quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Os anos vão passando

Os anos vão passando
com a passagem dos anos
os cabelos vão branqueando.
As musas vão-se tornando raras
e a solidão torna-se um modo de vida.
Escrever, sim.
Mas como?
Quando desenhar infelizes letras
parece quase tão árduo
quão limar
as grades dessa prisão
a quem chamamos inconsciente,
apenas com a aspereza das mãos,
os calos da experiência.
Escreverei
quando as amoras adornarem as silvas
do agreste monte:
chega, quem segue o bom caminho.

Carlos Tronco

sábado, 4 de abril de 2015

os beijos, só são doces quando dados
um momento etéreo sem arrependimentos
e assim como presos pelos lábios
partilhamos mais que nós, os sentimentos

Carlos Tronco

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Uma estrela apenas
A luz
Um cheiro de lavanda
De sul
De vida
De areia, de mar

Um sol.
Um sol
Da primeira alvorada
Uma estrela da madrugada
Uma luz de candeia
De azeite
De terra quente
O sonho que solda
O rir
A felicidade
De um primeiro beijo
Dado sem saber
Naturalmente
Como o primeiro
Dado pelo sol
À lua
Uma espécie de estrela
Redonda
De tanto acariciada
De tanto desejada

Beijada pelo sol
Perfumada desde cedo
Tentando aprender a voar
Erguendo-se
Com dificuldade
Das manhãs de inverno
Quando o frio das geadas
Amarra a alma
À horizontal planície
Como prece longínqua

A estrela do pastor
Então Vénus
Braço após dedo
Vagarosamente
A coragem
Acaba por vencer
As trevas
Para que enfim
O milagre do dia
Aconteça
E que o azul seja a assinatura
Do amor celestial

Carlos Tronco
Imagino
Sei
que as minhas mãos
nada mais provocam
em ti
que arrepios.
Sobretudo,
quando
beijando a tua nuca,
deixo escorregar
as minhas mãos
da ponta dos teus seios
até ao redondo
das tuas ancas.
Imagino aquele deus
amassando barro.
Imagino,
pois escrever
não sei.
Carlos Tronco
Mondeville
09/02/10

domingo, 9 de março de 2014

Chocalhos

Estes, são de cabra e ovelha do pais basco
Este é de Chaves,
este é daqui perto,
quando formos de peregrinação a Saint-Michel levo-te lá,
fabricam sinos enormes, de modo tradicional, sem mudanças desde a idade media
recentemente fundiram os sinos de Notre-Dame de Paris
o maior pesa 16 toneladas.
O meu preferido é o mais simples,
o da cabra,
é lindo,
feito apenas numa chapa de cobre e soldado a estanho.
São os meus feitiços,
de descendente de pastores.
Porque não voltamos os dois aos nossos 18 anos Maria?
Acho que ainda não era caturro
ou então só um pedacinho,
sabes,
adoro acordar com a musica dos chocalhos,
de madrugada quando o gado vai a lama,
de quando em quando, um cão ladra,
o pastor canta,
Deus permite,
os lobos sonham,
a terra gira,
as estrelas choram,
e tu adormeces em silencio.
Será que sentes na tua pele,
o sopro da minha timidez,
o calor dos meus sonhos,
a musica dos meus guizos,
o sono,
simplesmente o sono merecido,
e adormeces sabendo que te quero bem?
Estrelas há muitas,
mas só o teu sorriso,
ilumina a minha solidão.
Escrevi monte de coisas
e só agora dei conta
que escrevia fora do quadro:
melhor assim,
gosto de ti serena e sorridente como neste momento.
Dormimos juntos hoje?
Já dormias?
Noite feliz...

Carlos Tronco

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Regar enquanto o sol boceja

Fazer render o peixe,
não vá ficar a zero,
com a criança nos braços.

Ficar em vinhas de alho,
gota a gota, gostar de queijo,
como gato do borralho.

Ir à bola com alguém,
bugiar, sem ter o vento na popa
agua abaixo, isto é uma república?
Ou será portal de quinta...
Cigano, judeu errante,
lambo os dedos,
lançam-me a fera
aqueles de lata estanhada.

Eu que fui lavado a lágrimas,
levanto-me com o sol,
para te levantar do pó.

