Continuo mais abaixo se quiseres
Beijos doces e leves como o vento

Quando chegar ao monte tão sagrado
Em que Vénus ganhou fama no amor
Quero que aceites o meu beijo com agrado

E que tal a loba que em Roma então deixou
Romus e Rómulos matar a sede
Compreendas que este homem te amou

Carlos Tronco
Mondeville
25/10/06

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Promessas




Dizia que apanhava os cabelos
porque a tua cabeleira
me dá vontade de acariciar,
sentir a textura, o perfume; compreendes?

Até esconder a minha face,
quando triste, quando dorido
para que não vejas a minha cara
para que não oiças as minhas lágrimas.

Para que possas continuar a amar-me,
que palavras poderia eu dizer?
Para que o milagre
da aceitação aconteça?

As minhas mãos tremem,
porque não conheço certezas
a minha voz treme,
porque apenas procuro.

O meu coração bate,
porque agora espero,
as minhas mãos pedem
porque o teu peito é doce

Para escrever, preciso de viver o momento
as letras vão caindo dos dedos
e as quedas vão formando palavras
e as palavras, vão gritando clamores.

Os clamores vão
chamando amores
e os amores vão
embalando as almas.

Carlos Tronco
Mondeville
25/10/06

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Êxtase solitário





Êxtase solitário

Se é possível no deserto, pensar haver encontrado
A sensação divina de partilhar com um Deus
Pedir que o pecado seja perdoado
Em um instante de êxtase contemplando os céus

O deserto por vezes, não é de areia feito
E a sede sentida, não se afoga em nascente
Por vezes apenas sede, de alma e de peito
A solidão maior deserto, que encontra a gente

A mão febril, passeia docemente
A sensação de até um miragem, poder tocar
Vagueia descansada, entre o seio e o o ventre

A sede do deserto água pode acalmar
A solidão consentida, se transforma em leite
Êxtase solitário, também é amar.

Carlos Tronco
Mondeville
24/10/06

sábado, 19 de setembro de 2009

Ergue-te




Não eram palavras
nem apenas letras
muito menos sonhos
nem brisa
nem vento
sequer juramento
ou soma de nadas

era como um punho
fechado
com vida
promessa
sagrada
um sopro
à partida

o tempo que passa
e tudo transforma
uma vez em nada
outra vez adorna
a ideia levava
mais longe, mais alto
tal o sol da aurora

fica a esperança
e a dor e a lágrima
que na face dança
há-de ser a água
para flor regar
em dia em que azul
possa eu beijar

Carlos Tronco
Mondeville
12/10/06

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Escuta




Escuta
Não os sinos da catedral
Que anunciam a morte
Nem aqueles da capela
Que prometem afugentar o trovão

Escuta
Escuta as badaladas
De um coração que é teu
E que só pode entender
Quem te ama

Escuta
Escuta os seus desejos
E segue o compasso
Dos teus ventrículos
Para realiza-los

No coração és tu quem mandas

Escuta o teu coração
E deixa-te enternecer
Pela beleza
Das cores
Pelo perfume da vontade
Pelo macio da saudade

Escuta simplesmente
E age tendo reflectido

Escuta o teu coração
E deixa livres os campanários
Para que as cegonhas
Possam construir os seus ninhos.

Carlos Tronco
Mondeville
05/09/08

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Vês?




Vês a tua mão
Que tão ternamente
Segura a minha?
O que vês são fios
E um deles uma linha
Um fio entre o parto e a morte
Uns chamam-lhe linha da sorte
Outros a linha da vida
Onde a passo perco o equilíbrio
E temo, também confesso
Perder o sentido e o resto
Não te rias linda magana
Eu sei, a minha mão
Há muito já a mediste
Com teu olhar de cigana

Carlos Tronco
Mondeville
14/03/07

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Eu não sabia




Eu não sabia

Eu não sabia escrever
Tu mostraste-me o papel
E a tinta tornou-se palavras

Eu não sabia escrever
Tu ensinaste-me que uma pena
Outrora fora asas

Eu não sabia escrever
Tu explicaste-me que como a pena
Deixa o traço da sua alma
No branco virginal do frágil papel,
Também as asas quando divinos lábios
Lhe haviam soprado a brisa do ser
Para que aprendessem a voar,
Haviam deixado no mais profundo
Azul dos céus, o traço das suas penas

Eu não sabia escrever
E tu ensinaste-me a escutar

Eu não sabia escrever
E tu pegaste na minha mão trémula
Para que juntos, descobrisse
Os arabescos subtis do teu corpo

Eu não sabia escrever
Mas contigo nasceu algo poético

Eu não sabia escrever
E contigo aprendi a soletrar
a palavra Mulher

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Penas e tinteiros de alguém



Viver de penas que escrevem
e não de setas
Penas e apenas
penas das suas próprias
mágoas
Ser barda, poeta
de primeiras águas
E não contentar-se
de tinta que não presta
Respeitar ainda
quem verdade clama
E não, tentar achincalhar
Uns cantam por versos ter
até na alma
Outros, por não terem, querem
apenas fama e
Os versos se contentam de copiar
Carlos Tronco

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

O milagre dos lábios




Ontem
já tarde
perguntaram-me
o que era o amor
e eu que não conhecia
nem sequer soube dizer
se era perfume
ou flor.

Fechei os olhos
e disse
abraça-me eternamente
aquilo que a alma
sente
só pode ser a paixão
que sente um coração
quando bate ternamente

Carlos Tronco
Mondeville
29/09/06

domingo, 6 de setembro de 2009

Garrafa ao mar...



Quando emoção forte
profundamente toca
e como um terno olhar
acaricia o pensamento
então o meu olhar,
em estrelinhas foca
estrelas celestes
cortando o meu alento.

E não é que então,
quando menos espero
aparece um “fantasminha”
que me faz sorrir
recordo o terno tempo
era primavera...
pão não é só água,
mas também farinha.

Hoje és tu garrafa
que me fazes rir
dizes ser de além
mais longe que o mar
feita de maçãs,
e peras também!
A sede às almas
sabes tu tirar.

Carlos Tronco
Mondeville
13/09/06

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

IMAGINAI




Imaginai

Imaginai um ramo
Carregado
Carregado, mas não de flores
Essas já caíram
Imaginai
Um ramo vergado
Pelo peso dos frutos
Tal como
Uma vida repleta de experiências
Imaginai
Imaginai um velho
Olhar e tentar
Compreender
As crianças que brincam
A sombra da frondosa árvore
Para finalmente concluir
Valeu a pena

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Apenas para adornar o mundo





Era apenas um penedo
de formas arredondadas
pela chuva
pelo vento
pela sorte.

Por vezes metia medo,
mas atento
oferecia
nas suas rudes formas
que o tempo,
com pequenos toques,
muitas carícias,
e algumas tempestades
havia retratado,
tal a sua própria imagem,
a sua sorte.

Ali só
e face à morte
que a todos espera,
testemunhava:
rochedo não queria guerra
mas apenas que o tempo,
lhe concedesse
na sua espera
que se transformasse,
um dia,
talvez o da ressurreição,
em uma flor,
desabrochando
da mão da mãe terra,
para adornar o mundo.

Carlos Tronco
Mondeville
27/08/06

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Ceras também são vela



Sinto no oco das mãos
o vazio do mundo
em que respiro.
Nadas
e ainda menos
linhas
de vida,
sonhadas,
mais que verdadeiros amores.
Imagino sim,
que no vazio tudo cabe,
mesmo Vénus,
a estranha companheira
das frias
madrugadas.
A estrela do Pastor.
Doces pensares.
Será caso para abraçar,
as palmas das minhas mãos,
e depois erguê-las ao céu,
para que o milagre se concretize?

Acendo uma vela
e no vazio,
deixo que a vela arda.
Quem sabe!
Tudo pode acontecer...
A cera corre
e no queimar da pele,
das mãos que a recebem com carinho
lembra,
que o vazio também dói.

Carlos Tronco
Mondeville
25/05/06

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Trasmontana




Saia comprida mas negra
debaixo do avental
Blusa de cores, garrida
manta cinzenta, mortal.

Nos cabelos carrapito
nos olhos, o infinito
nos lábios, o sabor do mal.

O rosto fora bonito
cobre-a um lenço esquisito
Quem é? Que faz afinal?

É norte, são Trás-os-Montes
por vezes perto das fontes
pode-se ver, a fiar...

Leva na mão uma roca
com a outra gira um fuso
a lã é de cordeiro luso;
Em cada pé uma soca

Não tece esperança, mas medos
e a lã que ela fia
é a única alegria
que lhe passa pelos dedos.