Limpai o rabo a parede,
eu junto-me a malta da corda,
sem ter de me mandar ao ar.

Matar o tempo é crime,
meter medo ao susto também,
digo como testamento:
morrer até morre o vento
e o parto é sempre difícil.

Carlos  Tronco

...le cours d'aujourd'hui est, mécanique des milieux continus solides, tenseur des contraintes longitudinales dans une poutre soumise au doute...

sábado, 2 de novembro de 2013

Crepúsculo

Esse momento magico, 
em que se abrem as portas da prisão 
para apenas existirem os braços
que nos doaram asas
as asas do voo
o voo da liberdade
então perguntarei:
-Queres caminhar comigo até ao fim do mundo?
Não te prometerei vida fácil
nem riqueza nem renome
apenas te beijarei a nuca quando o sol raiar
e sussurrarei ao ouvido
vamos, ainda há caminho.
Acredito que no fim do mundo
as estrelas desçam sobre a terra
e seja possível colhe-las
como cerejas
colher estrelas como quem colhe esperanças
para iluminar os nossos passos para diminuir os nossos medos
para nos tornarmos felizes
e eu a chorar
feito parvo,
porque estas longe.


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Depois do verão

De quando em quando passo
por aqui
como a saber de ti
ou de mim
a saber da ausência de nos
e no vazio dos abraços incertos
encontro apenas a angustia
que reavivam as dores
digo que é reumatismo ou talvez velhice
sei que é apenas solidão
e o tempo passa
assim
estupidamente

Carlos Tronco

quinta-feira, 29 de agosto de 2013



Sentei-me no paredão. Areia havia. Parecia um convite a aproximar-me da imensidão do mar. Ao longe passeavam almas. O passeio dos tristes. Pareciam procurar na imensidão da praia, alguma fronteira para conter a própria solidão.
Quisera que estivesses comigo. Contar uma a uma as ondas deste mar. Talvez ondas que ja foram tuas. O mar é livre. Sabias? Tanto bate aqui como se retira além. As gaivotas voam, como encantadas pela crista das ondas.
Dizem que o mar é profundo. Procurei desesperadamente o barco que me levasse mais além. Mais profundos são os sonhos. O vento não parou. Não tomou o tempo de me escutar. Então, escrevi para poder sussurrar ao teu ouvido, o quanto dói, quando até o mar se retira: a solidão é bem mais profunda que o mar.
Carlos Tronco
Ouistreham
15/06/13

terça-feira, 28 de maio de 2013

Escrever um livro é dar um passo. É dar um passo em frente o que permite avançar, mesmo além das dificuldades.
Publiquei um primeiro livro em Março de 2006, autor desconhecido foi um fracasso.
Um primeiro livro na minha língua materna. Na língua das minhas saudades. O tempo, ele passa.
A experiência acontece e as quedas doem. Um livro é por vezes uma simples transição; o que hoje vos apresento é muito simples, apenas trinta poemas, nas páginas pares em português, nas páginas ímpares o mesmo texto em francês. A primeira dizia eu era a língua da saudade, a segunda, a língua dos sonhos, da esperança. Lingua da sobrevivência. Língua do combate dia a dia, contra o desistir, contra o desespero.
Porquê somente 30 textos?
Porque se trata de um convite, um convite a descobrir, um convite a partilhar. Está pronto a ser imprimido, um livro, com um pouco mais de 200 poemas em francês.
Está pronto o livro, mas não estou pronto eu!
Este ensaio surge como a subscrição para avaliar o número potencial de futuros leitores e publicar em consonância.
Espero que gostem.
Este meu novo trabalho chama-se: “Les orangers fleurissent en hiver”.
Para qualquer informação ou encomenda, contactem-me por e-mail:
     carlos.tronco@gmail.com
O porte é pago pelo editor.

Desde ja, o meu muito obrigado.

Carlos Tronco

quinta-feira, 14 de março de 2013

As estrelas também ardem

Depois de mil combates, 
depois de mil ferimentos, 
eu sou aquele que pode ainda lutar 
contra moinhos a vento, 
mas que fracassa,
a maior parte das vezes,
no combate contra si mesmo.
O vinho é tinto maduro;
Mesmo assim o Cristo não me ajuda.
Os erros foram muitos.
Mas,
cada um deles,
participou na construção
do que sou hoje.
Quando cai a noite,
quando as estrelas brilham,
só os sonhos impossíveis
permitem alguma esperança
e o teu sorriso, cigana
é mais forte que a minha cobardia.

Carlos Tronco
Atlântico norte
12/03/13



-Queres um colinho?



-Quero,

é como no escano, 

queimam-se os pés 
e gelam-se as nádegas...

-Não é bem assim.
-Esta bem então.

-Por onde te pego?
a tua cara que repousa no meu ombro,
os teus braços a volta do meu pescoço?
o teu peito contra o meu peito
e ao teu ouvido cantaria
provavelmente...
levava-te ao teu leito,
beijinho na testa,
apagava a luz,

e ia por ai fora por caminhos desconhecidos, 
até ao topo da serra
para poderes dormir feliz.

Talvez alguma onda me levasse...
-Não apanhes frio!

Nus, um contra o outro, 
o termo dinamismo funcionaria melhor
sentir a tua pele, o teu calor, as tuas reacções
fechava os olhos, para não te tornares tímida
para melhor te sentir
nunca te tive sentada 
no meu colo 
de olhos fechados,
para poder responder sem mentir
se abrisse os olhos tu ias rir muito, 
acharias que batotava
nunca jogaste à batota?

Como te sentes assim nua, 
sentada no meu colo?
As tuas delgadas pernas a volta da minha cintura?
Uma manta seria necessária?
Se no teu quarto se fosse autorizado a entrar?
Senão, no sofá.
Cuidado com a pele do teu pescoço, 
não me barbeei hoje
teria de tocar levezinho, só com a ponta dos lábios
tão leve, quão é pesada a distância
Os teus longos dedos, 
palmilhando as costas vergadas
pelo medo de não saber dizer
o teu calor invade
a minha alma.
Sabes o que é a esperança?
Sabes o sabor de um beijo sonhado?
Adormece se te sentes bem.
Acorda se assim o desejas
Ama-me se o teu ser o permite
Abraça-me
porque um abraço sincero nunca matou ninguém
gostas de estar assim abraçadinha a mim?
ter-me por companhia
junto com o frio
deste fim de inverno
desta fim de tarde
de um fim de vida
quem sabe...

não devia prometer se fosse bem comportado
não ousarias dar-me a mão 
quando me viesses buscar ao barco?

-As comadres podiam falar?

-Ai!
Uma bofetada só porque tentei pegar-te na mão?
Meio isolado
machista
a vida dos outros como ocupação
não deve ser fácil, ser mulher, responsável, chefe
não gostando de sobressair, nem ser alvo das atenções...
e solteira 
todos os dias
Sabes
um carinho é um carinho
e meu colinho de vez em quando 
não te fazia mal nenhum.

Carlos Tronco
São Jorge
09/03/13


sexta-feira, 1 de março de 2013


Fado de meias tábuas

Pinheiro, vou-te cortar
E levar-te junto ao mar
Pois tábuas quero fazer.
Construirei um caixão
Onde não quero, perdão
Morar, mesmo se morrer.

Se ele da para enterrar
Dará, para ir ao mar
As sereias conhecer.
Com um mastro e uma vela
Será a nau a mais bela
E assim te convencer.

Claro, não sei navegar
Para quem tem voz, cantar
É a única solução.
Se não for fado é lamento
Mesmo a lutar contra o vento
Será a nau da paixão.

Com três tábuas navegar
E o vento a colaborar
Se um dia avistar terra,
Digo, abraça-me cheguei
Vim sem coroa, não sou rei
Peito nu, não quero guerra.

Trago apenas o coração
E se tu me deres a mão
Daremos voltas ao mundo.
Daqui para a frente andar,
Primeiro há que serrar
O madeiro: o mar é fundo.

Um dia chegado à praia
Perguntar-te-ei catraia:
-Lembras-te do que prometi?
Os anos já foram muitos
Uns perdidos outros juntos
Mas sempre gostei de ti.