À Mãe Lurdes
Às mulheres de Tinhela, concelho de Valpaços

Carlos Tronco
Mondeville
24/08/06

sábado, 29 de agosto de 2009

Sagres



O mar parecia apenas água
de olhos azuis
como o azul do infinito.

Convidava a beija-lo
pois fazia-se bonito
o mar tal um amante
terno, doce e bendito

Convidava para o largo

Mostravam o caminho
a ausência de nuvens
adiante partidas

O ar quente
ar sem chuvas

As rochas, de mãos erguidas
quiseram também partir
ali ficaram perdidas

Sonhos de duros rochedos
sortes de almas sofridas

Vi navios
também velas,
distraído
pus-me a sonhar
lembrei-me de caravelas
deitadas por esse mar
lembrei-me um instante do mundo
dito redondo, mas chato
e em vez de aproveitar
uma vida ao desbarato
como as rochas
pus-me a sonhar...

Esqueci-me dos medos

Vi-me um instante marinheiro
um quase navegador
deixei-me levar ao mar
para amordaçar a dor

O mar estava frio
e cedo me acordou
em vez de ter um navio
rápido o sonho acabou

Sentado em um rochedo
rochedo da ponta de Sagres
segredos São Vicente do Cabo
Agora tu também sabes

Carlos TroncoC
Sagres
25/07/06

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Omaha Beach



Um balde, de água
e no fundo perdido
de areia, um grão
por sereia esquecido

Outrora caíra; penteava o cabelo
na palma da mão
sorri hoje ao vê-lo
brincava a criança com a pá então

Verão e na praia, muito divertida
sonhava esquecendo o tempo da escola
altas torres, castelos, assim corre a vida

Na praia, do mar, pode ser princesa
o tesouro são conchas, o cofre a sacola
banquete servido, de areia é a mesa.

Carlos Tronco
Colleville sur mer
11/07/06

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Quando cai o céu perde o mar o verde




O horizonte havia desaparecido
e já não era possível distinguir
a linha onde o céu tocava o mar
numa perfeita união de cores
uma não menos
perfeita comunhão de elementos.

Porque já não acreditavam em um Deus
que os havia esquecido
junto ao salgado
agora igrejas e capelas
ofereciam o seu reflexo
não ao infinito
mas sim ao profundo.

Pairavam algumas gaivotas
hesitando entre um ar
que as deixava voar
e um liquido que as alimentava.

De vez em quando
deixavam cair dos bicos vorazes
algum mexilhão
para constatar
o quanto dura é a terra
o quanto a vida é frágil

O barco ia afastando-se de Saint Vaast la Hougue
com o barulho ensurdecedor
dos motores diesel
já cansados
procurava recordar
que só o esquecimento
permite avançar.

O celeste diluíra-se no oceano
e este por sua vez,
procurava
abraçar as estrelas

Carlos Tronco
20/08/06
Ile de Tatihou

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A água sabe



Deixa-te levar canoa
Que o rio sabe o caminho
A água não corre à toa
Desce sempre um bocadinho

Tem por destino, o mar
Sonha um dia ser salgada
Quando com ele se deitar
Entrega-se para ser amada

A água traz a frescura
De longe, dos altos cumes
Quando o mar é só loucura

Quando o rio na foz morre
Acabam também os ciúmes
E depois só vento corre.

Carlos Tronco
Caen
05/07/06

domingo, 23 de agosto de 2009

Fado dos pais sem sonhos


Tinhela-Concelho de Valpaços

Porque me negas tu Cristo
Quando afirmo que existo
E me proponho rezar
Levas-me os pais que adoro
Com o tempo que passa e choro
Só por não poder gritar

Desce da Cruz e vem ver
Aqueles que fazes morrer
Porque lhes tiraste os sonhos
Já quase não acreditam
Que ainda vivem e meditam
Até lhes roubas os olhos

Eu sei és filho de um Deus
Que na terra eram judeus
Aqueles que te educaram
Não te vingues deste mundo
Olha bem, vê que no fundo
São seres que já se amaram

Senhor Deus tem piedade
E se for necessidade
Leva-me a mim para o inferno
Se és o Deus verdadeiro
Aceito partir, eu primeiro
Compreende o meu drama interno.