Carlos Tronco
Vendôme
01/03/13


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Banco vadio

Por onde me levas
Dás a conhecer
Um mundo sem trevas
Não vás a correr

Tu levas contigo
A parte de mim
Que já não consigo
Levar; é assim

O peso dos sonhos
Mesmo em poesia
São pesos medonhos
Quando a noite é fria

Eu levo comigo, um banco de estar
E tu ao meu lado
Enquanto eu sonhar
O presente dado

Carlos Tronco
Honfleur
19/02/13


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013




Trevas

vai
sonha
descobre-te
não perguntes
ao espelho por onde vais
não lhe perguntes quem és
vive
a felicidade esta nas tuas mãos
pena eu não saber cantar
fora  rouxinol
e a noite avança
e o frio fere
e na solidão das trevas
com o medo da noite
vem o fantasma do fracasso

para que serve escrever
se ninguem lê
a noite avança
e não consigo dormir

Carlos  Tronco
Granville
15/02/13

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013


Dá-me a tua mão

dá-me a tua mão
para que leia a nossa sina
que me perca na tua linha da vida
que apertes a minha alma perdida
que sinta a felicidade
desabrochar entre os teus dedos
enfim,

apertar não,
que ainda te sufoco
mas posso tentar compreender-te
de alma e coração
dá-me a tua mão
os mesmo dedos com que acaricias
o teu mais profundo sonho
e sorris
quando adormece a tarde
para espreitarem a estrelas
 
e choras quando a lua se esquece
 
de aparecer por trás das nuvens


Poemas a quatro mãos

Carlos Tronco

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013




Vem sentar-te comigo


Para ti desenharei
Um banco simples
De carpinteiro,
Que farei em castanho,
De um souto transmontano.

Procuraremos juntos a sombra
Consoladora
Das mais frondosas arvores,
Onde cantarão
Os mais subtis rouxinóis.

Quando caírem com o inverno
As últimas folhas, as primeiras geadas
Aqui,
Continuaremos além,
A procurar a felicidade, pois,
Este banco dos sonhos, é de levar.

Enfim, quando for demasiado velho,
Para caminhar a teu lado,
Posso servir ainda,
Para ser o teu banco de esperança
E assim,
O nosso banco dos desejos
Dará volta ao mundo.

Carlos Tronco
Evrecy
28/01/13

sábado, 26 de janeiro de 2013




Razão ou sentimento?

Sempre te disse que não fosses,
Que ficasses
E não ouviste.
Calei-me.
O tempo passou.
Agora 
Subsiste 
O silêncio
E somos apenas dois.

Carlos Tronco
Granville
08/01/13

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013



Adeus disse

Chegamos a um cruzamento
Nos caminhos da vida
E temos de decidir
Quais pegadas apagar
Para que possamos continuar juntos.
Não te menti até aqui.
Se não te contei tudo,
Foi para não mentir.
O homem tem tendência a enaltecer
O que viveu.
Por isso não disse tudo
E talvez, até tenha esquecido 
O que não foi dito.
Assim pensava,
Caminhando só
E sonhando
No que te pudera dizer
Se te tivesse encontrado,
Enquanto era vivo.

Carlos Tronco
Granville
08/01/13


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013




Conselho de um pastor ao seu rebanho

Cordeiro - disse um dia o pastor - segues-me 
Aonde eu for
E se cair na marmita
Faz-me um grande favor
Deixa de ser ruminante
Caldeirada é coisa boa
Para o gado e a pessoa
Só assim compreenderas
As tretas meu bom rapaz
E tudo o que anda por trás.

Carlos Tronco
Granville
08/01/13

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013





Dança?

Um pé que quer
Avançar.
O outro,
Quer recordar
E nesta teimosia sapateada
Nasce a dança do futuro.

As solas, para fazer rir,
Mostram por baixo
Um furo:
É por ali que se escapa
A vontade desenfreada
De dançar
Com o marido ou o vizinho
Um vira ou corridinho.


Carlos Tronco
Grainville
08/01/13

sábado, 19 de janeiro de 2013



Coroas prateadas

Que cor dar ao tempo
Que passa e não cansa?
É cinzento,
Ou prateado?
Negro ou desguedelhado?

Caracóis feitos de letras
De rimas, entrelaçados
Nos versos suspensos ao tempo
Uns caracóis entornados

Cabelos lisos de tanto crescer
Em volta da esperança
De nunca branquear.

Carlos Tronco
Granville
08/01/13