Carlos Tronco
Mondeville
19-06-06

sábado, 22 de agosto de 2009

Horizonte olhado, sonho consumido




Princípios de uma tarde que promete ser límpida
o azul do céu, apenas deixa ver
a imensidão do manto, suavidade da túnica
tudo o que o infinito nos pode prometer

Sonhos sim. Quem sonha tem esperança
de a uma nuvem frágil, se poder agarrar
e assim mimado, como uma criança
voltas sem fim, ao mundo, levemente dar

Comparado a Deus, ter poder de chuva
e até aos réus, poder perdoar
ser rei de Inglaterra, e “fiel” a Cuba

Sonho realizado, docemente pousar
e depois descer, tal é o destino
à terra sagrada, que um Deus nos quis dar.

Carlos Tronco
Mondeville
07/06/06

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Mar também é água

Naquele tempo, vivia no fundo do oceano
Um Deus, que só tinha de humano
O olhar; um dom dos céus.
Entre rochedos e o ar
Corais de todas as cores
Não tinha outros amores
Que ver o tempo passar.

O tempo devagar corria
é sabido de um qualquer
e não tendo o Deus mulher
pouco a pouco, a cabeça perdia.

Logo, esse Deus algo humano
Em vez de conquistar
Diana, Vénus, Afrodite
Ou qualquer deusa bendita
Contentava-se de cobiçar
Das sereias, a mais bonita
...são mais as mangas que o pano.

Carlos Tronco
Mondeville
24/05/06

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Assim vai a vida...





A água ia correndo
devagar
sem rumo certo
sabendo apenas
que chegando
se tornaria mais salgada.

A ponte, impávida
por ali ficara
a ver correr águas,
depois de águas.

Unidos por uma só
e mesma sina,
ali se tinham encontrado.

Oposição de posturas:
Uma corrente,
lá ia, sem dar conta
atrás da vida
enquanto a outra
mais pacata,
esperava a morte.

No entanto,
partilhavam um só e único
destino:
quando morresse a ponte
o rio perderia o seu mais fiel
admirador
e não tendo
quem o contemplasse
noite e dia
correria louco
afogar-se
no salgado mar
do esquecimento.

Carlos Tronco
Mondeville
23/05/06

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Vestígios





Do alto das muralhas, pelo tempo vencidas
Se pode contemplar, paz e tranquilidade
Um rio e até as torres erguidas
Completam o quadro silvestre, da cidade

A relva é muito verde, reflecte a esperança
Os narcisos florescem; e dá gosto vê-los
Entre as flores corre agora alegremente uma criança
As muralhas já não servem, terminaram os pesadelos

Nunca mais, tantas mortes; e para que serviram?
Ontem inimigos, hoje quase irmãos
Apenas fizeram chorar, as mães que os pariram

Foi há muito, em algum século passado
Uma guerra, talvez mesmo mundial
Em que o verde campo, ficara encarnado.

Carlos Tronco
Mondeville
18/04/06

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O que é a vida afinal?

Cambaleando
tal um sonâmbulo
em instável equilíbrio
sobre um transparente
fio de seda
de uma mágica teia
pronto a perder os sentidos
e deixar-me encantar
pelo olhar mortífero
e sem piedade
do aracnídeo
sinto que a cada passo
melhor adere ao fio da vida
o pé direito
depois o pé esquerdo
transmitindo perfeitamente
as vibrações da minha impotência
ao monstro que teceu a armadilha
perco o equilíbrio
tonto
como embriagado
pelos vapores de um éter celeste
e porque a dor é imensa,
pergunto
será que o Deus que reclama pronto
a minha alma
é uma aranha também?

Carlos Tronco
Mondeville
15/05/06

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Vou contigo

Sinto
como um vazio no peito
como se a alma
sem jeito
estivesse a morrer
já não bate
badaladas
o coração já não sente
do etéreo as chamadas
sinto o inútil da vida
abandonada esquecida
sinto a palavra
sem cor
no fundo o que é o amor?
será das rosas a flor
o perfume do jasmim
apenas fonte de dor?
acredito
é mais que tempo
dar por findo o tormento
confiar a alma ao vento
que a leve para onde for.

Ouves?

O silêncio são palavras
com que grito o tudo, os nadas
e se exprime o coração
São dores há muito sentidas
nos caminhos destas vidas
de amor e de paixão

O silêncio são castigos
ou melhor, talvez abrigos
onde venho repousar
A alma que tanto custa
deixar sempre andar em busca
e a um Deus confiar

O silêncio são promessas
por cumprir, feitas sem pressas
e um dia , se calhar
Da caverna, onde deixei
esperanças de ser rei
sai rainha para amar

O silêncio vai passando
primeiro assobio brando
depois clamor de assustar
Ouvem-se já as pandeiretas
os bombos e as cornetas
musica ou ressuscitar?

Carlos Tronco
Mondeville
13/04/06

segunda-feira, 13 de julho de 2009

A morte da esperança...China, Irão, etc.

A morte da esperança

De novo as trevas desceram sobre a terra
e o olor de queimado, paira agora aqui
não arderam coisas, foi estranha a guerra
ardeu a esperança, igual nunca vi

nas faces cansadas, desgosto é profundo
a traição foi tal, nem acreditavam
já não há caminho, valido neste mundo
ao ouvir o mal, apenas choravam

uma vez caídos, no chão, reparai
ainda crianças, são os vossos filhos
estendei-lhes a mão, se pretendeis ser pai

levam inocentes hoje para o calaboiço
amanhã será, sempre um novo dia
a sinistra forca, o vosso baloiço

Carlos Tronco
Mondeville
01/04/06

sábado, 11 de julho de 2009

Como se faz?



Como se faz um poema
perguntou intrigada a criança
os olhos repletos de esperança
a alma cheia de alegria
procurava uma via
mas não sabia dizer

Eu apenas disse
(decerto era tolice)
primeiro é preciso querer
querer abrir a alma ao vento
mas também estar atento
ao mundo e saber partilhar
na palavra, num olhar
na lágrima, numa emoção
saber dar o coração
sem ao coração tirar
aquele modo de apertar
e ao corpo inteiro dar
não só sangue, vida também

Primeiro
é só uma palavra
que pouco diz
quase nada
depois duas palavras
já são quase uma frase
uma acção
com três já se conta uma história
de fracassos, de vitória
e assim calma e docemente
não só somos simples gente
somos a força do mundo
buscando cá nas entranhas
no que temos de mais profundo

Sem vício, sem artimanhas
deitamos a barca ao mar
depois de muito escutar
sabeis o que disse a criança?
-Sou poeta, ...se calhar!

Carlos Tronco
Mondeville
24/03/06

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Luta!!!

Diziam ser a primavera e neva,
de branca neve vai cobrindo,
a esperança e tudo o que de mais lindo
cabe na alma pura da criança.

Neva e o frio invade pouco a pouco a mente,
no futuro acabam por não acreditar,
é na juventude que se encontra a semente;
a força do jovem sorriso não matai.

Tu oh Deus inerte o que fazes?
apenas deixais nevar e nada mais
não abandones os teus nobres filhos sob lajes
enquanto engordam de parvoíces televisivas os seus pais

Matar a esperança de um coração
é o crime hediondo, imperdoável
em vez de assassinar, tende a tua mão
à inocência; é valor digno de ser louvável

Carlos Tronco
Mondeville
22/03/06

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Remendos e retalhos

Não deixes a colcha sem remendos
sem o teu sentir, sem a tua alma
por vezes os momentos são tremendos
mas a esperança, o único barco que nos salva

Não deixes que o tempo passe
e ao passar
Fira a cada instante, e em uma chaga
se transforme cada lágrima do olhar

Cada instante vale pela felicidade do instante
Vê como felizes tomam sol os lagartinhos
Como voam, contentes, colibris e outros passarinhos
Não olhes para trás, "bora" lá! Avante!

O futuro é em frente, vem comigo
Ajuda-me a avançar dá-me o teu braço
quisera convencer-te e como amigo
deixar-te o mais ternurento e forte abraço

sábado, 4 de julho de 2009

Sente-se a vida



Fundiu a neve
e de novo
se faz sentir
nas entranhas da terra
o grito da vida,
a essência do canto.

Já se ouve o correr da seiva nos galhos
já se sente
a vontade das flores
serem fragrância
e depois saboroso fruto.

Por enquanto só se vêm ramos
vestidos de nu inverno e sem folhas
mas o clamor da esperança
é mais forte que o berro
das trevas prestes a acabar.

Com o sol do novo dia
renasce uma vez mais
o meu jardim.

Carlos Tronco
Vou falar de ti às árvores
Mondeville
12/03/06

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Andamos

Andamos

e os meus passos

marcados ficaram

nos teus passeios

os nossos laços

lábios que amaram

do peito os seios

e os meus passos

marcados ficaram

perdidos

sem meios

marcados na pedra

tão dura

sem veios

Carlos Tronco
Mondeville
06/03/06